Ian Cardoso -

19/06/2020

Ian Cardoso lança música nova e fala sobre o disco que vem aí

 

 

Utilizar a própria casa - às vezes, o próprio quarto - como estúdio; tirar de uma prosaica ida ao supermercado a gênese de uma nova canção; realizar que o mundo em que vivemos precisa ser reformado com urgência. Três atitudes comuns no dia a dia do músico e compositor Ian Cardoso, mas que ganharam potência com a pandemia. 

 

Do quarto, Ian está tirando um disco inteiro, criado por ele com a ajuda de amigas e amigos músicos. Da rua, uma ideia de música agora é um xote pronto - "Amassadinho" - e chega hoje às plataformas (ouça abaixo). A constatação de que passou da hora de revermos a maneira que estamos ocupando o planeta, isso certamente nunca sairá de sua cabeça.

 

 

 

 

Ian Cardoso nasceu em Salvador e hoje vive em São Paulo. É da capital paulista que ele está maquinando o álbum "Devoto Franco", que deve chegar ao mundo completo nos próximos meses. Em 2018, Ian lançou um primeiro EP ("Reina") e, no ano seguinte, apresentou o primeiro single da nova fase, "No Mar".

 

Conversei com ele sobre o lançamento de "Amassadinho", as referências para a produção desta canção e seu processo de criação durante a quarentena. Leia abaixo:

 

 

 

 

Amassadinho é um xote, mas mais suave, em que prevalece a voz e o violão, com incursões discretas da zabumba, synth e triângulo. É um xote 'em baixo volume', no sentido de ser mais íntimo, pra dançar em casa, um efeito diferente do que esperamos normalmente ao ouvir um xote. Como foi seu processo de criação da música? Como você encontrou esse lugar pra ela?

 

Acho que faz todo sentido, e poderíamos dizer que o que vem por aí é um “disco em baixo volume”. Amassadinho vem puxando a corda, do protagonismo da voz, de um instrumento de harmonia – violão, viola caipira, piano – e da poesia. As outras peças entram como outros ingredientes, de texturas, frases, no sentido de subsidiar mais o discurso ou “lugar” da canção. E essa estética foi se apresentando pra mim durante o processo, como se a obra reivindicasse a sua própria narrativa. Aí em algum momento você dá a mão a isso e segue. Antes de Amassadinho nascer eu já estava há uns dias pensando em fazer um xote, coisa que eu nunca tinha feito. Certo dia a gente aqui de casa precisou sair pra fazer compras no mercado, e estava lá todo mundo mascarado, aquele clima de uma certa pressa das pessoas querendo adiantar a demanda pra sair logo daquele foco de corona... e então comecei a pensar no reposicionamento do olhar das pessoas na comunicação na rua, nesses tempos, uma vez que as pessoas precisam usar máscaras. E daí veio o primeiro verso da música “eu vi seu sorriso aberto por baixo do pano”. O xote, a saudade, a introspecção e a melodia foram me levando a narrar uma história de amor na quarentena. Talvez por uma vontade de deslocar do desespero de viver no Brasil de hoje. Um exercício de olhar pra pertinho, pensar no amor, escrever e musicar sobre ele, essa palavra tão repetida pelas pessoas, esgarçada pela arte.  Essa emoção que parece ser tão óbvia, mas também tão misteriosa. Tão cafona, mas tão libertadora (risos). E Amassadinho termina com uma pergunta. A dúvida. Apontando pra um receio dessa espécie de condicionamento emocional pelo qual estamos precisando passar. Como será depois da pandemia? Depois desse período de afastamento social? Como que os amores serão narrados quando a rua se apresentar de novo? Como olharemos para as “formulações” da quarentena? Aí, o legal disso tudo é que lá pras tantas da composição eu percebi que, de fato, eu estava falando sobre mim mesmo. Sobre a oportunidade que eu estou tendo de viver uma paixão na quarentena. E de como é bom. Traz um frescor pra tudo.

