EP da Trupe é celebração política e dançante de Lina Bo Bardi

30/01/2020

crédito: Manoela Meyer

Foto: Manoela Meyer 

 

 

"Eu quero quebrar as paredes", repetia a Trupe Chá de Boldo em 2009, quando compôs a canção com este refrão, "À Lina". Onze anos depois, o pensamento da arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi segue fazendo a cabeça e o coração deste grupo formado por 13 músicos. Talvez Lina esteja ainda mais dentro deles do que antes, pois é a partir de sua vida e obra que se costura o novo EP da Trupe, "viva lina", que chega nesta sexta (31) às plataformas digitais [ouça aqui]. O show de estreia acontece no dia 08 de fevereiro, às 21h, no espaço mais indicado para receber este espetáculo: o Sesc Pompeia, uma das criações mais celebradas da arquiteta.

 

"viva lina" traz 5 canções, gravadas no estúdio Submarino Fantástico, no Magí Batalla Estúdio e no Teatro Oficina, e produzidas pela banda em conjunto com Otavio Carvalho. "À Lina" [Ciça Goes, Felipe Botelho e Gustavo Galo] está ali, numa versão repaginada que também ganhou clipe dirigido por Manoela Meyer e ambientando no Teatro Oficina, outra das obras mais prestigiadas de Lina (assista ao clipe abaixo). "Arquitetotal" [Gustavo Cabelo], "Parque do Bixiga" [Gustavo Galo e Peri Pane], "Chama do Amor" [Remi Chatain] e "Vão Livre" [Gustavo Galo e Paulo César de Carvalho] completam o repertório do disco.

 

Bati um papo com Ciça Goés, compositora e cantora da Trupe, e Marcos Ferraz, o Mumu, saxofonista do grupo, sobre a importância da Lina pra eles, os temas políticos atuais que aparecem nas novas canções e os planos da banda pra 2020.

 

 

 

Como se desenhou a ideia de homenagear Lina Bo Bardi neste EP? 

 

Temos pensado justamente em qual seria “o verbo deste EP”. Não achamos que é “homenagear”. Também não se trata de “nos inspirar” (em lina). Achamos talvez que a resposta (para o verbo e para a pergunta) está bem nos nossos olhos e nos nossos pés: viva (lina!). Vivamos lina. Vivemos lina e tudo o que cabe debaixo e dentro de obras como as que ela fez. Cidade-obra e não cidade-produto. É de termos vivido nesses espaços que nasceu esse EP. Transpiração, afetação, mais que inspiração. Os espaços e palavras da lina ressoam na gente há anos, pulando (quando crianças) o riozinho do galpão do Sesc ou indo para manifestações no vão livre do Masp, tocando no Oficina ou compondo a primeira versão de “à lina” lá por 2009. Esse EP então era de certa forma latente. E depois do show que fizemos no vão, em dezembro de 2018, começamos a nos dar conta que poderia haver um EP para sair disso tudo.

 

O EP me parece o lançamento mais político de vocês, no sentido em que as canções - a partir da obra da Lina - também trazem temáticas de interesse coletivo, como a especulação imobiliária (Parque Bixiga), a valorização da arte (À Lina) e as manifestações políticas ("Vão Livre"). Como você acha que as pautas atuais estão influenciando o processo de criação do grupo?

 

Questões políticas sempre estiveram presentes em nossos discos. “à lina”, por exemplo, que regravamos agora, é uma canção que está no nosso primeiro álbum, bárbaro, de 2010. E questões sobre a vida na cidade e o uso dos espaços, sobre a busca por liberdades no viver e no amar, críticas à opressão machista, entre outras, estão em várias canções que gravamos ao longo dos anos. Mas, de fato, “viva lina” é um EP com mais manifestações políticas e de resistência, seja na luta contra a especulação imobiliária que resultou em “parque do bixiga” ou e na luta contra o fascismo explícita em “vão livre”. Parece difícil ser diferente quando vivemos sob a ameaça real do fascismo, com a censura institucional se intensificando, de um modo inclusive que nenhum de nós (nascidos em meados dos anos 1980) tínhamos sofrido de modo tão incisivo em nossas vidas. Assim, a política atual acaba intensificando nossa produção no sentido de que atrela mais claramente um significado de resistência e transgressão. Precisamos cada vez mais do humor, dos sons, do prazer, das coisas que brotam como cultura – coisas que quem está sentado na cadeira lá em cima acha que consegue “dirigir”, direcionar, abafar aqui, fabricar ali. Brotemos. E sigamos. Lembrando que o nome do EP é justamente a leitura dupla de viva lina. Vivemos, celebramos.

 

Como foi a experiência de gravar e filmar no Teatro Oficina?

 

Além de já termos feito shows no teatro, o primeiro em 2009, alguns membros da banda já trabalharam ou trabalham no Oficina, o que nos traz alguma familiaridade com o espaço. Ainda assim, entrar ali e percorrer o longo corredor, as escadas e passarelas é sempre impactante e surpreendente. Duas das faixas do EP foram gravadas ao vivo no Oficina, com o estúdio móvel do nosso parceiro Otávio Carvalho (que é coprodutor do trabalho). Uma delas também virou clipe pelas mãos da Manoela Meyer. Apesar de certa pressão para que tudo desse certo em um tempo reduzido que tínhamos, foi uma manhã (fria, de julho) muito gostosa e criativa. A gente sabia que gravar esse EP em um espaço projetado pela Lina daria um outro sentido e vida para o trabalho.   

 

Quais os planos da Trupe para este 2020?

 

Estamos bastante animados com o lançamento do EP, especialmente por ser a primeira vez que vamos tocar no teatro do Sesc Pompeia (sempre fazemos shows nos apresentamos outras vezes na choperia), e também com a possibilidade de circular com essas novas músicas por outros palcos. Temos datas confirmadas no Festival Libélula (Paraná), no Sesc Interlagos (show de Carnaval), no Sesc Bauru e na Casa de Francisca, além de outras possibilidades que estão pintando. A verdade é que a gente gosta muito de viajar, por mais difícil que isso seja em uma banda de 13 pessoas. São momentos em que ficamos bastante juntos, o que sempre rende boas ideias, boas histórias, por vezes novas músicas. Além disso, no próprio show de lançamento do EP já vamos apresentaremos músicas ainda mais novas, que compusemos para uma pequena turnê que fizemos no fim do ano no Teatro do Centro da Terra. Talvez em 2020 a gente também registre elas, seja em um disco, um EP ou como singles.  

 

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Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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