QUESTIONÁRIO DA QUARENTENA #5

29/06/2020

Lucas Gonçalves, da Maglore, fala sobre os dias de isolamento social, da vontade de encontrar a banda no estúdio, do que não recomenda nessa quarentena, entre outros

 

 Lucas Gonçalves/Bandcamp

 

 

Lucas Gonçalves divide-se na carreira solo, como baixista na Maglore e ainda como vocalista e guitarrista na Vitreaux. Curioso pensar que, dentre essas três existência musicais, quando perguntado sobre o seu último show antes da pandemia, é de uma apresentação com a banda Gélida Sinfonia, projeto da Helô Ribeiro (Barbartuques), que ele se lembra. Foi sua última vez no palco naquele mundo pré-pandemia.

 

"Foi no Sesc Belenzinho, em março deste ano. Era um show de estreia, lembro do frio na barriga, lembro da maquiagem, de me divertir no palco com o Loco Sosa, Mairah Rocha, Pipo Pegoraro, Helô e Blubell. Paulinho In Fluxus fez a luz. Parecia que o palco era outro planeta. Ah! Senti falta do after. Não deu certo por conta das informações sobre as restrições que começavam a chegar por aqui, por conta da covid-19”, conta ele em entrevista ao Azoofa.

 

No final do ano passado, Lucas começou a dar pistas do seu primeiro trabalho solo, o disco “Se Chover”. Começou com “Sol e Chuva”, primeiro single que ganhou um clipe delicado em Super 8. O vídeo nos leva para as Minas Gerais de Milton, Tiso, Lô Borges com suas texturas, cheiro de mato, os chuviscos no vídeo datando o tempo daquele momento... Uma coisa afetiva, de olhar para trás e guardar uma boa lembrança. Curioso pensar que hoje, essas memórias e afetos nos servem de conforto nas horas mais difíceis de isolamento.

 

"Meu maior plano era fazer um show bem bonito de lançamento, tocar esse disco na íntegra com os meus amigos que fizeram 'chover' comigo”, diz Lucas. O disco solo sai ainda este ano. Na Maglore, ele conta que fora os shows, a banda estava naquela etapa de composição do novo disco. “Passamos o carnaval tocando, desenvolvendo ideias, testando os grooves, enfim... Seguimos isso à distância, mas aí tudo é mais complexo. É uma banda que funciona muito bem no estúdio, todos juntos”.

 

 

Enquanto faz os ajustes finais de seu disco e anseia por dias de ensaios com todo mundo junto, Lucas Gonçalves respondeu ao Questionário da Quarentena, um pingue-pongue com perguntas sobre esses dias de isolamento social. Já passaram por aqui: Dani Black, Tomás Bertoni (Scalene), Clarice Falcão e Papisa.

 

 

 

 

O que você fez no último dia antes do seu isolamento começar?


Eu não lembro com exatidão quando é que foi o início do isolamento. Sei que esse show, da Gélida Sinfonia foi o último show das unidades do Sesc. Acho que foi isso. No dia seguinte,  uma segunda feira, acho que eu montei a bateria na sala.

 


Se soubesse o que viria, o que gostaria de ter feito neste último dia, mas não fez?


Acho que eu teria viajado para Minas, só para dar um abraço apertado na minha mãe, no meu irmão, irmã e meu sobrinho! Pediríamos 2 pizzas dessa vez.

 

 

Ficar mais tempo em casa, dentro desse contexto, afetou sua forma de compor, tocar... como tem sido esse isolamento obrigatório nesse sentido?


Por ser obrigatório, muda bastante a minha relação com a casa. Nem sempre me inspira, mas eu deixo correr os meus pensamentos pelos adobes, reflito bastante, toco trompete no banheiro, penso em música enquanto corto cebola e, às vezes choro. Mas gosto de saber que tudo corre bem lá fora... No atual contexto, a casa não perde esse lugar, mas abre uma outra janela para a angústia também. Se, pela janela, eventualmente vejo alguém desconhecido caminhando na rua, fico preocupado com o risco que ela está correndo. Penso muito na morte, quando poderia pensar mais na vida. Gosto de movimento, gosto de gente, gosto de vida.

