A ESSEPÊ DE JONNATA DOLL

21/11/2019

Em seu 3º disco, Jonnata Doll e os Garotos Solventes cantam sobre amores perdidos, encontros, excessos e a opressão na cidade grande

A banda Jonnata Doll e os Garotos Solventes (Foto: Mauricio Mudou)

 

Quando Jonnata Doll veio a São Paulo pela primeira vez, a impressão não foi das melhores. A convite de Fernando Catatau (Cidadão Instigado e outros), ele e o resto da banda (Os Garotos Solventes) chegaram surpreendidos pela maré de gente e por acontecimentos típicos do dia a dia da grande metrópole.

 

Do aeroporto, vindos de Fortaleza, a banda pegou o ônibus até o metrô Tatuapé. A banda tinha três baixos. Não foi fácil manejar tudo pela estação. Mas isso era fichinha frente ao que aconteceria com Doll: sua mala foi roubada no trem. "Fiquei com a mesma roupa durante uma semana", lembra ele.

 

O episódio já faz alguns anos e hoje, a capital paulista é casa desta banda e um dos temas mais presentes no terceiro disco, Alienígena, lançado em agosto deste ano. Fernando Catatau foi convidado para produzir o disco, que ainda conta com as participações de Ava Rocha, Clemente, Marcelle Equivocada, Guizado e Murilo Sá (além do próprio Catatau).

 

Nas canções, Doll relata o que viu e sentiu na cidade, conta sobre uma noite de inverno no Vale do Anhangabaú enquanto esperava a menina trazer o chá, fala do “fantasmagórico” Edifício Joelma (‘Ed Joelma’), das pessoas que ele conheceu na sala de espera do centro de apoio psico-social (‘Música de CAPS’) da Sé. Todas as histórias se passam no centro da cidade, onde o cantor mora hoje.

 

São crônicas sobre cenas cotidianas, relações, excessos - algo que Doll conheceu bem - e angústias que viraram músicas. "Sempre fui muito observador, acho que é um modo de viver a vida", conta Doll ao Azoofa. "Me sinto bem e ao mesmo tempo fora do lugar. Mas fazendo arte é a forma que eu me sinto aceito na cidade. Isso me fazer sentir 'sendo'", completa ele.

 

Além das faixas que abordam as ruas e pontos conhecidos da cidade, há outras com temáticas que se aplicam a qualquer grande cidade, como "Trabalho Trabalho Trabalho" (sobre a rotina cansativa de todo o dia de quem pega ônibus lotado e cuja única saída contra a solidão e o tédio é beber, jogar videogame e ver séries de heróis). 


 

"Matou a mãe", que abre o disco, é segundo Doll, "um recado direto ao presidente". São apenas oito versos onde ele canta sobre "a sobrevivência dos vaga-lumes, na ditadura de neon". É uma boa porta de entrada ao estilo da banda: uma música baseada na subcultura punk e na biografia dos excluídos, com ecos de literatura beat e de filmes de terror e amores perdidos.

 

O interesse pelo underground e o espírito de indignação acompanham Doll desde cedo. Nascido em uma família com muita influência religiosa, descobrir-se artista foi sua libertação.

 

"Hoje me sinto confortável. Quando era criança minha família evangélica era muito opressora. Eles eram muito conservadores, ligados a pessoas da igreja e a gente via o mundo pela TV. Ali começou meu elo com a cultura pop. Eu via os filmes e fazia histórias. Criava tudo com meus amigos. Depois veio o Michael e eu me interessei pela dança", diz ele, que ao lado da namorada Marcelle Equivocada realiza algumas performances.

 

Outra paixão de Doll surge nas letras: o gato. "Eu amo gatos", diz ele, que tem um felino em casa. Em "Baby", um passageiro repensa no amor e na cidade que deixou em uma parada no posto do Graal acariciando um gato. Já em "Vai Vai", um gato preto gigante dança enquanto devora um homem vestido de rato - na verdade, tudo não passa de um sonho de um gato que dorme enquanto uma festa regada a cocaína rola em um apartamento. E em "Derby Azul", um gato no segundo andar de um prédio observa um casal bebendo em frente a um estacionamento.

 


 Capa do disco Alienígena

 

A primeira vez que Catatau o viu foi em um programa de TV, onde Doll apresentava uma performance. Ficou intrigado e entrou em contato com ele. De lá pra cá virou uma espécie de padrinho da banda – que é formada ainda por Edson Van Gogh (guitarra), Léo Breedlove (guitarra e teclados), Loro Sujo (baixo) e Felipe Popcorn Maia (bateria e SPDS). Agora, segundo Doll, foi um bom momento para tê-lo mais perto, assumindo a produção do disco.

 

"Catatau tem uma forma de criar música, ele dá liberdade à música, mas ele se apega a melodias bonitas. Ele trouxe para o disco um jeito da gente levar o punk para um lado mais psicodélico", diz o cantor.

 

Foi de Catatau a ideia de nomear o disco como Alienígena, uma das faixas do trabalho. "A gente pensou em outras possibilidades, mas o nome faz referência ao alienígena, que se sente fora da curva, e também ao alienado, como alienado político e, em São Paulo, como o alienígena que invadiu os indígenas, por exemplo", conta Doll.

 

 

Apesar de ser o terceiro disco da banda – sucessor de Jonatta Doll e os Garotos Solventes (2014), produzido por Yuri Calil, também do Cidadão Instigado, e Crocodilo (2016), além de um registro ao vivo entre os dois discos -, Jonatta Doll e os Garotos Solventes já vão para 10 anos na estrada.

 

Ouvir a curta, porém intensa discografia da banda, é mergulhar no universo de Iggy Pop e The Stooges, The Cure, Velvet Underground, cair nos anos 80 ("Ed Joelma" é a mais oitentista das faixas do disco da banda). "Essa é minha década preferida. Depois dela, tudo se repetiu", diz ele. Com Alienígena, apesar de manter a essência do punk rock, ele vê a banda dando um novo passo.

 

"Nossa trajetória é muito gradual, a passo de formiguinha. Na gravação de cada disco a gente tenta mudar. Nesse disco eu percebi que antes eu ficava no 'eu', e eu tentei fazer que nem o Jack Kerouac no livro 'On The Road': trabalhar minha relação com o outro e com a cidade".

 

Quem escreveu
Andréia Martins

É jornalista, trabalhou com edição e reportagem nos portais Vírgula, Globo.com e UOL cobrindo música, política e internacional. Hoje segue na redação e também é editora do Roteiros Literários, sobre literatura e viagem, e do blog Quadrinhas, sobre quadrinhos feitos por e sobre mulheres.

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