UM VELHO CONHECIDO E SEUS NOVOS HITS

24/07/2020

Thunderbird lança sua biografia e o 1º disco solo: “Imaginava entrar pro clube dos 27. Sou teimoso e sobrevivi"

 

 

"Eu imaginava entrar pro clube dos 27, na verdade. Daí que sou teimoso e sobrevivi. Ainda bem! Quero mais". Para você que nunca ouviu a história do "Clube dos 27", trata-se de uma referência ao grupo de artistas da música que morreram nessa idade. Estão nessa lista nomes como Kurt Cobain, Jim Morrison, Amy Winehouse, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Brian Jones, só para citar alguns.



Aos 59 anos, Luiz Thunderbird não só sobreviveu como vive se não, a melhor, uma das melhores fases de sua carreira. E o momento é marcado por dois projetos inéditos: sua biografia, que ele lançou em abril, e o seu primeiro disco solo, em andamento, mas que já tem duas faixas conhecidas do público: "A Obra" e "Insuportável".

 

 

"Pequena Minoria de Vândalos" marca a estreia musical solo do ex-VJ da MTV e jornalista musical -- hoje podcaster, youtuber, músico, entre outros – e,  segundo o próprio, o disco traz "uma diversidade de temas e ritmos, tem música pra dançar, pra cantar junto”. "Já tive dezenas de bandas, já gravei com muitas delas, já participei de discos de amigos, Júpiter Maçã, por exemplo. Era hora do meu disco solo. E aconteceu nesse momento de isolamento social", conta ele em entrevista ao Azoofa.

 

 

O disco acabou acontecendo com uma brecha da sua banda, a Devotos de Nossa Senhora Aparecida. "Decidi que gravaria um disco novo ainda em 2019. Mas conversei com os Devotos de lançarmos um disco comemorativo de 35 anos de banda em 2021. De novo, foi o momento certo pra uma nova empreitada: meu disco solo. Comecei a gravar no final do ano passado. Já tenho umas 7 músicas prontas. Algumas por terminar, outras poucas por gravar. Não tenho pressa de lançar o disco".

 

 

Ele está lançando um single por mês. As duas faixas já liberadas mostram um som seco, com influência punk, é claro, e muitas críticas políticas e sociais. O primeiro, lançado em maio, foi "A Obra", hit dos anos 80 dos mineiros do Sexo Explícito (formada, entre outros, por John Ulhoa e Rubinho Troll) e repaginada com um time de peso. A nova faixa é "Insuportável" (ouça aqui), gravada na casa de Thunderbird com a ajuda do amigo e parceiro Guilhermoso Wild. Thunder toca bateria (programação), baixo, guitarras e faz vozes. A letra, um poema de Rodrigo Carneiro (Mickey Junkies), veio depois.

 

 

 

 

 

 

As duas músicas ganharam videoclipes dirigidos por Thunder e André Curti, tudo gravado à distância. No caso de "Insuportável", o vídeo foi um desafio. "Me colocaram em 6 funções musicais diferentes. André tirou de letra na edição. Pedi um clima meio ‘Bruxa de Blair’ na narrativa e acho que conseguimos alcançar a dramaticidade que o tema exige", diz Thunder.

 

 

Ainda que gravado em tempos de distanciamento social, os amigos tiveram papel importante na empreitada. Entre as participações especiais do disco estarão Odair José, Pedro Pelotas (Cachorro Grande), Lucinha Turnbull, Julito Cavalcante (BIKE), Zé Mazzei (Forgotten Boys) e Ricardo Kriptonita. "Mas não vejo a hora de fazer shows com eles. Lançar esse disco com plateia. Haja paciência!", brinca.

 

 

"Insuportável" é uma canção que nos leva a uma conclusão não muito otimista sobre o Brasil. Não à toa, Thunder diz que, nesse período de isolamento social desde o início da pandemia, o que mais tem achado insuportável são “os espetáculos midiáticos diários do bolsonarismo. Essa distopia é insuportável”.

