Rodrigo Fuji - Longe [2020]

25/06/2020

Rodrigo Fuji, do Vitrola Sintética, lança clipe de "Longe" e fala sobre sua primeira experiência solo

 

 

Foi em agosto de 2017 que Rodrigo Fuji começou oficialmente a trabalhar em seu primeiro disco solo. Mas o desejo por fazer um álbum sozinho já existia há tempos, assim como a ideia de tocar todos os instrumentos no disco. Com a produção de Ricardo Prado, "Recortes" começa a chegar ao público agora em 2020. Serão 6 músicas, todas compostas por Rodrigo e duas parcerias, com Felipe Antunes e Diogo Garcia. 


Dois singles, lançados em abril e maio, já deram mostras do que vem por aí: "Não Sei", com participação de Luiza Caspary, e "Conflitos". A próxima faixa é "Longe", que chega às plataformas digitais com clipe roteirizado e editado pelo próprio artista, assim como nos vídeos dos singles anteriores.


Esse espírito "faz tudo" de Rodrigo Fuji ecoa na sua própria produção até aqui: ele é guitarrista do Vitrola Sintética, com quem gravou 4 discos e onde também se arrisca no violão, piano e voz, e baterista do grupo infantil Tiquequê e do cantor e compositor Wem. 

 

 


 

A agenda atribulada com estes e outros projetos fez "Recortes" levar quase três anos para ser finalizado. "Além disso, nesse meio tempo, o Prado resolveu construir um estúdio, e tivemos de parar as coisas até ele ficar pronto. E nós dois estávamos com muitos shows marcados. Mas iniciei 2020 com um planejamento pronto para lançar o disco. E mesmo com a pandemia, decidi mantê-lo, só fazendo algumas adaptações", conta o músico.


A mais impactante das mudanças é a impossibilidade de realizar shows presenciais. Quando os espetáculos puderem retornar, Rodrigo pretende subir ao palco com diversos instrumentos, operando-os sozinho, uma maneira de demonstrar ao vivo o processo de criação de "Recortes". Por enquanto, ele vem realizando lives no Instagram sempre que lança uma faixa nova. 


Além disso, o período em quarentena fez ele se debruçar na produção dos vídeos, uma novidade em sua carreira. "No clipe de "Longe", eu fiz roteiro e edição. As filmagens foram feitas pelo meu irmão. Nos outros singles, também fiz toda a produção, mas com propostas diferentes. Em "Não Sei", abri câmera no estúdio, quando eu e a Luiza Caspary estamos cantando juntos, uma ideia simples mas que ficou muito legal, na minha opinião. Em "Conflitos", a ideia era ter um clipe mais elaborado, mas com a pandemia, eu tive que mudar os planos. Optei por usar imagens de royalty free na internet, e só montá-las", revela.


Embora toque todos os instrumentos e edite os próprios clipes, Rodrigo queria alguém com quem pudesse dividir as angústias do processo musical. E aí entra a figura do produtor Ricardo Prado. "Eu queria um produtor para que eu não ficasse travado nas dúvidas que sempre surgem durante a gravação, "será que é isso? será que não é? será que eu tenho que fazer mais ou fazer menos em tal música". Essas questões acabaram resolvidas tendo a figura de um produtor. E trabalhar com o Prado é incrível. A gente pensa muito parecido em relação aos arranjos, então muitas vezes bastava um olhar para decidirmos as coisas". 


Troquei ideias com Rodrigo sobre "Longe", a experiência de ser "a banda de um homem só" e os efeitos da pandemia em seus planos profissionais e pessoais: 

 

 

 

 

Eduardo Lemos: Como foi o processo de composição desta faixa?

Rodrigo Fuji: Geralmente, chego numa composição através de alguns esquetes de melodia, cantarolo alguma coisa. Às vezes essa ideia de melodia vem com uma ideia de letra, não necessariamente uma letra formada já, mas uma ideia. Eu gravo no celular e, depois, sento com o instrumento e analiso o que está ali, tentando organizar de uma forma mais racional. Se eu gosto da ideia, eu crio uma base e disso vão surgindo mais ideias, vou colando uma na outra e daí forma-se uma estrutura. É uma mistura de momentos de inspiração com momentos racionais de composição, usando o embasamento teórico e experiência que eu tenho com arranjo. Com "Longe" foi assim: a melodia veio e junto com ela umas duas linhas da letra. decidi que eu queria escrever sobre um assunto.


