LADAMA LANÇA OYE MUJER

10/07/2020

Grupo formado por musicistas de quatro países da América lança seu 2º disco, com produção de Kassin

Lara Klaus, Mafer Bandola, Sara Lucas e Daniela Senra formam a LADAMA, por Yanina May

 

 

"Oye Mujer" pode parecer uma chamado exclusivo às mulheres – em parte, é isso mesmo -, mas o novo disco do grupo LADAMA é na verdade um chamado a todos para um olhar mais atento ao outro e às lutas que são cada vez mais parte do nosso dia a dia: contra o machismo, a xenofobia, o racismo, a homofobia, entre outras.

 

 

O LADAMA é formado por quatro mulheres de diferentes cantos das Américas:  Mafer Bandola (voz/bandola llanera - Venezuela), Lara Klaus (voz/bateria e percussão - Brasil), Daniela Serna (voz/tambor alegre - Colômbia) e Sara Lucas (voz/guitarra - EUA).  O disco é o segundo da banda e estava previsto para sair em junho. Foi adiado devido aos protestos antirracistas que aconteceram em todo o mundo após a morte de George Floyd, um cidadão negro que foi morto por um policial branco durante uma abordagem nos Estados Unidos. Não havia clima para comemorar um álbum. Agora, “Oye Mujer” (Six Degrees Records), que tem 10 faixas e produção de Kassin, chega a todas as plataformas digitais.

 

 

"Esse disco foi fruto do que a gente vem vivendo ao longo desses anos, um testemunho disso. A reflexão do que está acontecendo nos nossos países e em outros. A gente sempre debateu muito e estamos entendo como são as culturas de outros países. Falamos muito sobre política. E nossas políticas, nos nossos países, são muito parecidas de modo geral, talvez a Colômbia um pouco menos. Então a gente não pensou numa temática, foi surgindo no dia a dia, de forma bem orgânica”, conta Lara em entrevista ao Azoofa.

 

 

Elas cantam sobre o empoderamento feminino em "Misterio", que abre o disco; em "Nobreza", primeiro single, o trabalho é tema (com participação do maestro Spok); "Underground" é uma canção sobre a luta de classes; enquanto “Inmigrante” é uma música de esperança aos imigrantes, com versos como: "Soy Inmigrante, valiente, caminante". Há ainda "Haverá de Ser", que relembra a tragédia da barragem de Brumadinho, em 2019, e "Maria", uma música de protesto que chama a atenção para os blecautes que aconteceram na Venezuela no mesmo ano.


 

"Tenho pensando muito sobre o que o disco representa e acho que ele fala muito da importância da empatia. Que é você se colocar no lugar do outro. A música ‘Maria’, por exemplo, fala das Marias, das mulheres do mundo que passam dificuldade. A Maria, nesse caso, foi inspirada em uma mulher venezuelana que estava sofrendo com racionamento de água, de luz, de comida. A gente se coloca no lugar dessa Maria, no lugar das pessoas que morreram na barragem de Brumadinho, do imigrante”, comenta Lara.

 

 

A colombiana Daniela vê no disco uma grande reunião de sentimentos. “Há esperança, saudade, amor, paixão, desejo, a liberdade, sexualidade, sobre a mulheres e meninas que lutam por essas causas e nos inspiram. Acho que é um disco de sentimentos”, diz. Para ela, é importante cantar sobre tais temas, especialmente por haver tanta repressão e preconceito. “Na Colômbia estamos acostumados a ver na TV morte, morte, morte. Abuso sexual e o Exército matando. No Brasil vejo mais abertura para a diversidade, com Liniker, Pabllo, há muitas opções. Na Colômbia não é fácil para a comunidade trans, por exemplo”. Para ela, o disco deixa uma mensagem às mulheres: "precisamos compreender que há um inconsciente coletivo nesse momento e que temos que ativá-lo".

