CANSEI DO SHOWBIZZ

27/03/2020

Artistas que tiraram seus times de campo

Passadas as primeiras semanas da quarentena em razão da Covid-19, diversos artistas seguem se ocupando de diversas maneiras. Uns preenchem o tempo de reclusão com apresentações direto de suas casas, outros aproveitam para compor, ensaiar ou preparar algum material inédito — certamente, nesses dias, você já deve ter lido sobre algum gênio que descobriu algo revolucionário (ou interessante, que seja) em momentos de confinamento forçado. Mas e aqueles que escolheram sair de cena por livre e espontânea vontade? No mundo da música isso é mais que comum. Listamos aqui 5 nomes que abandonaram o mainstream, mas cujas obras ainda ecoam no mundo da música.

 

 

John Deacon (Foto: NewsGroove UK)

 

 

JOHN DEACON

John Deacon sempre foi considerado o integrante mais low profile do Queen. Compositor de grandes hits da banda britânica, como "I Want to Break Free", "Another One Bites the Dust" e "You're My Best Friend", o baixista foi um dos que mais se abalou com a morte de Freddie Mercury em 1991. Junto de seus companheiros, participou posteriormente do Freddie Mercury Tribute Concert (show em tributo ao frontman realizado um ano depois, com a presença de, entre outros, Metallica, Extreme, Def Leppard, U2, Guns N' Roses, Robert Plant, Seal, Annie Lenox, David Bowie, George Michael, Liza Minelli, Tony Iommi e Elton John) e da gravação da música "No-One but You (Only the Good Die Young)", presente na coletânea Queen Rocks, lançada em 1997, antes de sumir do mapa. Apesar de ainda ser consultado sobre a parte financeira do grupo para qualquer novo projeto, Deacon declinou da ideia de subir ao palco junto de Brian May e Roger Taylor nas reuinões seguintes do Queen, ora comandada pelo ex-Free / Bad Company Paul Rodgers, ora com o ator e cantor Adam Lambert nos vocais. Seus ex-parceiros de banda dizem que ele sequer mantém contato, mesmo após o sucesso do recente filme Bohemian Rhapsody — que segundo os mesmos, certamente também não foi assistido por ele.

 

 

Syd Barrett (Foto: Divulgação)

 

 

SYD BARRETT

Um dos fundadores da banda Pink Floyd, Syd Barrett ficou conhecido principalmente por sua, digamos, excentricidade lisérgica. Suas canções alternativas narravam sobre temas como bicicletas, gnomos e espetáculos, segundo David Gilmour — contratado inicialmente para tomar seu lugar de compositor e figura principal do grupo, deixando assim suas "esquisitices" em segundo plano, mas que acabou o substituindo em definitivo a partir de 1968. Diz-se que Barrett passou a, inclusive, mudar a estrutura das músicas de forma deliberada em cada show, fazendo com que ficasse praticamente impossível aprendê-las ou sequer acompanhá-las ao vivo. Após ser afastado da banda, lançou ainda três discos antes de entrar em um longínquo isolamento, dedicando-se especialmente à pintura (atividade que já havia estudado na Camberwell College of Arts, em Londres) e à jardinagem. Em 1975 teve um breve encontro com seus ex-companheiros de grupo durante as gravações do álbum Wish You Were Here, aparecendo do nada nos estúdios Abbey Road e mostrando um comportamento peculiar: ficou escovando os dentes enquanto o grupo finalizava "Shine On You Crazy Diamond", canção feita inicialmente para ele. Faleceu recluso em 2006 aos 60 anos, deixando um legado musical inigualável e, segundo sua irmã Rosemary Breen, um livro inédito sobre artes.

 

 

Belchior (Foto: RBS TV)

 

 

BELCHIOR

Falou em sumido, falou em Belchior. O cantor, compositor e artista plástico — que em 1976, após ter algumas de suas principais composições interpretadas com maestria por Elis Regina, estourou com o álbum Alucinação, berço de hits como "Velha Roupa Colorida", "Como Nossos Pais" e "Sujeito de Sorte" — vinha trilhando uma bem-sucedida trajetória musical, em paralelo a uma carreira de artista plástico, até meados de 2005, quando sucumbiu a uma paixão fulminante. Se separou da esposa de mais de três décadas e, junto da nova companheira, passou se distanciar de todos aos poucos, até desaparecer por completo, deixando pra trás bens materiais e abdicando de compromissos marcados. Acumulou dívidas — só no estacionamento do Aeroporto de Congonhas, devido ao abandono de seu Sonata branco quatro portas, o débito era de R$ 70 mil — e seu paradeiro passou a ser desconhecido até 2009, quando turistas brasileiros o avistaram no Uruguai e "deduraram" sua localização. Não demorou muito para uma grande rede de TV encontrá-lo e, com muita relutância por parte do artista, entrevistá-lo. Belch não quis comentar os calotes e negou estar "fugido", mas sim envolvido na concepção de um álbum de inéditas, bem como em um trabalho de tradução de suas principais músicas para o espanhol. A verdade é que, após mais um sinal de vida em 2012 na cidade de Artigas, também no Uruguai, o Mestre sumiu de vez e só se soube dele novamente em razão da triste notícia de seu falecimento, em 2017, na cidade de Santa Cruz do Sul/RS. Muitos dizem que em seus últimos anos de vida, Antonio Carlos Belchior perambulou por diferentes hotéis, casas de fãs, de amigos e até por uma instituição de caridade. O que realmente o motivou a dar esta guinada de 180 graus em sua vida, no entanto, ainda é desconhecido do grande público.

