MENO DEL PICCHIA

19/05/2020

Meno del Picchia faz da sua casa, um disco - e repensa o que é ser artista em 2020

 

 

Há três eixos interessantes no disco "Pele de Água", que o músico paulista Meno del Picchia vem publicando faixa a faixa na internet durante a quarentena. O primeiro: todas as músicas são gravadas em casa, num esquema em que ele compõe, arranja e toca todos os instrumentos. O segundo: cada música é lançada não em formato áudio, mas como um pequeno filme, em que ele assina roteiro, edição e captação de imagens. A terceira: as canções não estão nas plataformas digitais. 

 

Quando a música-filme fica pronta, Meno a publica no Youtube e no IGTV, o canal de vídeos do Instagram. Para alguns amigos, fãs e conhecidos, ele envia o link por e-mail ou WhatsApp. É o que ele chama de "divulgação mais orgânica possível", em que o que lhe interessa não é o impessoal alcance dos números, e sim medir a reação das pessoas e descobrir quem são as que se conectam mais profundamente com seu som - e, com isso, estabelecer uma relação mais próxima com cada uma delas.

 

Ele já lançou 5 músicas até aqui, e a sexta, "Vida Via Lenta", chega agora com exclusividade pelo Azoofa. Seus versos refletem sobre a solidão, este item obrigatório em tempos de pandemia.  

 

 

 

 

deixa chover

vida vai lenta

deixa molhar

espera secar

o que tiver que secar

o que tiver que ficar

 

deixa chover

molha a cabeça

deixa chorar

é só o começo

 

a minha presença

a tua distância

a minha presença

a tua distância 

 

deixa chover

vida vai lenta

molha a cabeça

já é um começo


deixa ventar

solta esse barco

deixa sorrir

já é quase morte


a tua presença

a minha distância

a tua presença

é minha distância

 

 

Conheço Meno desde 2014, e posso atestar que ele é um dos profissionais da música mais curiosos acerca do próprio meio - tanto é assim que, como doutorando em Antropologia, ele foi fazer a etnografia do funk paulista. Neste momento quarentenado em São Paulo, sem poder fazer shows com Otto, Guizado e outros projetos com os quais ele colabora, Meno transformou sua casa no que ele chama de "laboratório antropológico estúdio musical", em que não só contrói novas canções e seus respectivos filmes, mas também repensa o que é ser um artista em 2020.

 

Conversei com ele sobre estes e outros assuntos:

 

 

 

 

Eduardo Lemos: Como tá sendo esse período de quarentena pra você?

 

Tem sido um período muito intenso, como acho que tem sido pra todos. Eu tenho repetido muito que são altos e baixos. Quando eu consigo focar no presente, eu estou no alto. Quando eu começo a pensar muito no futuro, eu vou pra baixo. Nós, músicos, estamos com muito medo. Como é que vai ser o futuro? De onde vai vir o dinheiro? Uma boa parte da minha renda vinha de show. Mas quando não estou nesse registro do medo, eu consigo focar no presente e criar. Estou escrevendo minha tese de doutorado (sobre a etnografia do funk) e comecei a fazer esse disco, que já estava na minha gaveta, com músicas de 2017, 2018 e 2019. 

 

 

“Minha casa agora é esse disco, esse disco é minha casa” é uma espécie de slogan desse novo trabalho. Como você chegou nessa ideia?


Essa frase surgiu muito naturalmente. Eu estava explicando meus planos pro Alexandre Matias, do Trabalho Sujo, quando ele divulgou a primeira música do projeto. Aí, ela ficou. No teaser sobre o disco, eu já falava da casa como um conceito, essa coisa de estar isolado em casa e transformar este espaço num laboratório sonoro antropológico estúdio musical. Esse disco é todo gravado aqui em casa, com todos os recursos que eu tenho, com todos os defeitos que eu tenho na casa. Como eu não posso sair, eu tenho que lidar com as situações que aparecem, tanto sonoras quanto imagéticas. Por exemplo: eu defini que eu não ia usar nenhum instrumento elétrico ou qualquer recurso eletrônico. Tô tocando só instrumentos acústicos (baixo, violão, piano). Não estou usando o metrônomo (aparelho que marca o tempo da música). Tô tentando tocar do jeito mais orgânico e mais íntimo possível. 

 

 

 

 

Cada música tem um vídeo feito por você. Achei isso muito legal, eu por exemplo não conhecia suas habilidades com edição ou mesmo no roteiro e tudo o mais. Como tá sendo trabalhar esse lado?


Cara, eu tô adorando me filmar, mexer com edição, pensar nos filmes. Esse disco é inseparável da imagem, o fazer musical contém um fazer fílmico. Eu já vinha fazendo coisas assim na minha pesquisa de etnografia do funk, tem até uma série no meu canal do Youtube chamado Diário Fragmento, que são pequenos vídeos que eu fiz durante a pesquisa. Ano passado, fiz um curso de filme etnográfico na USP e fiz um documentário sobre um MC, que ainda vou lançar. Quando chegou a quarentena, essa parada forçada que a gente deu, eu tava com uma câmera emprestada em casa e comecei a fazer essas experiências. Eu pensei: "não quero apenas lançar as músicas nos streamings e deixar lá". Eu to cansado desse formato, sabe? Nosso disco se perde naquele oceano de informações, a gente não ganha nada, é super difícil de entrar numa playlist, super difícil de conseguir visualização, você não tem contato com quem está te ouvindo… Aí decidi lançar só no Youtube e no IGTV, porque consigo sacar a reação das pessoas e interagir com elas. Então, essa coisa de filmar tem a ver com tentar uma forma mais orgânica de lançar minha música. 


