Arte que inspira arte: como surgiu o espetáculo Bacurau show

09/01/2020

 

Acho que coube ao cinema criar a obra que retrata melhor os anos 2018/2019 no Brasil. "Bacurau", o filme, tornou-se uma espécie de Black Mirror tupiniquim quando entrega, ao mesmo tempo, tanto uma previsão de futuro (literalmente exposta na legenda "daqui a alguns anos..." que aparece no começo do filme) quanto uma descrição metaforizada da situação política do país na era Bolsonaro (o recrudescimento do ódio, a idiotização via tecnologia e o desprezo pelo conhecimento versus a criatividade, o pensamento coletivo e força-resistência a tudo isso). 

 

Do que me chegou, nem a música, nem a literatura apresentaram uma resposta tão direta à realidade do país. Por isso, vi com muito interesse a notícia de que o filme havia inspirado o produtor Duda Vieira a criar "Bacurau - show", que acontece nesta sexta (10) e sábado (11) no Sesc Pinheiros, com a participação dos três atores-músicos que estão no filme (Lia de Itamaracá, Rodger Rogerio e Junior Black), e os convidados especiais Karina Buhr, Ava Rocha, Lirinha e Fernando Catatau, sob a direção musical de Regis Damasceno. Saiba mais aqui.

 

O processo de contaminação entre as artes - uma inspirando a outra - é comum (filmes com base em livros, por exemplo), mas neste caso vejo mais um alargamento de ideias, um esticar de pensamentos, como se a música dissesse "vejam como eu contaria essa história, mas com cantores, instrumentos e no palco". Gosto dessa intersecção entre as artes exatamente pelas novas possibilidades que elas descortinam. O vento de um voo que faz levantar outro voo. 

 

Bati um papo com o Duda sobre isso, em troca de áudios por WhatsApp nos primeiros dias deste janeiro quente e chuvoso em São Paulo. Me identifiquei com a imagem de Duda no escuro do cinema assistindo ao filme e, ao mesmo tempo, trabalhando, tendo a ideia. Quem ganha o pão com a criação sabe o que é isso: parte do seu cérebro quase sempre está pensando se aquele pão na padaria, aquela fila no supermercado, aquele filme no cinema podem se tornar um projeto.   



1: como te surgiu a ideia de fazer um show inspirado no filme?

 

a ideia surgiu naturalmente. eu me senti muito dentro do filme. eu não sou um personagem do filme, mas eu me senti como se fosse. eu me envolvi dessa maneira, e me imaginei realizando um show ali dentro mesmo daquele universo do filme. pra mim, aquelas pessoas na tela são reais, como eu, como os outros que estão participando deste show. 

 

quando eu saí do filme, eu não lembrava de nenhuma música da trilha sonora. é como se o som que tocou no filme fizesse tanto parte da história que estava sendo contada, que eu não consegui dissociar da imagem do filme. é como se a música fossem apenas sons, e não canções. ao mesmo tempo, achei o filme muito musical. pensei: se eu tivesse ali, o que eu ia fazer? o que eu sei fazer? é montar um show pra aquela gente. 

 

só depois eu fui pesquisar a trilha e escutá-la, e vi que tinha ali 3 atores que também são cantores. isso mexeu comigo, de alguma forma - muita gente não conhece o som do Rodger Rogerio, do Junior Black, e agora vai poder conhecer. 

 

2: como rolou a convocação da banda e dos artistas? quais foram os critérios pra selecioná-los?

 

a primeira coisa que eu fiz foi convidar o Regis Damasceno para fazer a direção musical. ele é um cara que eu adoro e com que eu me dou muito bem trabalhando (fizemos juntos este ano o show do Criolo homenageando Nelson Gonçalves), além de achar que ele é um dos grandes produtores musicais do Brasil atualmente. e Regis é cearense e entende esse universo tanto quanto eu. 

 

os músicos são todos da nossa geração, que já trabalham com a gente ou com os artistas que estão cantando no show. da turma que canta, eu obviamente parti pros 3 que atuam no filme: Lia de Itamaracá, Rodger Rogerio e Junior Black. além deles, os outros artistas convidados são Karina Buhr, Ava Rocha, Fernando Catatau e Lirinha - que, pra mim, também personagens daquele filme, mesmo não estando lá. e na obra deles, você encontra a defesa das mesmas ideias que o Bacurau. e isso é muito legal, o show passa a ser como uma nova etapa do filme, uma nova peça. 

 

3: o que mais achei interessante neste projeto é a possibilidade de diálogo entre as artes, aqui entre cinema e música. num momento crítico pra quem trabalha com cultura no Brasil, estreitar as relações entre as artes parece ser uma boa medida de fortalecimento da cena em geral. como você vê isso? o pessoal do filme curtiu a ideia?

 

acho que a ideia também surgiu por eu achar muito interessante essa ideia de juntar os dois universos. como você disse, esse período que estamos vivendo pede união. e no filme você vê isso. a violência ali é uma reação, mas eles tem uma estrutura organizada de sobrevivência, com ações coletivas. a união das artes - ou uma arte inspirar a outra - gera uma outra coisa, além de ser uma forma singela de fazer o nome desse filme se perpetuar e que ajude a impulsionar o interesse das pessoas em assisti-lo. 

 

o pessoal do filme de pronto recebeu muito bem a ideia. conversei inicialmente com o Juliano (Dornelles, diretor ao lado de Kleber Mendonça Filho), e até pelo ineditismo, eles comentaram tipo "caramba, isso nunca rolou, que coisa mais legal". me autorizaram na hora usar o nome do Bacurau, embora esta seja uma produção nossa. inclusive, eles estarão no Brasil em janeiro e virão assistir ao show. vai ser muito interessante eles poderem ver o trabalho criado por eles ser transformado em show e em música. essa troca vai ser muito especial. não deixa de ser uma celebração da nossa terra e da nossa resistência. 

 

e acho de extrema importância essa união das artes, descobrir novos formatos de fazer a arte e se divulgar arte. sempre brinco que uma pessoa não carrega um sofá, mas duas pessoas fazem a mudança de uma casa inteira. então, quanto mais união, mais resultado também. 

 

4: pessoalmente, como te bateu assistir a Bacurau? que tipo de reflexões o filme te trouxe?

 

eu acho que esse sentimento de fazer parte do filme, que comentei ali em cima, foi realmente muito forte. senti o mesmo sangue nos olhos do Lunga! sou do Recife, que é uma capital, mas me identifiquei com os problemas e mazelas daquela cidade do filme. o Nordeste vive sob ataque permanente, especialmente agora, com um presidente que não se dispôs nem a sobrevoar as áreas atingidas pelo vazamento de óleo. ao mesmo tempo, esse momento é base pra muita criação artística. a dificuldade gera muito sentimento, e o sentimento vira arte. 

 

acho legal que o Bacurau é também um filme pop, de entendimento universal, e as pessoas se identificam com aquela história independentemente de ser do Nordeste, tanto que ele vai indo super bem nos cinemas lá fora. o mundo é desigual, né? 

 

e por fim, gostei que o filme retrata aquela gente como heróis. muitas vezes o Nordeste é retratado com personagens simplórios, quando na verdade, pra mim, as figuras mais fortes desse Brasil são nordestinos. 

 

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Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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