 

 

Rita Lee (Foto: Reprodução/Instagram)

 

 

RITA LEE

Outro nome da linha de frente da música no Brasil, Rita Lee inovou ao dividir os holofotes d'Os Mutantes com dois homens ainda nos anos 1960, época em que as cantoras brasileiras ainda eram subjulgadas e reverenciadas, a princípio, apenas por suas aparências. Teve colhões para largar a banda no seu auge e partir para uma nova empreitada, consolidando-se em carreira solo como a principal referência feminina do rock nacional, vendendo, ao longo de sua trajetória, cerca de 55 milhões de discos. Atualmente com 71 anos, Rita jogou tudo pro alto em 2013 sem peso na consciência, quando o fardo da idade enfim começou a incomodar. Os velhos — e icônicos — cabelos vermelhos deram lugar aos brancos naturais e os mega shows foram substituídos por dias tranquilos em eu lar. “Atitude rock é cuidar da minha horta, dos tomatinhos, da alface, da couve, do rabanete. Lá em casa, eu cuido dos bichos e da faxina. O Roberto — de Carvalho, marido — cuida das plantas e é o cozinheiro” disse a própria artista em entrevista recente.

 

 

Sixto Rodriguez (Foto: Divulgação)

 

 

SIXTO RODRIGUEZ

Descendente de mexicanos nascido em Michigan, nos EUA, Sixto Rodriguez iniciou sua carreira musical no começo dos anos 1970, lançando dois discos de folk/rock/psicodélico que, apesar de serem muito bons, não obtiveram nem êxito de público, nem de crítica. Frustrado com a vida artística, seguiu em sua cidade natal trabalhando como pedreiro, manobrista, entre outros serviços informais. O que ele não sabia é que de alguma maneira seus discos chegaram à Africa do Sul nos anos seguintes e se tornaram extremamente populares entre os jovens brancos contrários ao Apartheid — lá o cantor e compositor chegou a ser comparado a Bob Dylan e Cat Stevens. Nada se sabia sobre Rodriguez por aquelas bandas. Havia, inclusive, boatos de que ele teria morrido — uns até mais revolucinariamente mórbidos, dizendo que ele havia tacado fogo no próprio corpo durante uma apresentação ao vivo. Seu legado começou finalmente a ser valorizado em 1998, quando fãs daquele país criaram um site a fim de descobrir o paradeiro do artista. A filha mais velha de Rodriguez chegou até a página na internet e logo o músico estaria em território africano fazendo apresentações e sendo tratado como o superstar que lá de fato era. Toda a história é muito bem retratada no filme Searching for Sugar Man (título que se refere a uma de suas canções mais famosas, "Sugar Man"), vencedor do Oscar na categoria Melhor Documentário em 2013. Mas se ele foi reconhecido e enfim passou a viver de música, por que raios então integra esta lista? Ora, porque apesar de tudo isso, Rodriguez segue sendo uma pessoa misteriosa, quieta e reclusa. Ele ainda vive na mesma casa simples onde morou nos últimos quarenta anos e muito dificilmente marca presença em algum evento oficial. Inclusive naquele Oscar de sete anos atrás.

 

 

 

Quem escreveu
Daniel Branco

Daniel Branco é redator e editor de conteúdo musical do site Azoofa. Lá coordenou a série em vídeo Azoofa Apresenta, escreve sobre o novo e o velho da música e entrevista bandas e artistas dos mais variados gêneros. Nomes como Criolo, Marina Lima, Kl Jay, Rincon Sapiência, Black Alien, Planta e Raiz, Kamau, Rashid, Bnegão, Supercombo, Plutão Já Foi Planeta e Francisco, el Hombre já passaram pela sua casa para trocar uma ideia, tomar uma cerveja e ouvir um LP – o que, para fins profissionais, chamávamos de Azoofa Live. Tem sempre uma história sobre um artista, um som, um show ou um disco na manga, mesmo que ninguém tenha perguntado.

Outras matérias e entrevistas