Entre recortes e sobreposições

14/07/2020

Resp costura referências no disco "2x" e leva o ouvinte para uma viagem sonora pela cidade, do lo-fi ao hip hop

 

 

Lorenzo Molossi não sabia ao longo desses anos de trabalho que lançaria um dos discos mais interessantes de 2020. Ou sabia e esse era mesmo o plano. O músico, cantor e compositor lançou “2x” sob o codinome Resp, projeto que ele iniciou lá em 2018, ainda com o pseudônimo completo, Respiradouro. Naquele ano, as músicas do EP “Som Escondido” apresentaram pela primeira vez as experiências solo de Molossi, que já foi baterista do Mante, Veenstra, Imã e Cora. Agora, ele dá um salto de produção, aposta nas camadas e samples para criar uma narrativa sobre a cidade grande embalada pelo lo-fi, jazz e o hip hop.

 

"Todas as músicas que tão no '2x' já existiam na época do 'Som Estendido', como demos ou ideias. O lançamento do EP e os shows dessa época foram um teste. Percebi que o som tava estranho, não senti uma conexão com o público, não sei explicar - acho que era uma época muito ruim. O período de um ano e meio entre isso e o '2x' foi de voltar ao mais essencial, sobre o que quero dizer e como dizer. As músicas mudaram completamente. Um pouco da pira com o número 2 veio desse processo, porque todas elas tiveram pelo menos duas vidas, duas versões", conta ele ao Azoofa.

 

 
As 10 músicas falam sobre o tempo, trabalho, amigos, astrologia, encontros, experiências, a vida de artista. Tudo isso em vocais divididos: Resp ora canta, ora fala com o ouvinte. Esse jeito de cantar foi uma conquista nesses anos de testes para o disco.

 

"A busca principal foi da minha própria voz. Já fiz sons em inglês e, como não era o natural, ficava fácil inventar uma voz. Quando mudei pro português, tentei muita coisa e não rolava. Isso foram anos… Mas em uma altura do ‘2x’ saquei que podia cantar como falo no dia-a-dia – isso foi bom demais. Na produção fui muito pela tentativa e erro, só sentindo o que cada música pedia e como tudo se encaixava no conjunto do álbum", diz ele.

 

 

Resp. Foto: Eduarda Hipólito (@dudais)

 

 


"Não posso parar, tenho que correr..."


As composições de "2x" são baseadas em beats sampleados e guitarra. Ouvindo, a sensação é de que você está num trem e cada faixa é uma parada. Aliás, devido às colagens e transições, a impressão ao final do disco é que você ouviu bem mais do que 10 músicas.

 

A viagem começa com "Tempo", sobre o ofício do artista ("Não posso parar, tenho que correr / Não vou me perder / Esse corre sou eu que faço o traço, a cor a regra") e também sobre mudanças. Ele cita o Rio Belém, de Curitiba, onde mora, e o imagina como os espíritos dos rios do filme “A Viagem de Chihiro”. Quase no final, há um trecho de entrevista da escritora Clarice Lispector (com a voz alterada na gravação, repare). Questionada se ela se reinventa a cada trabalho, ela responde: “agora eu morri, vamos ver seu eu renasço”. Na faixa ele usa samples de Toro y Moi, Daft Punk, Mura Masa, James Blake e Stephen Malkmus & The Jicks.

 

 

O rolê pela cidade segue em "CWCG", com participação de Thesea. Fala sobre movimento, "sobre se jogar na vida". Em "Olhe/Eu Sei", escrita num trem em São Paulo, e em "2020Hidra" ele brinca com a transição de sonoridade e clima nas faixas, que são na verdade, duas músicas em uma cada.

 

 

 

 

 

 

Em "Nova Lua" o disco ganha ares mais melancólicos com um de seus versos mais bonitos: "Como água eu não repito trajeto". A partir de "600202 (Cuidado)", com participação de Shower Curtain, esse vai ser o clima disco. Nesta última, Resp canta sobre o cuidado com si próprio, com os outros e com a cidade: A rua não é perigo, canta. Inevitável não cantar esse verso e sentir uma dúvida na sequência, devido à situação de hoje.