 

 

Qual foi o momento mais divertido da sua quarentena até agora?


Um dia desses eu liguei um processador de efeitos para gravar umas vozes bem malucas no projeto solo de um amigo & a Carime, minha companheira, chegou, pegou o microfone e começou a improvisar umas coisas (rs).

 

 

E qual foi o seu maior medo até agora?


Tive uma crise de ansiedade, pânico, sei lá.. parecia pânico. Coração acelerou, criou asas e vo... não. Foi bem assustador. Rolou até consulta via skype já. Tenho alguns exames para fazer. Mas é claro, é um novo medo para carregar comigo.

 

 

Nesses dias de isolamento, você não recomenda...


Não recomendo filmes do Polanski. Mesmo depois do isolamento eu não recomendo.

 

 

 

 

 

Como você tem visto a reação do público com projetos de apoio à música nesse período? Tem sentido engajamento, as pessoas ainda relutam a pagar por música, como você avalia tudo isso?


Eu acho importatíssimo! Tem muita gente que não tá conseguindo se segurar nessa corda bamba. Eu obtive ajuda de alguns amigxs e apoiadorxs pelo bandcamp. Uma amiga comprou a discografia, mas disse que prefere ouvir pelo próprio site. É a nuvem, tá tudo lá. As pessoas se acostumaram. O Spotify abriu essa opção de doação também, direto para o artista. Mas eu acharia justo se eles fizessem uma revisão sobre os valores de repasse. Quem não tem milhões de plays recebe muito pouco. E é isso.. Falo do Spotify porque é a plataforma de streaming mais popular e paga metade do que propõe a Apple Music. Tô notando que os artistas estão sentindo isso e estão se encaminhando para o bandcamp. Aliás, o meu é lucasgoncalves.bandcamp.com.

 

 

Entrevistei muitos artistas solo e fico pensando, como é a dinâmica de banda nessa quarentena? Vocês tentaram manter os ensaios, encontros, ou deixaram esse tempo livre, como tem sido?

 

Somente encontros virtuais a fim de planejar lançamentos e tal, no caso da Vitreaux. Mas ensaio, sinto a maior falta. Acho que vou valorizar mais os ensaios quando o vírus resolver partir.

 

 

A banda Maglore (Duane Carvalho/Divulgação)

 

 

 

Como você imagina esses próximos seis meses para a música?

Muitos músicos estão aprendendo o DIY. Estão se gravando, mixando, se auto produzindo. Acho que tem muita música nascendo desse período também. Eu não imagino muita coisa diferente de hoje. Mas talvez apareçam mais editais e mais incentivos para os músicos se manterem ativos em suas produções. Acho que é um ano sem espetáculos. Triste pensar nisso. Mas é o preço que estamos pagando pelo (des)governo que temos. Não há nenhum incentivo por parte deles no quesito cultura. Eles ignoram a gente e por isso vamos confrontá-los com a nossa poesia e, lógico, vamos vencê-los.

 

 

Se pudesse ter um dia normal, como antes disso tudo começar, o que você faria hoje?


Nesse dia frio, eu teria ficado em casa mesmo. Porém, convidaria Teago, Didi, Lelo e Grão para ensaiar algumas coisas novas no estúdio que passei dois dias pintando de amarelo desbotado. Ou estaria no estúdio Submarino, passando um café e passando os arquivos brutos do "Se Chover" para o disco rígido. Tô devendo as faixas isoladas das flautas para a Suka Figueiredo.

 

Quem escreveu
Andréia Martins

É jornalista, trabalhou com edição e reportagem nos portais Vírgula, Globo.com e UOL cobrindo música, política e internacional. Hoje segue na redação e também é editora do Roteiros Literários, sobre literatura e viagem.

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