Musicalmente falando, eu sempre deixo a estrutura da música pronta. No violão e na voz, ela já tem começo, meio e fim. Isso me faz enxergar a música de um jeito mais macro, para que na hora que eu for incluir os instrumentos, eu já tenha uma noção de onde colocar ou não colocar coisas. Eu queria que todas as composições que eu venho fazendo fossem simples pra quem não tem conhecimento musical, mas que fossem interessantes para quem toca ou curte esse tipo de análise mais técnica e complexa. Fico em busca dessa complexidade que também não vai atrapalhar quem só quer ouvir um som. 


Eu cheguei com essa música pronta no estúdio. Já tinha ideia de alguns elementos que eu queria usar. Incluímos alguns elementos eletrônicos, que até então eu não havia usado para as outras músicas do disco. Como eu gravei todos os instrumentos, não tem aquela experiência de banda, que normalmente experimenta bastante as possibilidades antes de entrar no estúdio e gravar. Eu tive que ir com algo mais fixo na cabeça para que, na hora de gravar, não ficássemos muito tempo pensando. 

 

 


 

E como se deu a ideia da letra?

Quando comecei a escrevê-la, eu quis falar de um relacionamento que começou de uma maneira repentina, 'do nada', algo que você não está esperando e vem uma pessoa que impacta muito sua vida. Mas, conforme a música anda, você percebe que esse relacionamento já ocorreu, e a pessoa não está mais entre a gente. Gosto quando a letra não é explícita, quando ela proporciona outras possibilidades de interpretação, e acho que é o caso de "Longe". 

 

A pandemia mudou os planos de muita gente. Na música, vimos os artistas impossibilitados de se apresentar em público e tendo de criar novas maneiras de continuar em conexão com seu público. Como este momento te afetou profissionalmente falando?

Eu tinha mais de 20 shows marcados com o Tiqueque, que foram cancelados. Uma parte da minha renda vinha destes shows. Eu achava que a pandemia ia durar pouco, mas o tempo foi avançando e vi que ia demorar bastante. E aí foi o momento de repensar os caminhos, principalmente a rentabilidade. Como músico independente, a gente já trabalha desse jeito, sempre tentando achar algum caminho de monetizar o trabalho. Não temos muito apoio nesse sentido. E um lugar excelente para explorar possibilidades é a internet. No meu projeto solo, eu venho há mais de 1 ano estudando sobre anúncios, sobre marketing digital, pra que meu trabalho fosse 100% divulgado online. Não queria depender de coisas externas, que alguém ouvisse ou alguém fizesse alguma coisa para que o trabalho fosse divulgado. Não é que aconselho que se faça tudo sozinho, mas acho importante você ter um conhecimento mínimo das partes do trabalho. Nem todo mundo tem a possibilidade de fazer isso. Eu tenho a oportunidade e o privilégio de ter tempo para estudar, e fui nesse caminho. 


A pandemia não mudou muito meu planejamento, ele era pra ser executado dessa maneira de qualquer forma. Eu vejo até uma “vantagem”, nesse sentido, porque as pessoas estão mais atentas às redes sociais. Isso me deu oportunidade de mostrar meu trabalho para pessoas que estão em casa procurando coisas para ouvir.

 

 


 

E pessoalmente?

Pessoalmente, eu tento também não depender de coisas externas. Tenho outros trabalhos fora da música e tenho cuidado com as minhas reservas, de sempre pensar a longo prazo. Tenho o privilégio de estar onde estou agora, num sítio onde recursos básicos - leite, legumes, frutas - nós temos aqui no próprio sítio. Estou em família, onde um ajuda o outro. E tenho cozinhado mais do que normalmente eu faço.


Ao mesmo tempo, penso nas pessoas que estão sofrendo pra sobreviver. É um momento muito duro, de egoísmo e falta de empatia com o outro. Algumas pessoas já tem uma pré-disposição a não serem empáticas, e a isso se soma um presidente que taca o foda-se na pandemia. E a pessoa se vê no "direito de exercer sua falta de empatia”. Isso tudo atrasa a resolução da pandemia. Mas sou esperançoso, acho que depois de uma crise grande, a gente sempre tende a dar uma alavancada. Espero que isso aconteça, não só na parte profissional, mas também no sentimento das pessoas. Que isso possa mudar a forma que a gente se relaciona em sociedade. 

 

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Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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