LARISSA CONFORTO AGORA É ÀIYÉ

21/03/2020

A multi-instrumentista conversou com a gente sobre o seu primeiro trabalho solo após o fim da Ventre, "Gratitrevas"; leia a entrevista

 

 

O fim da banda Ventre em 2018 (depois de seis anos, dois discos e um EP) abriu um novo espaço para Larissa Conforto. Quem acompanha a cena indie nacional viu a baterista e multi-instrumentista do grupo circular tocando com inúmeros artistas além de sua banda. A sensação era de ver uma artisa que sempre precisava estar em movimento, criando, trocando.

 

Agora, dois anos depois do fim da jornada com o Ventre, Larissa encara seu caminho sozinha. Ela é AIYÉ -- um projeto de experimentações sonoras, mas acima de tudo, uma nova identidade musical e artística.

 

Seu primeiro disco solo, "Gratitrevas" (Balaclava Records), acaba de sair, criado nessa jornada de busca e em uma nova cidade, Lisboa, para onde ela se mudou. Um disco sobre cura, memória e resistência. É um falar de hoje buscando respostas no passado para entender o futuro -- ou viceversa. O nome do disco nos joga o desafio de saber reconhecer as trevas (as nossas e as do mundo) e, mesmo assim, agradecer. 

 

"Semente", faixa que abre o disco, foi a primeira música que Larissa fez na vida, um coco para avó Isis, que como ela diz "partiu de nave espacial no dia do meu aniversário". "Silêncio", uma faixa intro, traz ambiências e compassos alternados, inspirados em sua cena favorita do filme "Mulholland Drive", de David Lynch. "Terreiro" fala sobre umbanda, religião de Larissa. Isso para citar algumas faixas e mostrar que o EP traz diferentes  referências pessoais da artista.

 

Larissa conversou com o Azoofa sobre ÀIYÉ, sobre criar sozinha, a vida em Lisboa e mais.

 

 

 

 

Quando você saiu do Ventre, esse projeto solo estava rascunhado, na cabeça ou ele foi acontecendo?

 

Acho que um pouco dos dois. Eu sabia que precisava fazer algo meu, mas ainda não sabia como, nem o que seria. Olhando pra trás, me lembro de comprar meu primeiro sample pad há 11 anos atrás (uma SPD30), com a intenção de usar loops de beats junto com a voz. Hoje, prestes a lançar meu primeiro álbum, percebo que sempre existiu esse desejo dentro de mim, mesmo antes da Ventre existir, embora eu não tivesse consciência, e precisei desse processo todo pra chegar até aqui. Nada é por acaso,  e ainda tem muita coisa pra aprender, pra lapidar… o que entrego hoje é fruto de uma construção de vida mesmo, de muito trabalho, e isso não acaba nunca.

 

 

Em que momento a saída da Ventre se evidenciou? Foi um desligamento tranquilo? Todos passam bem?

 

Foi durante as gravações do último EP, que ia ser um disco, no final de 2017, logo depois de anunciarmos o Lollapalooza. Ali vimos que estávamos precisando de respiro, os três. Eu não posso dizer exatamente o motivo, e nem quando a decisão foi tomada. Não me cabe… mas estamos todos bem agora, fazendo nossas coisas, e ainda somos amigos! Não é à toa que tanto o Hugo quanto o Gabriel participaram em faixas do meu disco. Eu torço muito por eles, e admiro muito cada um artística e pessoalmente.

 

 

Esse projeto tem muito de experimentação, pesquisa e descoberta sobre rituais, ancestralidade. O que te levou a esse caminho, a buscar essa nova identidade musical?

 

Não sei exatamente o que me levou a quê, mas certamente esse processo era inevitável na minha vida. E nada é por acaso: A gente busca o que nos desperta, e isso sempre tá conectado com uma memória que não é daqui. Quando o peito queima, a chama é urgente. É só doer a ferida que a gente se mexe pra tentar curar… Eu acredito muito no poder da intuição, e certamente eu fui guiada por ela até minha primeira aula de bateria, há 17 anos atrás. Ela também me levou às primeiras vivências ufológicas, sete anos depois, que me guiaram até as viagens ao Peru e Bolívia, e mais tarde Argentina, Uruguai… são muito anos pesquisando as histórias contadas através dos toques de tambor… muito tempo até entender que esse seria o meu lugar de cura, e também o meu propósito de vida. 

 

Mais tarde o Bodytalk me apresentaria histórias de outras vidas, e de ancestrais que eu não conheci; e então a ayahuasca me apresentaria a umbanda, que foi meu grande encontro da vida, e pra mim é hoje uma prática revolucionária, que ensina as historias não contadas sobre a real ancestralidade brasileira, e propõe com amor o respeito a todas as diferenças e crenças. É muito forte, muito importante, muito transformador!

