5 PERGUNTAS: OS AMANTICIDAS

25/05/2020

Banda fala do último disco, "Teto", um olhar de dentro para fora sobre a solidão cotidiana

 (Divulgação)

 

 

Estava tudo encaminhado no calendário da banda Os Amanticidas. A banda paulistana lançou “Teto”, seu terceiro disco, em fevereiro e preparava com cuidado os desdobramentos do trabalho. Single, show de lançamento, clipe... e eis que uma pandemia adia tudo para depois. "É uma pena porque, além de termos preparado o show muito carinhosamente, a gente sabe que o disco só chega no seu potencial máximo de ouvintes depois que a banda circula por aí levando show até o maior número possível de pessoas”, conta a banda.

 

 

O quarteto -- formado por Alex Huszar (baixo), João Sampaio (guitarra), Joera Rodrigues (bateria) e Luca Frazão (violão) – agora segue dando aulas, trabalhos paralelos e conta com sua rede de apoio para lidar com esses dias. “Seguimos nos encontrando semanalmente, porque senão acho que íamos enlouquecer rapidinho”, dizem em entrevista por email ao Azoofa.

 

 

Batemos um papo com a banda que falou mais sobre o disco e o clipe da faixa “Parado Deitado Travado”, lançado em meados de maio. Pela letra, até parece que ela foi escrita nesses dias de quarentena. Foi dela, inclusive, que saiu o nome do disco, "Teto". Se o trabalho anterior ("No Meio do Aglomerado", 2018) trazia mais cenas da cidade, o espaço, esse, com 9 faixas, traz um olhar para o que está dentro, fala das angústias de quem está olhando e observando o mundo da janela do quarto.

 

 

"A gente sente esse disco um pouco como uma continuidade em relação ao outro. O primeiro disco tem muitas canções que tem o lugar público como pano de fundo, mas que mesmo assim tratam de questões e angústias internas. Já no segundo, a maior parte das canções se passa num espaço interno, mas trata do espaço externo. No final é mais uma mudança de perspectiva, o primeiro disco olha de fora pra dentro e o segundo olha de dentro pra fora", diz a banda.

 

 

Veja mais da conversa abaixo.

 

 

"Parado Deitado Travado" já ganharia clipe agora ou vocês mudaram os planos devido ao contexto e temática?

 

Já ganharia clipe sim, inclusive ele foi gravado ainda no ano passado. A única coisa que mudamos em nosso planejamento foi a data de lançamento. Desde que o disco ficou pronto sabíamos que “Parado Deitado Travado” seria nossa música de trabalho, que sairia primeiro como single e depois ganharia um clipe. A ideia, a princípio, era esperar baixar a poeira do show de lançamento do TETO e já colocar ele na rede, pra não deixar a peteca cair. Mas aí chegou a pandemia, e com as novas prioridades que ela impôs sobre todos nós, não fazia muito sentido fazer lançamento de clipe naquela hora, e por isso resolvemos adiar. Passado um pouco o momento de se adaptar à nova rotina, achamos que agora o clipe poderia vir em boa hora. Afinal parece que ainda não ficou claro para todos o quão importante é ficarmos em casa, por incrível que pareça, né?

 

 

 

 

O disco tem participações de Alzira E. e Juçara Marçal. Queria que vocês contassem como rolou esse convite e a relação delas com a banda e com as canções escolhidas.

 

Juçara Marçal interpretando “Paisagem Apagada” é um sonho realizado. Quando o Alex nos mostrou a música pela primeira vez a gente já falava, meio em tom de brincadeira: imagina na voz da Juçara... pois eis que o Catatau, nosso produtor, fez o contato e ela topou. A gente tem uma admiração gigante por ela e pelos projetos dos quais ela faz parte, foi uma alegria enorme. E o resultado ficou impactante, a voz dela trouxe uma profundidade tremenda pra essa canção (que sentimos que é uma das que mais se ressignificou nos últimos tempos).

 

Alzira Espindola em “Atropelado” é mais surreal ainda: ela confiou a nós a tarefa de gravar uma composição inédita dela em parceria com o Itamar Assumpção. Gravar uma canção inédita do cara que dá nome à banda, nossa maior influência! Alzira já é parceira há mais tempo, levamos ela pra tocar com a gente em 2018 na nossa turnê pelo estado de São Paulo e, mesmo antes, já tínhamos trocado umas figurinhas. Ela participou do lançamento do disco também, claro, fazendo a estreia mundial de “Atropelado” nos palcos.

 

 

Pra vocês, o que ainda continua como principal referência do Itamar na música de vocês?

 

O Itamar possui uma obra gigantesca, que aponta pra diversas possibilidades de se fazer e pensar a canção. Cada um de nós tem as suas preferências dentro da obra dele, mas enquanto banda temos como grande referência a maneira com que ele pensava suas músicas para os shows: os contrapontos, os “climas”, os grooves, tudo! Não à toa que o “Às Próprias Custas S.A.” é o nosso disco favorito - a gente sempre fala dele nas nossas entrevistas, e acho que vamos falar pra sempre! rs -, vira e mexe estamos reouvindo e sempre usando como inspiração (pra não dizer consulta) na hora de elaborar arranjos novos.  

 

 

 

 

Foi o primeiro trabalho de vocês com o Catatau? Ele tem um trabalho diverso como produtor, o que vocês buscavam quando o escolheram para produzir "Teto"?

 

Foi nosso primeiro trabalho com ele, sim. Mas a gente já tinha escolhido ele pra produzir esse disco em 2017, ele que ainda não sabia. A história é: estávamos juntos ouvindo o “Avante”, do Siba, no último volume, em silêncio, contemplando a profundidade de som surreal que esse disco tem (de arranjos, de timbres, de clima, tudo), e quando acabou decidimos por unanimidade que quem quer que fosse o produtor daquele disco tinha que produzir um nosso. Acontece que era o Catatau. 

 

A gente é muito detalhista e apegado com o nosso trabalho, e entregar ele na mão de um produtor experiente como ele foi um pouco doído, mas compensou demais. Ele levou a gente pra lados que nunca iríamos imaginar, deu uma chacoalhada nesse nosso jeito meio certinho, botou efeito, botou sujeira, chamou a gente pra um negócio mais cru e menos pensado, trouxe muita coisa mesmo. No fim das contas ficamos muito felizes com o resultado sonoro; sentimos que ele expandiu nosso som de uma maneira muito visível, sem descaracterizar.

 

 

Que efeitos e cenários a gente pode sondar para a música num mundo pós-pandemia (seja esse mundo qual for)?

 

É difícil demais falar, já que tá tudo meio suspenso e sem grandes perspectivas de voltar. Não sabemos o que vamos encontrar do outro lado disso tudo ainda, e por isso é complicado fazer previsões. Ainda se a gente não tivesse um psicopata no comando do país de repente era mais fácil, afinal tem lugares do mundo já em condições de pensar em abertura. Por aqui a cada dia é mais uma barbaridade, mais um golpe da pá no fundo do poço, um horizonte cada vez mais difícil de enxergar. Arte é mais importante do que nunca, com certeza, mas coitado do artista, que tem que ter cabeça pra processar isso tudo e ainda criar coisa nova.

 

 

 

Quem escreveu
Andréia Martins

É jornalista, trabalhou com edição e reportagem nos portais Vírgula, Globo.com e UOL cobrindo música, política e internacional. Hoje segue na redação e também é editora do Roteiros Literários, sobre literatura e viagem.

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