O MANIFESTO AFRO, POP E ROCK DE CHICO CESAR

06/11/2019

O paraibano falou com a gente sobre o novo disco e manda um recado: " Amar é a melhor forma de combater o ódio"

O cantor Chico César (Fotos: José de Holanda) 

 

Se o amor é um ato revolucionário, Chico César quer liderar essa batalha. Ao menos é o que o disco O Amor é um Ato Revolucionário, seu 9º álbum de inéditas, nos mostra.

 

Neste novo disco, o paraibano une o social e o amoroso para cantar sobre os dias difíceis que o Brasil vive politicamente, criticar o facismo, defender as mulheres, falar de diferenças sociais e raciais, tudo isso sem deixar de cantar o amor.

 

'Eu Quero Quebrar' e 'Pedrada' vem com peso mais crítico; em 'O Homem do Cobertor Poluído' ele ironiza sobre pequenos burgueses; 'History' e 'Like' versam sobre amor em tempos de internet; 'As Negras' remete às mulheres africanas, enquanto 'De Peito Aberto' lembra que as mulheres tem direito sob o seu corpo, passando pela romântica e sensual 'Minha Morena'.

 

Envolto em uma áurea sessentista, as diferente temáticas das 13 faixas combinam com a variedade nos arranjos: há rock, pop, reggae, uma pegada jazz em músicas que protestam fazendo dançar nesse disco que soa como um manifesto.

 

Ele bateu um papo com o Azoofa para falar sobre este novo trabalho. Confira abaixo a entrevista:

 

O nome do disco, ‘O Amor é um Ato Revolucionário’, me remeteu direto ao slogan 'Faça amor, não faça guerra', lá dos anos 60. Qual a referência desse tempo, política e estética no seu disco?

 

Acho que tem bastante a ver com o fim dos anos 60 e o começo dos anos 70: maio de 68 em Paris, movimento hippie, sublevação da juventude contra a guerra do Vietnã, movimentos de libertação contra o imperialismo na América Latina, festivais de rock, Woodstock, Hair (a peça e depois o filme). Contracultura em geral. Mas o slogan que primeiro me vem à mente é o de guevarista: "Endurecer porém sem jamais perder a ternura". O disco bebe nessa fonte.

 

Suas canções neste disco tem um quê de crônica, revelando personagens e sentimentos de um momento onde estamos guerreando entre a esperança e baixo astral. Essas músicas foram nascendo sem pretensão de ser música, como foi esse processo de composição para o disco?

 

Quando as letras vieram antes, e isso aconteceu em alguns casos, eu sabia que virariam canções. Elas já tinham esse propósito. A maioria já veio com letra e música e foi direto pras redes sociais em versão voz e violão. Eu tinha uma certa urgência de comentar o que estava acontecendo conosco, com o Brasil de 2013 pra cá. Mas queria comentar com poesia, mesmo num discurso mais direto.

 

Ouvindo o disco, a gente nota uma soltura na melodia, digo, aquela coisa de jam, de deixar fluir a banda. Esse tempo maior para tocar foi proposital ou aconteceu na hora da gravação?

 

Foi proposital. Eu não queria falar de liberdade, do desejo de liberdade, de modo engessado. Eu queria exercitar a liberdade já que estava me propondo a falar sobre ela. Não era pra reivindicar, era pra ser. Ensaiamos antes, sempre improvisando. E na hora da gravação o frescor veio, aceitamos e assumimos o que pintou.

 

Nas letras, nas que você fala sobre os direitos mulheres, fascismo, diferença social, tudo vêm com crítica, mas também afeto. O que te ajuda a manter esse olhar crítico, mas de certa forma ainda doce, otimista, talvez?

 

Eu sou otimista e alegre, sou mesmo doce e, às vezes, mais sarcástico e ácido. Mas penso que abrir mão da ternura, do afeto, é entregar os pontos e fazer o jogo do sistema opressor e seus agentes. Amar é a melhor forma de combater o ódio. Dançar é ótimo para combater a dureza marcial que tentam nos impor. Algo do tipo: vamos quebrar umas vitrines, mas no caminho a gente se beija.

 

 

 

Uma curiosidade: a capa do disco traz você em uma indumentária. É a única capa dos seus discos (tirando dois que trazem ilustrações) em que você aparece com a cara mascarada. Que simbologia é essa? Seria um guerreiro desse tempo?

 

Comecei a usar essa máscara nas apresentações que fiz no carnaval mais recente, no Maranhão e na Paraíba. Seria uma espécie de black bloco. Há referência nos mascarados em geral do carnaval nordestino mas também nos papangus do reisado e em várias manifestações da cultura popular latino-americana. Colômbia, México... inclusive na luta livre. E aí você está certa ao intuir nessa imagem um guerreiro de nosso tempo.

 

Sei que esse é um papo para 2020, mas o que vem primeiro à sua mente quando você pensa que vai completar 25 anos desde o seu primeiro disco?

 

Poxa, estou ficando um rapazinho (risos). Brincadeira. Na verdade, penso: que bom, o tempo passou, estou aqui trabalhando e há jovens, pessoas muito novas, descobrindo meu trabalho, se interessando ainda pelo meu primeiro disco, descobrindo que "Onde Estará o Meu Amor" é de minha autoria. Acho incrível haver uma banda de reggae que se chama Amarazaia e um duo chamado Béradêros. Acho que tem aí um fenômeno de cauda longa. Gosto disso.

 

Quem escreveu
Andréia Martins

É jornalista, trabalhou com edição e reportagem nos portais Vírgula, Globo.com e UOL cobrindo música, política e internacional. Hoje segue na redação e também é editora do Roteiros Literários, sobre literatura e viagem, e do blog Quadrinhas, sobre quadrinhos feitos por e sobre mulheres.

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