 

"A cidade tem um lance que eu vejo como amor envenenado, falo disso na segunda parte da 'Olhe/Eu Sei': é uma onda boa, mas você sabe que tá te matando. Outro bagulho que veio da cidade em '2x' é a ambição, o poder que planos e sonhos têm no caminho da realização. Isso tá na 'Nova Lua'. Nessa track, botei a sensação de voltar do trampo de busão, ver a lua entre uns arranha-céu, sonhar com uma vida impossível e perceber que onde tô agora também era um sonho impossível no passado. Entende? Cada pessoa tem sua fé, mas todo mundo reza para o tempo quando faz planos, e ele é sagrado na cidade", comenta Resp.

 

"Osasco" vem na sequência. Resp conta que nunca visitou a cidade de São Paulo que dá nome à faixa. Com um sample de “Sugah Daddy” (D’Angelo), a letra é um poema da amiga Isabelle Eller que ele leu em 2013. É sobre sentir-se preso à uma persona criada em relação a sua cidade natal. Katze divide os vocais com ele na faixa.

 

"Tem uma passagem que fala da busca pelo sol numa cidade nublada, que é lance muito comum aqui em Curitiba, e isso ficou na minha mente. Anos depois, fiz um show aqui e no after um mano de Osasco veio trocar uma ideia. Disse que a letra bateu pra ele, porque era uma cidade muito feia (risos)", lembra Resp. "Na Pele 2x", música que dá nome ao disco, é uma canção de amor. Já "Sou de Sol", a última, traz uma sonoridade mais simples comparada ao resto do disco. Um desacelerar depois de toda uma viagem repleta de sensações.

 

 

 

 

De Respiradouro a Resp

 

Além das composições, de cantar e fazer os samples, Lorenzo toca todos os instrumentos do disco: guitarra, baixo e bateria. Músico acostumado a tocar com outras bandas, neste projeto é o que a gente chama de banda de um homem só. Quando lançou o projeto solo como Respiradouro, Lorenzo conta que o nome tinha um significado de "um lugar de respiro". Entre 2013 e 2018, era ali que ele guardava e trabalhava as sobras de gravações dos grupos com os quais tocava.

 

"Comecei a soltar as sobras no Bandcamp sem pensar muito, daí o respiradouro. Aos poucos todas as bandas e o Coletivo Atlas foram acabando e Respiradouro virou Resp porque o projeto não era mais uma válvula de escape, mas o foco principal. Resp soa menos complexo, mais fácil de lembrar e acho que funciona melhor como uma marca", conta.

 

Com o tempo, o trabalho solo começou a ganhar mais espaço e a preferência dele. “Eu prefiro trampar sozinho. É mais foda ser o seu próprio filtro, mas isso vem com a experiência. O trabalho coletivo pode ser muito prazeroso quando vira realidade, mas uma coisa é certa: precisa muita paciência, correr atrás dos outros, convencer as pessoas de que vale a pena investir, etc. No solo é você que toma as decisões importantes, sem atraso nenhum. Mas você não precisa estar completamente isolado", conta ele, que recebeu várias colaborações no projeto solo e segue atuando com outros grupos.

 

Em abril, ele lançou um disco com a Ímã e também compôs e gravou bateria nas faixas inéditas que a Shower Curtain (projeto de Victoria Winter) deve lançar em breve. Fora isso, a Dunas deve lançar som inédito no segundo semestre desse ano, também com participação de Lorenzo.

 

Enquanto isso, ele aposta na produção de clipes para divulgar "2x". "Principalmente porque não curto live. Não assisto e não tenho vontade de fazer. Prefiro estar focado em produzir material novo", diz. Além dos clipes de "600202 (Cuidado)", "Tempo" deve ganhar um vídeo animado para agosto e "Osasco" também deve ganhar videoclipe.

 

 

 

Quem escreveu
Andréia Martins

É jornalista, trabalhou com edição e reportagem nos portais Vírgula, Globo.com e UOL cobrindo música, política e internacional. Hoje segue na redação e também é editora do Roteiros Literários, sobre literatura e viagem.

Outras matérias e entrevistas