 

 

 

 

Paralelamente, minha avó me deixaria 47 jogos diferentes de tarot e muitos cadernos e livros, que ensinariam sobre hermetismo, alquimia, e de novo mais histórias que me permeiam e tecem esse percurso infinito, com cada vez mais perguntas. Acho que tudo isso tá posto no disco, que também foi naturalmente um processo de experimentações, uma vez que eu decidi juntar referências tão diversas em música, sem nunca ter feito isso antes.

 

É claro que esse não é um trabalho concluído ou pronto.  Eu enxergo como um primeiro passo, uma reflexão sobre o universo que nos cerca no momento de agora, sob o prisma de uma aprendiz, que tá buscando uma gratidão quase que imaginária, em meios às trevas. Nunca acaba!

 

 

E que é ou quem é ÀIYÉ nesse seu universo tão múltiplo?

 

ÀIYÉ é a terra que abriga as diferenças. O mundo físico, que manifesta e reflete o esplendor do mundo espiritual (Orun). É preciso pisar na terra, pra olhar pro céu. E olhar pro céu pra seguir caminhando na terra.

 

 

 (Foto: Rodrigo Tinoco)

 

 

Uma coisa curiosa pra quem te acompanha, e mais ainda pra você claro, é ver uma artista tão habituada a trabalhar em parcerias criar agora com um projeto muito seu, aliás todo seu. Digo, essa mudança do trabalho coletivo para uma coisa só sua... foi muito diferente?

 

Mesmo tocando e estando na estrada há mais de dez anos, eu nunca tinha experimentado uma relação de protagonismo com o meu trabalho, e essa é sem dúvidas a parte mais desafiadora pra mim. Acho que colocar um nome que não o meu próprio no projeto tem a ver com isso. ÀIYÉ tem seu próprio universo, suas demandas, suas buscas. É um recorte meu, que tem vida própria, e dessa forma eu consegui me entender com as minha próprias demandas, pessoais, artísticas e profissionais.

 

Além de experimentar ser compositora pela primeira vez, eu ainda estou experimentando cantar e tocar completamente sozinha no palco! É claro que nada se faz sozinha e eu tenho pessoas maravilhosas ao meu redor que me ajudam muito. Mas ainda são muitas barras pra segurar, muitas decisões que só eu posso tomar, e não tem jeito mesmo. Mas as coisas mais valiosas da vida eu aprendi fazendo, na marra, errando. Então por que agora seria diferente? Eu só aceito e mergulho.

 

 

Mudar para Lisboa te influenciou artística e pessoalmente?

 

Muito. Eu poderia falar de como a cidade é linda, dos movimentos culturais que acontecem, de como eu absorvi coisas incríveis… mas acho que os maiores aprendizados tem a ver com o outro lado: ser imigrante e viver sozinha num pais estranho, num momento de ascensão da xenofobia e consequente tremor da união européia; o machismo que é totalmente dominante na sociedade portuguesa e muito pouco discutido; fora a lingua, a comida, a taxa cambial, etc, etc, etc. É muito fácil imaginar uma vida feliz vivendo em uma capital européia. É um sonho pra muitos de nós, principalmente porque temos a idéia de que a arte é mais valorizada na Europa, o que não é mentira, mas nem tudo é gozo e todo bônus tem um ônus. Vivendo fora eu percebi os bônus de ser brasileira, de ter crescido no Rio, de ter acesso a tanta cultura, tão nossa, tão forte - coisas que, em meio a essa onda fascio-evangélica, às catástrofes, ao genocídio diário, eu não conseguia ver antes.

 

Lisboa me mostrou muito sobre quem eu sou, e assim me ajudou a entender pra onde ir. Sou muito muito muito grata, e estou louca pra voltar logo e poder desfrutar da cidade agora com outras perspectivas (assim que esse furacão passar, claro!). Mas voltar pro Brasil agora, por um período tão longo (e inesperado), também me fez olhar de outra maneira pra essa terra maravilhosa. O ouro somos nós. A riqueza está nas nossas histórias, na nossa luta, na nossa terra. Eu sempre vou voltar. E sempre vou me sentir em casa (embora a casa esteja incendiada, destroçada, em ruínas…). Não tem como estar lá sem estar aqui.

 

 

Na faixa "O Mito e a Caverna" você traz um spoken word, jogando um lance mais de performance... Isso é algo que vem te interessando ou essa faixa em especial pedia esse tipo de formato?

 

Pois é, nesses anos eu fui me interessando muito pelas artes performáticas e criei a primeira performance de Àiyé durante um programa de mentoria artística que participei, em 2018, e aprimorei na temporada de um mês de improvisos que fiz no teatro Centro da Terra, no mesmo ano.

 

Eu projetava meu desktop do computador, abria a página do google e começava a conduzir uma pesquisa sobre temas que permeiam o projeto (feminismo, misticismo, umbanda, tarot,  politica, resistência, etc), enquanto criava camadas de sons ao vivo, com loops e efeitos, que se relacionassem com a pesquisa.