 

 

 

 

Falando um pouco mais sobre o gênero, o que te atrai no xote? Quais referências você admira no gênero?

 

O xote é um fenômeno desses que amo, e que só o Brasil poderia produzir. Minha pesquisa recente sobre o Cangaço me levou a investigar a “dispersão”, como um certo paradigma para o percurso desses códigos todos da vida humana, a coisa da comunicação, a manifestação. Tem uma música do disco que gira em torno dessa coisa da dispersão, uma cantiga, meio oração, meio ladainha... O xote, assim como o Cangaço, é um epicentro de símbolos, por ser uma manifestação que, como qualquer outra resulta de uma mutação desses códigos através do tempo e das pessoas. O próprio nome xote tem origem centro-europeia, germânica. No sul do país se manifesta de forma diferente do Nordeste. A instrumentação possui essa derivante da cultura moura. Ouço algo arábico na célula rítmica também... enfim, eu piro nessas coisas (risos) e amo o xote por me permitir fazer essas pontes todas que na verdade acaba sendo uma incursão de ancestralidade. Todos os meus avós são sertanejos, cresci ouvindo muitas histórias. Além de ter sempre vivido uma relação próxima com o período junino. Muitas festas em Jeremoabo na casa da família de tia Margaridinha, em Senhor do Bomfim, terra de minha avó, Cruz das Almas. Fora que em Salvador também é muito vívido o São João. As pessoas levam muito a sério. E daí não tive como sair ileso. O junino bate forte. E o xote então, é muito gostoso pra dançar agarradinho, devagarinho, naquela viagem (risos). Dançar forró é uma das melhores coisas da vida. Luiz Gonzaga é o grande precursor desse repertório clássico do xote, mas a inspiração de Amassadinho talvez esteja mais nas canções de Anastácia, de Gilberto Gil e sobretudo de Dominguinhos... a revolução que ele fez, a forma que ele explorou o instrumento, suas conversas com o jazz. Há anos que sou viciado no álbum “Oi, lá vou eu”, produção de Perinho Albuquerque. Bandaça foda que incluiu Hermeto Pascoal, Toninho Horta, Evinha, João Donato, Jackson do Pandeiro, Mauro Senise, Luizão, dentre outros feras. Pra mim é mais um grande marco de reposicionamento da musicalidade sertaneja na produção brasileira e mundial. É super contemporâneo, é pop, é experimental. E Dominguinhos pra mim é isso. Comprova a ideia que minha amiga Neila Kadhí me falou esses dias, que quanto mais regional mais do mundo você é. E regional entendo aqui como a liberdade de falar sobre si a partir do lugar que vem.

 

 

 

 

Em breve você lança Devoto Franco, um disco feito na quarentena. Como rolou a ideia de pegar esse período em casa pra produzir um álbum?

 

A ideia de produzir um disco novo é algo que venho regando desde o ano passado. Na verdade, é coisa que rego sempre. Existe uma vontade de materializar as músicas, compartilhar as ideias, alimentar a coragem de realizar o registro, de eternizar as pensamentos, reflexão que trago no single No Mar, que lancei fim do ano passado. Ainda vivo isso. É uma experiência que a realização dá, que é poder se escutar, permitir que a obra funcione como bumerangue, que ela vá pro mundo e depois volte pra você com uma outra bagagem. Produzir em casa já foi uma condição mesmo, diante da necessidade de permanecer em casa. A grande dúvida era se eu conseguiria tirar um som legal aqui em casa, pensando que o disco é sobretudo acústico. Aí precisa captar com o microfone e aqui não tem isolamento acústico, preciso entrar na noite/madrugada esperando os lapsos de silêncio entre motos avoadas, sirenes, carros, panelaços, gritos (que eu mesmo parava de gravar pra somar ao coro). Então fui realizando vários testes, repetições, até chegar num resultado que me satisfez. Parar de fazer e produzir música eu não consigo, neste sentido pensei que canalizar essa energia pra um disco seria o melhor a se fazer. E te digo que foi e tá sendo um processo maravilhoso de aprendizado e autoconhecimento. E ainda pude contar com as pessoas incríveis com quem moro, todas musicistas, criadoras, Neila Kadhí, Camila Costa e Aline Falcão. A casa tá todinha presente no disco. A realização de Devoto Franco é fruto da pulsão criativa da casinha, aqui é todo mundo se ajudando e se completando. Tem Ícaro Sá e Manuela Rodrigues, amizades conterrâneas que também estarão presentes. Aí Otávio Carvalho, produtor de São Paulo com quem tive o prazer de trabalhar no disco do Pirombeira e no meu EP Reina, comprou a ideia também pra finalizar o disco na mix e master. E tem mais um monte de gente que ajudou em vários momentos, níveis e etapas.