 

 

 

 

 

"Mistério", segundo single do disco, interpretada pela própria Daniela e com influências dos ritmos samba reggae, reggaeton e bolero,  bate nessa tecla. "'Misterio' celebra a ideia de nos reconciliarmos com nossos corpos, amando-os de forma diversa e livre. Apreciar o seu próprio corpo é um ato revolucionário - e um ato de autocuidado. A sexualidade feminina não pode mais ser um tabu e as mulheres em todo o mundo estão levantando suas vozes e abraçando seus corpos. A sociedade e a mídia têm objetificado a mulher e por muitos anos nós temos falado sobre a nossa sexualidade sob uma perspectiva masculina, para satisfazer aos homens. Misterio é a nossa perspectiva para nos satisfazer", diz Daniela.

 

 

MÚSICA ALÉM DO ENTRETENIMENTO 

 

Além da música como entretenimento, o LADAMA trabalha com oficinas de instrumentos, composições, performance, o que, segundo Lara, é o pilar do grupo. As oficinas acontecem em diferentes comunidades, países e grupos. Para Daniela, o trabalho faz diferença pelo que pode despertar nas crianças, especialmente nas meninas. “As crianças veem a gente, veem Sara com um tambor, a Lara, somos um exemplo diferente para as meninas. Pois a mulher na América Latina está destinada à violência”, comenta.

 

 

"A gente não quer ensinar instrumentos. A gente tem uma frase que sempre diz: criar é existir. Através do compartilhamento da nossa cultura, das nossas vidas, a proposta é que os jovens criem. A gente tem oficina de instrumento, de escrever letras, de usar o corpo, entender que ele é uma ferramenta poderosa, que ele tem uma voz, e com isso a gente entende que pode ir mais além”, diz Lara.

 

 

"Oye Mujer" foi gravado em uma espécie de residência do quarteto em Massachusetts, nos Estados Unidos. Elas se reuniram para compor as músicas e depois gravaram o disco no Rio de Janeiro com o músico e produtor Kassin.

 

 

"O primeiro disco a gente que produziu, foi uma coisa mais orgânica e para esse disco a gente queria explorar novos universos sonoros, alguém com um olhar de fora, uma pessoa que pudesse conectar a gente de uma outra maneira, que deixasse as diferenças de cada uma, um pouco mais homogêneas. Alguns amigos meus já tinham trabalhado com Kassin e ele já tinha feito alguns trabalhos para o nosso selo nos EUA. Ele foi super receptivo e aberto. Kassin é muito interessado. Ele foi importantíssimo em conectar as nossas referências e intermediar as nossas ideias”, diz Lara. 

 

 

 

 

 

Não é uma tarefa simples. Além das línguas diferentes -- as músicas são cantadas em espanhol, português e inglês --, o LADAMA une diferentes ritmos e cada uma das integrantes traz uma referência musical e cultural. O disco celebra essa reunião de ritmos sul-americanos e caribenhos como ijexá, fandango, merengue dominicano, cumbia, quitipla e samba, misturando-os com soul, R&B e pop.

 

 

A brasileira conta que gravar com Kassin deu acesso a muitos outros artistas. Em um dia de gravação, com Lara e Daniela no estúdio, Kassin levou ninguém menos do que Jorge Ben Jor, que tocou com as meninas. Para a colombiana, o produtor entendeu o LADAMA e respeitou a forma como o grupo trabalha.

 

 

"Me chamou atenção a familiaridade dele com o espaço de gravação. O estúdio é caro, é corrido, mas para o Kassin é a casa dele. Não havia pressão. Ele é muito relaxado. A gente está fazendo música, queremos trabalhar com prazer. Era um desafio produzir o LADAMA pois ele dizia que a gente não tinha uma identidade única, que éramos diversas, e isso foi legal dele ter entendido”, diz ela. Outra coisa marcante para Daniela foi gravar na capital fluminense, lugar de onde ela diz ter saudade e que gostaria de ter aproveitado mais. “Gravar um disco no Rio de Janeiro é outra coisa”.

 

 

Quem escreveu
Andréia Martins

É jornalista, trabalhou com edição e reportagem nos portais Vírgula, Globo.com e UOL cobrindo música, política e internacional. Hoje segue na redação e também é editora do Roteiros Literários, sobre literatura e viagem.

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