Cohiba: Enquanto o Tempo Passar / Súbito Passo

10/06/2020

Com um integrante em cada canto do mundo, Cohiba lança músicas novas e mostra resiliência

 

 

 

Tal qual a jornada do herói de Joseph Campbell - que identificou as semelhanças nas estruturas narrativas dos grandes mitos -, a história de como nascem as bandas costuma ser mais ou menos parecida: um grupo de amigos resolve se reunir para tocar, às vezes para matar o tédio, às vezes só pra ter um motivo para encontrar e conviver. Nem sempre os integrantes sabem de fato tocar um instrumento, e nesse momento da história isso é o que menos importa: os early years de uma banda tem sempre um componente forte de amizade e camaradagem. 

 

Dali em diante, tudo pode acontecer, mas o final da história só pode ser um de dois: ou as bandas acabam, ou elas permanecem. 

 

O Cohiba faz parte do segundo grupo. 

 

Pedro Serafim, Vitor Paulozzi, Mauricio Ávila e Nicola Maniglia se conheceram em Franca (SP), os quatro estudantes, músicos iniciantes e encantados por coisas como Oasis, Red Hot, Black Keys, Arctic Monkeys. Em 2014, lançaram o primeiro EP ("Monotonia Constante"). Mas naquele mesmo ano, o guitarrista e vocalista Nicola Maniglia foi viver em Londres, o que trouxe a banda à sua maior encruzilhada: dá pra continuar existindo?

 

O Cohiba provou que sim - e aquele foi só o primeiro teste, porque depois Pedro Serafim partiu para São Paulo e, mais recentemente, Vitor Paulozzi desembarcou na improvável Moçambique. Maurício continua em Franca. Com cada um num canto, aprenderam a aproveitar ao máximo os raros momentos juntos, fazendo deles uma espécie de maratona musical, que inclui ensaios, shows e gravação de novas músicas. 

 

Eles acabam de lançar "Enquanto o Tempo Passar / Súbito Passo", duas canções inéditas,  gravadas no estúdio Submarino Fantástico e produzidas por Otavio Carvalho. As faixas - que iniciam o fluxo que desaguará num EP com outras músicas - mostram a banda mais conectada com a nova música brasileira (sinto influências da Maglore, de Luiz Gabriel Lopes) e, ao mesmo tempo, soando cada vez mais originais.

 

Conversei com eles sobre as novas músicas, a evolução sonora do grupo nessa quase uma década juntos e a maneira que eles encontraram de seguirem juntos, mesmo à distância. 

 

 

 

 

Antes de tudo, como vocês se conheceram?

 

Pedro: Bem, foi meio ao acaso mas deu certo. O Nicola e o Paulozzi se conheceram através de uns amigos em comum e me chamaram pra fazer um som, eu já "conhecia de nome" o Nico e logo animei. Aí no nosso segundo ensaio, o André, que tocou bateria no primeiro, não pode ir mais e o Paulozzi acabou conhecendo o Maurício no meio tempo. Foi uma coisa de estarmos todos no lugar certo na hora certa, nenhum de nós se conhecia antes de reunirmos pra tocar. 

 

Nicola: Franca é uma cidade relativamente pequena e tem disso de você acabar ficando amigo do amigo. Conheci o Paulozzi e logo a gente resolveu se encontrar para tocar mas sem ainda ter a ideia de formar uma banda, mais no intuito de fazer um som, tocar músicas de bandas que a gente gostava e não tinha a chance de ver ao vivo. Depois chamamos o Pedro para tocar baixo e o André, amigo nosso em comum para tocar bateria. E aí tivemos o primeiro de muitos ensaios que não era só sobre tocar, existia uma convivência ali de ficar dias inteiros juntos, conversando, rindo e interagindo. Como o Pedro disse, o André participou só desse primeiro ensaio e logo depois disso o Mauricio entrou. E aí foi isso, quando nós quatro tocamos juntos pela primeira vez rolou uma conexão, foi tipo “tem algo especial acontecendo aqui”. E dali a coisa acabou andando.

 

 

Como foi a ideia de lançar duas músicas de uma vez, ao invés de lançá-las separadas ou mesmo dentro de um disco completo?

 

Mauricio: Foi uma ideia estratégica, de dar visibilidade pelo intervalo de lançamentos de banda. Pro futuro, nós temos planos de soltar o EP. Enquanto isso, vamos soltando as músicas como single. 

 

Nicola: Somos uma banda independente, e gravar um álbum inteiro é uma coisa que custa muito, tanto dinheiro quanto esforço e empenho. E no nosso caso ainda tem o lance de todo mundo tá morando longe um do outro, dificultando tudo ainda mais. Então pensamos no final em lançar essas duas músicas novas como single antes (como se fosse dois lados A) enquanto damos andamento na gravação das outras músicas e no futuro reunir tudo em um álbum. Foi bastante interessante ter lançado as músicas juntas por que acabou gerando perspectivas diferentes nas pessoas, já que as músicas vão em caminhos diferentes mas também mantendo a nossa identidade como elo entre elas.

 

Como foi a experiência de gravar no Submarino Fantástico, tendo o Otavio Carvalho como produtor? 