 

 

 

 

Há uma questão latente pra quem pode ficar em casa e tem condições/estrutura para trabalhar de casa, que é uma cobrança interna de aproveitar esse tempo 'ocioso' pra produzir. Há até uma charge que eu vi esses dias, dum cara dentro dum barco, no meio dum maremoto, pensando "hmm, chegou a hora de eu escrever meu melhor livro!". Como você lidou com essa coisa 'tempo livre' versus 'pressão pra produzir'?

 

Confesso que não me senti pressionado não. Como se eu tivesse que me impelir de alguma forma à produção em meio tudo isso, sendo que produzir é algo que eu não consigo não fazer. Acho que a quarentena nos trouxe uma certa ilusão de que as coisas pararam, que a vida parou. Mas a verdade é que a vida não para. Não tem freio. Tipo esse barco aí da charge. Eu sempre fui de ficar em casa e produzir de casa. Então o que rolou foi uma intensificação desse trabalho, uma vez que fazer shows, acompanhar outros artistas, que é uma coisa que adoro muito, não tá sendo mais possível. O tempo ocioso que eu já tinha antes da pandemia eu tenho feito questão de manter. E isso não impediu, por exemplo, que o disco fosse gravado e outras entregas fossem feitas. O disco não surgiu no vácuo de um tempo livre, mas mais como uma demanda de vida, natural do trabalho que exerço, o trabalho de compositor. Acho que está rolando um movimento global da gente se repensar como espécie, problematizar as prerrogativas nocivas do capital, desenvolvermos um olhar para doença social que vivemos. Que nos imuniza do estarrecimento ao presenciarmos aberrações. Que normaliza essas aberrações para as crianças. Então essa ideia de “chegou a hora para produzir” faz todo sentido. Torço pra que isso seja um sintoma de alguma transformação em nós, em se permitir fazer o que a “correria” nunca permitiu. Acho muito positivo. Mas existem aqui pressões internas, sim. A de buscar alternativas para rentabilidade é uma delas. Uma outra pressão interna que eu sinto neste momento de pandemia tá mais ligada aos hábitos saudáveis, de alimentação e exercício físico por exemplo. Cuidar da saúde mental também, salva muitas vidas. Acho que salva a minha. Importantíssimo tudo isso e tenho me esforçado por manter boas práticas. Mas alguns discursos que às vezes chegam até mim me geram um certo desconforto também, sabe? Como se, por ter chegado esse grande momento pra reconexão, houvesse apenas um caminho dentre todos os esoterismos possíveis no sentido da cura. Eu tento me falar "calma, cada coisa no seu tempo". E daí a gente parte também pro debate sobre privilégios e Sistema Único de Saúde. Também partimos pra reflexão sobre a coisa do consumo pro autocuidado que, como muita coisa no universo do consumo de massa, é baseado na culpa. E isso me gera ansiedade e várias outras coisas. Não acho que exista uma cartilha para práticas restauradoras. Cada um tem o seu caminho. E as sabedorias estão aí pra gente pesquisar, acessar e buscarmos nos encontrar, tentar viver melhor. Ouvir e ler as mestras e mestres que laboram com isso. O que eu sei é que eu preciso ter hábitos cada vez mais saudáveis e ecológicos.

 

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Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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