 

A partir daí, fui desenvolvendo performances sonoras em parcerias com outras artistas, sempre no mesmo caminho, com loops e camadas, palavras, ritmos, tambores com efeito… melodias repetitivas.  Eu sou artista sônica, trabalho com diversas formas de arte e som, e com certeza quero trazer cada vez mais esse universo imagético pro meu trabalho.

 

 

 

 

Pro clipe, achei que faria sentido trazer algo que eu já fazia, só que com uma narrativa mais complexa, não tão improvisada. Estou muito feliz com o resultado e espero cada vez mais utilizar linguagens diferentes nesse projeto!

 

Sobre o spoken word, essa faixa não foi pensada assim, mas acabou sendo. Assim como em Terreiro e Pulmão, que eu recito poemas, repito frases… eu gosto de poesia, gosto de palavras, gosto de discurso. Então vai ser inevitável ter esses elementos em muitas coisas que eu fizer daqui pra frente.

 

 

Consegue citar três artistas que foram referência nesse projeto?

 

Eu poderia citar cinquenta! Hahaha Três é muito dificil! Mas vamos lá, diretamente: Luiza Lian, Kate Tempest e Clara Nunes. Eu poderia citar Björk e Radiohead, que são minhas bandas favoritas da vida, e discos recentes da Solange, Black Alien,  Sevdaliza, FKA twigs, Lafawndah, Alessandra Leão, Maria Beraldo… e por aí vai!

 

 

O disco tem referências ao nosso contexto político. Você fez uma turnê de carro pelo sul pouco antes das eleições... esse nosso atual momento te inquieta pessoal e artisticamente?

 

Muito. Demais da conta. Eu sou neta de comunistas, presos e torturados. Filha de professora de história com cientista político. Cresci ouvindo as histórias da ditadura, e com elas aprendi que todo dia é dia de pensar globalmente e agir localmente. Diferente dos meus avós e pais, eu já não acredito mais nos poderes das instituições. Eu acredito no poder das pessoas. Na micropolítica, no fazer diário, na troca, nos pequenos atos que sustentam idéias. Sou ativista, envolvida com dezenas de grupos com diferentes frentes. Sou vegetariana há 18 anos, desde os meus 11 anos de idade. Procuro tomar consciência dos meus privilégios de classe e usá-los pra mudar as coisas, porque elas estão longe de estar bem. É claro que tem politica em tudo que eu faço, e arte é isso, é um poder também, afinal. A arte ainda desperta coisas lindas nas pessoas. A arte ainda une as pessoas. A arte abraça, acalenta, fortalece, e transforma!

 

Diante desse desgoverno fascista e assassino, das notícias diárias que revelam um plano de desmonte do país, não existe a possibilidade da arte parar. A gente vai seguir construindo uma possibilidade de existir nesse planeta. A gente vai existir, e vai resistir, como tiver que ser.

 

 

Aliás, pensando em Gratitrevas, essa busca sobre o passado é uma busca também por respostas sobre nós hoje?

 

Absolutamente. A gente estuda história pra poder compreender os movimentos de agora, não é? Inclusive, muitas pesquisas provam que a memória é um dispositivo feito não pra lembrarmos do passado com clareza, mas pra sermos capazes de desenvolver uma visão de futuro (vejam a série “explicando” do Netflix sobre memória).

 

Imaginar o futuro envolve conhecer bem o passado, pra não repetir os mesmos erros, e buscar respostas ou resultados diferentes do que já conhecemos. Nossos ancestrais lutaram muito pra que a gente vivesse hoje com tanto conforto, com acesso a tanto conhecimento, com tantos direitos, poderes, habilidades. Quando aprendemos a agradecer a eles pelo que somos, entramos em harmonia com a nossa história. Afinal, nós seremos os futuros ancestrais, e não deixamos nada nesse mundo além de idéias e histórias que ecoarão na vida das próximas gerações. Reconhecer isso significa passar a viver de forma transformadora, entende? Mudar o mundo é todo dia.

 

 

É correto dizer que ÀIYÉ não termina nesse disco?

 

Com certeza, ÀIYÉ começou como performance, virou uma temporada, e agora deságua nesse disco, um show, uma turnê… passinhos muito iniciantes de um caminho extenso!

 

 

Quantas Larissas Conforto ainda cabem na Larissa Conforto?

 

Espero que infinitas (risos)! O Moska uma vez me perguntou: “quantas vidas você tem?”. Ainda não consegui responder essa...

 

 

 

Quem escreveu
Andréia Martins

É jornalista, trabalhou com edição e reportagem nos portais Vírgula, Globo.com e UOL cobrindo música, política e internacional. Hoje segue na redação e também é editora do Roteiros Literários, sobre literatura e viagem, e do blog Quadrinhas, sobre quadrinhos feitos por e sobre mulheres.

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