QUESTIONÁRIO DA QUARENTENA #4

22/06/2020

"A conexão não se perde, ela se transforma": Papisa fala sobre os dias de isolamento social -- ela já bancou até a dentista da amiga

 

 

2020 começou promissor. Março. Depois de lançar seu primeiro trabalho de estúdio como Papisa -- o elogiado "Fenda", em 2019, com canções sobre a impermanência do tempo e os ciclos de vida e morte --, a cantora e instrumentista Rita Oliva lançava "Homem Mulher", uma faixa inédita composta como resposta à canção "Cause I'm a Man", do Tame Impala, interpretada por muitos como machista. O single antecipava a versão deluxe que o disco ganharia. Mas aí, bem, você já sabe. Longe dos palcos devido à pandemia, ela se voltou a outras atividades: intensificou seus atendimentos de astrologia e as leituras de tarô. "A conexão não se perde, ela se transforma", diz ela em entrevista ao Azoofa.

 

 

"Pra mim a música é esse canal de conexão muito forte com as pessoas. E, de repente, quando fechou tudo, eu joguei nas minhas redes que queria receber as impressões das pessoas, comecei a fazer mais leituras de cartas e senti que as pessoas estavam ávidas por isso. Intensifiquei minha presença nas redes pelas pessoas, mas por mim também. O que tenho achado interessante são as conexões mais aprofundadas da internet”, diz.

 

 

Morando em São Paulo, ela tem conversado virtualmente com amigos e também com muita gente que não conhece pessoalmente. Passou a dar oficinas de criatividade e criou uma newsletter onde manda links com textos ligados ao tema. Outro dia fez uma live, depois abriu uma conversa em seu perfil para falar do show e migrou para um "after' no Zoom onde reuniu da mãe, às colegas de apartamento, amigos e seguidores até então desconhecidos. Para ela, "um momento como esse ressignifica o lugar da internet para o artista". 

 

 

Essa pausa deve jogar mais para frente a versão deluxe de "Fenda". "Estou passando, assim como muita gente, por uma mudança profunda na percepção do meu dia a dia e tudo isso estendeu um pouco meus prazos. Então, estou respeitando o meu momento. Eu tenho muito essa conduta de respeitar os processos quando eles ocorrem. Percebi que meu ritmo está diferente, nem tanto porque diminui o ritmo, mas porque estou priorizando outras coisas. Mas o disco vai sair, com músicas inéditas e uma versão”, conta.

 

 

Enquanto prepara o disco, ministra oficinas e conta os dias para poder correr no parque, Papisa respondeu ao nosso Questionário da Quarentena, um pingue-pongue sobre esses dias de isolamento social. Já passaram por aqui Dani Black, Clarice Falcão e Tomás Bertoni (Scalene).

 

 

 

 

O que você fez no último dia antes do seu isolamento começar?

Eu acho... minha última lembrança de interação social, já estava um clima meio tenso, eu fui ao parque correr com dois amigos que moram aqui no bairro e a gente já se encontrou sem chegar perto, meio assustado. A gente deu uma volta no parque correndo e começou a chover. E daí eu voltei para casa. Foi minha última interação.

 

 

Qual foi o seu maior medo até agora?

São muitos. Mas o maior medo mesmo é que o mundo desabe (risos). O meu maior medo acho é que no meio disso tudo venha uma guerra. É uma coisa que parece que a gente tá numa iminência, um medo de que algo maior aconteça.

 

 

E a sua maior extravagância?

Tiveram algumas, mas a gente diversificou muito aqui em casa. Vou contar uma cena que só aconteceu por causa da quarentena. Minha amiga Filipa ficou com o siso inflamado e ela chegou a ir ao dentista, super com medo. Eu tenho uma amiga dentista e comecei a conversar com ela, dizendo que minha amiga não melhorava, estava com a boca inchada e passou dias agonizando de dor. E no fim, eu acabei fazendo o procedimento (risos)... e assim, foi o assunto do mês porque eu me senti no século 18, sentada na cadeira do meu quarto, com minha outra amiga iluminando e boca dela, eu com minhas ferramentas de fazer unha e a dentista me explicando o que fazer por WhatsApp. Foi o ápice do que a gente está vivendo (risos).

 

 

Do que ou de quem sentiu mais saudades?

Da minha família, da minha avó que está na casa dela quarentenada. Eu moro em outra cidade, então eu não a vejo tanto, mas sempre que vou pra esse lugar me dá muita paz, sempre que vou é meio que para recarregar então estou sentindo falta.

 

 

O que você descobriu sobre você nesses dias de isolamento social?

Muitas coisas. É uma descoberta a cada dia. Vendo minhas anotações sobre esse período to achando assustador como a percepção muda a cada dia. Intensificou todos os meus processos internos, de acelerar tudo, de descobrir muitas coisas novas, e ser um processo doloroso de eu perceber coisas sobre mim mesma, tanto na convivência com as pessoas, quanto as minhas paranoias... descobri muito e estou descobrindo.

 

 

Papisa por Filipa Aurélio

 

 

O que mais te irritou nessa quarentena?

Difícil essa, muitas coisas me irritaram. É que irritar me soa mais superficial, algo que não tenha mexido tanto comigo, mas eu diria que o que mais me abalou... não, tem uma cena que me irritou muito, mexeu comigo. Tem um morador de rua que mora em frente ao meu prédio, ele tem uma barraca e eu passei lá há algumas semanas e vi a barraca dele toda destruída e ele não tava lá. Eu voltei pra casa arrasada, perdi a esperança na humanidade. Depois conversei com ele, e realmente danificaram a barraca dele, em um momento com esse. Ele tem outra barraca, mas tem medo de montar e danificarem de novo. E isso assim, num âmbito mais próximo, fora a discussão política, não cabe na minha cabeça como alguém pode fazer isso nesse momento.

 

 

Nesse isolamento você percebeu que não pode viver sem...

Percebi que eu consigo viver sem muita coisa.

 

 

A música enquanto negócio vai ter que repensar alguns pontos. O que tem passado pela sua cabeça sobre isso?

É um grande desafio pra gente como ofício. Eu enxergo um novo formato. As lives, a gente vai ter que aprimorar. Elas vieram para ficar acho, não será passageiro. A reflexão de pagar pela música é um desafio para os artistas, outro né, que terão que se reinventar, propor essa troca financeira com o público. Falando da cadeia toda, acho que tem dois desafios: como vamos levantar esses fundos, e aí pode ser com o público direto e em parceria com marcas, com a iniciativa privada, a gente precisa cavar mais esse caminho, e a outra é produzir.

 

 

Se tivesse que escolher uma trilha para a quarentena, qual seria?

Eu fiquei pensando nisso... Eu ficaria entre o silêncio e uma trilha muito variada. Hoje eu fiz uma playlist que tem música clássica, música brasileira, música nova, isso é uma forma de não ficar entediada também. Eu voltei a ouvir música clássica, principalmente Chopin. Foi uma das coisas que eu estudei menor e meus avós gostavam e isso me traz um aconchego. Nos últimos dias ouvi bastante Cartola, por algum motivo.

 

 

Quando a quarentena acabar, você...

Vou correr no parque. Eu estou louca para fazer isso.

 

 

Quem escreveu
Andréia Martins

É jornalista, trabalhou com edição e reportagem nos portais Vírgula, Globo.com e UOL cobrindo música, política e internacional. Hoje segue na redação e também é editora do Roteiros Literários, sobre literatura e viagem.

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