 

Nicola: Foi nossa primeira experiência trabalhando com um produtor. E o Ota é um cara que a gente admira muito tanto pelos seus trabalhos de produção tanto pelo o seu trabalho no Vitrola. Além disso ele é um cara super gente fina, calmo, muito fácil de trabalhar e foi fundamental para o resultado final do single. Esse lançamento para gente é de muito orgulho pois a essência das músicas está clara na gravação, algo que a gente sempre prezou muito.

 

Vitor: Fizemos um primeiro take inteiro com nossa primeira versão que tocamos ao vivo. Aí o Ota começou a dar ideias para incrementar na gravação, nos disponibilizou outros instrumentos e ficamos por toda madrugada lapidando as duas músicas, até que ficamos bem satisfeitos com o resultado final para começar a fase de pós produção.

 

Mauricio: A experiência de gravar em conjunto todas as ideias que foram construídas foi importante para a essência das músicas. O ambiente, os equipamentos e o toque final de detalhes que o Ota colocou fazem parte de toda experiência.  

 

 

 

 

Quais mudanças vocês veem no som e nas letras da banda do Monotonia Constante pra esse novo EP?

 

Nicola: Nosso primeiro lançamento, o EP Monotonia Constante, foi lançado há 6 anos, numa época de bastante transição nas nossas vidas. Era a aquela época de começar a faculdade, morar fora e etc, e isso acabou refletindo muito nas músicas, principalmente nas letras. Ouvindo as músicas hoje fica bastante evidente como mudamos, as letras e as influências amadureceram, o que é algo muito natural. Antes, eu sinto que a gente tinha essa tendência de dar mais atenção para as coisas que vinham de fora do Brasil e hoje eu sinto que a gente valoriza muito mais o que acontece aqui dentro. Acho que agora, a gente tá mais brasileiro do que nunca, se é que podemos dizer isso.

 

Mauricio: Tudo são fases e é muito interessante acompanhar como cada integrante da banda muda suas influências de acordo com o tempo. Nessas novas músicas, encontramos o processo de escuta, estudo e práticas com o som.

 

Onde mora cada um da banda atualmente? Como é essa dinâmica de manter a banda acesa e produzindo apesar da distância?

 

Nicola: O Paulozzi atualmente mora na maior parte do tempo em Moçambique, o Pedro mora em São Paulo, o Mauricio tá em Franca por enquanto e eu moro em Londres. Essa coisa da distância é até meio paradoxal, porque ao mesmo tempo que dificulta tudo, quando a gente encontra tudo vem muito forte, sempre surgem músicas novas, os shows estão sempre cheios e a intensidade sempre vai ao limite, entre a gente e entre o público também. Graças a Deus a gente sabe valorizar e aproveitar bem isso e talvez esse seja até o ponto principal que faz o Cohiba estar aí, na ativa, juntos-distante há mais de 8 anos. É que nem aquela canção “quanto mais tempo demora, mais violento vem”.

 

Pedro: É uma coisa muito diferente, todos nós seguimos muito conectados com a música mesmo depois que nos distanciamos. E acho que nenhum de nós estávamos prontos pra abrir mão de tudo o que criamos, então a gente agarrou a ideia com força. Se era em 4 finais de semana do ano que ia dar pra encontrar, ficávamos 3 ensaiando e ainda enfiava um show no último. E desde o começo vínhamos escrevendo música, mas aí ganhou uma outra perspectiva, trabalhar nelas mesmo à distância, em outro ritmo. E seguimos fazendo como dá, independente da distância, do tempo. Isso tudo por que a gente não tá pronto pra abrir mão de tudo o que foi e é a Cohiba. Nasceu de um sonho de escutar e tocar o que não se ouvia e virou uma conexão muito forte que atravessa continentes e a gente expressa ela através da música.

 


Confira o que a banda falou sobre as duas faixas:

 

 

 

 

Enquanto o Tempo Passar

 

Essa música talvez seja um marco, onde abre uma nova fase para a banda. Depois dos lançamentos anteriores e um longo intervalo de tempo ficou evidente que as coisas mudaram na vida de cada um de nós. Dentro dessas coisas, a nossa nova influência musical se divergiu e nela veio um leque bem maior de inspirações para a banda, ficando bem evidente na criação e na gravação dessa primeira música do single: influências de ritmo do baião, cantiga de roda e na letra um texto sobre coisas simples porém essenciais: a relação com a saudade quando se vive longe de casa. Essa foi a canção com mais influência brasileira nossa até então e também foi a primeira vez que a gente experimentou e testou ideias no processo de produção.

 

 

Súbito Passo

 

Diferente de “Enquanto o Tempo Passar” mas ao mesmo tempo igual na ideia de tentar atingir novas sonoridades, a segunda música do single “Súbito Passo” tem como o principal elemento a harmonia e melodia, tendo influências do rock psicodélico a música eletrônica. A letra conta uma história no qual relata a relação do tempo para se compreender coisas inesperadas, sobre aceitação após viver um certa experiência importante e sobre a força que o destino ou o acaso pode ter sobre nós.



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Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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