Percebi que a gente costuma sempre se filmar tocando, o que é lindo, e até meu último clipe foi mais isso. Mas eu quis sair um pouco desse formato. Pensei: "o que eu posso fazer?". Comecei a fazer umas imagens mais poéticas da casa e a minha intimidade, construindo narrativas do meu corpo com o corpo da casa - o meu corpo-casa com a casa-corpo. No primeiro tem trechos em que estou dançando com os instrumentos. No segundo, eu atuo. No terceiro, eu fui pra uma coisa abstrata. E no quarto, tem uma narrativa mais densa, mais pesada, partindo de uma imagem que vinha da minha televisão. Acabei transformando a casa num set de filmagens e exploro tudo que a casa tem. Sou eu e o mesmo espaço sempre, mas tô tentando criar narrativas diferentes uma da outra. Vamos ver se eu consigo chegar no oitavo vídeo sem me repetir…

 

 

 

 

Quais reflexões você tem feito sobre novas formas de se colocar música no mundo?


Esse momento de quarentena coloca pra nós, músicos, uma pergunta: "como é que a gente vai ganhar dinheiro?". A gente veio do século XX, tempo das gravadoras, onde era super difícil gravar e grandes conglomerados da indústria lançando só os artistas que eles queriam. Hoje, todo mundo consegue gravar, mas seguimos dependentes de grandes corporações - Spotify, Youtube, Deezer, Apple Music, Facebook, Instagram. Quem ganha o dinheiro são essas empresas, e estamos falando de lucros bilionários. A gente fica povoando de conteúdo essas plataformas, e o CEOs e acionistas vão ficando ricos, e  a gente continua pobre. Fiquei pensando: "como que a gente pode fazer?". Me veio essa ideia de lançar os filmes no Youtube e no IGTV, e mandar e-mails e mensagens pra galera, da maneira mais orgânica possível. É voltar atrás alguns anos e estabelecer esse contato mais próximo com as pessoas, e com isso entender quem está me acompanhando, quem está interagindo, quem gosta de mim. Cada pessoa é importante. Acho que é uma busca por formas menos impessoais e mais orgânicas. Poder me comunicar diretamente com essas pessoas. Gastar energia com quem presta atenção no que eu falo. Melhor eu ter 50 pessoas ouvindo e me acompanhando do que ter 10.000 que eu não sei quem são e que, de repente, escutam 3 segundos da música e pulam de faixa. Acho que as palavras que definem essa ideia são 'orgânico' e 'engajamento'. 


Num segundo momento, eu quero lançar as músicas no Bandcamp, pra tentar monetizar um pouco que seja. O pouco que for já é maior do que eu ganho nas plataformas. E aí lá na frente, eu lanço no formato tradicional. Mas agora eu vou tentar outra estratégia. 

 

 

Você também é antropólogo, e me pergunto o que você tem observado nesse momento de ruptura de um modelo de vida. Até aqui, o que você acha que irá acontecer com a gente?


Quando eu tô otimista, eu consigo acreditar que é um momento de evolução, de transformação pra melhor. Eu quero acreditar que daremos um passo evolutivo, e isso significa, nesse momento, romper com o padrão capitalista de consumo absurdo - fantasias de consumo - e que nos trouxe até aqui. É um modelo que está exaurindo o planeta. A gente tá vendo que não precisa consumir tudo o que a gente consumia: roupa, entretenimento, bebida, comida, transporte, gasolina.... a gente pode viver com menos, fazer menos coisas, ficar mais em casa. A pandemia tá provando que é possível trabalhar mais em casa. Imagina se as pessoas com emprego formal pudessem passar a metade da semana trabalhando em casa? Você diminui o transporte, a poluição, e dá mais tempo pra essa pessoa com sua família, ela vai comer menos fora. Tá em jogo um novo modelo de trabalho. E também uma nova relação com a casa. Pegando o exemplo do meu disco, você pode transformar sua casa em outra coisa, uma casa que pode ser laboratório. Isso pode ser bom, se a gente não ficar workaholic. Se der pra gente caminhar pra esses lugares, podemos sair da pandemia mais fortes, mais criativos, mais saudáveis e gastando menos. Quem tem pouco vai poder ter mais, quem tem muito vai perceber que não precisa de tanto e vai conseguir abrir mão. Esse sou eu o otimista.


Num momento pessimista, eu vejo que essa ruptura pode deixar a gente cada vez mais individualista, mais egoísta, e cada um pensar mais em si e na própria família, porque os recursos estão escassos. Fico pessimista principalmente quando penso nas classes ricas, especialmente as classes ricas do Brasil, que parecem caminhar diretamente para esse individualismo. Vejo mais muro, mais condomínio, um sentimento de "vou me salvar porque eu tenho grana". É aquela galera que tem o bote salva-vidas, que até tem espaço pra mais gente, mas eles não conseguem botar mais ninguém, porque eles querem ficar com o bote salva-vidas e com espaço. A gente sabe que nas comunidades da periferia as pessoas são muito generosas, muito solidárias. Essas redes de solidariedade funcionam pra aqueles que tem pouco. Essas pessoas estão mais abertas pra romper esses padrões que a gente vive. 


A pandemia é a exaustão de um modelo, exaustão ambiental, social, emotiva, de comunicação. Mas estou trabalhando pela primeira opção, pra que a pandemia seja um salto evolutivo. 

 

 

*** 

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

Outras matérias e entrevistas