 

 

 Arte: Carol Shimeji

 

 

OS CONTOS DA VIDA DE THUNDERBIRD

 

A ideia de contar a história da sua vida em um livro surgiu em 2014. "A princípio, Mauro Beting escreveria o texto, começamos assim. Mas ele perdeu os áudios das entrevistas. Foi quando eu decidi escrever eu mesmo o livro. Ainda conta com participação do Mauro nas introduções dos capítulos e do Leandro Iamin nas entrevistas dos citados. Foi muito interessante lembrar de tudo, rever minha trajetória, meus percalços e conquistas".

 

 

O livro leva o nome de "Contos de Thunderbird – A biografia" (Editora Globo), mesmo nome de um dos programas que apresentou na MTV, em 1996, no seu retorno à emissora. Thunder fez parte do que a gente pode chamar de era de ouro da MTV brasileira e formou uma leva de espectadores que o acompanham desde então -- além dos novos seguidores.


 

"A MTV foi especial, comecei na TV ali. Eu tive o privilégio de começar na emissora e terminar suas atividades em 2013. Foram muitos anos vendo a MTV crescendo. Trabalhar na Globo, na Manchete e Cultura foi bacana também. Tudo muito diferente em cada uma das empresas. No livro eu falo de todas essas histórias", conta ele.

 

 

 

 

Histórias, aliás, é o que não faltam, sejam as pessoais – do início da relação com a música ao ganhar o primeiro violão, um Di Giorgio Classic, aos 8 anos, os estudos para ser dentista (ele se formou em Odontologia), da batalha para deixar as drogas, das primeiras bandas em meados dos anos 1980 e dos trabalhos na mídia –, mas também a da televisão e da música no Brasil. Afinal, essa viagem guiada por Luiz Fernando Duarte, seu verdadeiro nome, começa em 1961 e passa por décadas de muita transformação na televisão e no rádio. Muitas coisas mudaram de lá pra cá no nosso jeito de produzir, divulgar e consumir música.

 

 

"São diferentes meios de produzir cultura. As plataformas digitais são outra conquista da modernidade. Eu ainda tenho CDs e LPs, mas estou sempre no Spotify descobrindo coisas novas. Acho isso bárbaro”, conta.

 

 

"Nunca imaginei que teria um podcast, por exemplo. A 'Netflix do rádio' é um lance bem legal. Já faço o Thunder Radio Show há 7 anos, toda terça às 21h. No momento, estou fazendo lives no Instagram, enquanto não temos estúdio pra gravar na produtora. Eu já havia produzido programas para a internet, desde 2008. Mas conseguir fazer a minha MTV particular no YouTube foi outra conquista. O Music Thunder Vision já está em seu terceiro ano de produção. O curioso é que esse programa de YouTube fez tanto sucesso que a TVT está exibindo seus episódios na TV digital. A TVE da Bahia está fazendo o mesmo", diz orgulhoso.

 

 

A relação com as drogas ocupa boa parte da história. Vemos um Thunderbird sem controle, mas que sempre contou com amigos para alertá-lo do caminho perigoso. Ele mesmo já comentou que sua "relação com as drogas teve o namoro, o noivado, o casamento, o divórcio e algumas tentativas de reconciliação que não rolaram". O ano de 1997 é chave nessa história. Depois de passar o Natal usando drogas no quarto -- no caso, a freebase, poderosa substância química capaz de provocar um redemoinho cerebral --, enquanto a família comemorava a data.

 

 

Um amigo que já havia passado por essa experiência foi fundamental para Thunderbird: Nasi. Foi ele quem falou com a família do amigo sobre a Vila Serena, centro de tratamento frequentado pelo próprio Nasi, Renato Russo e até Raul Seixas. Outros amigos que o ajudaram também aparecem no livro, como João Gordo, quem recomendou que Thunder diminuísse o consumo de cocaína.

 

 

Sobrevivente e surpreso por estar a caminho dos 60, ele já pensa no segundo volume da biografia. O que vai demandar mais histórias. Parte de lista do que quer fazer, ele já tem: "mais discos, mais programas de TV, rádio, YouTube, podcasts". "Quero mais, muito mais".

 

Quem escreveu
Andréia Martins

É jornalista, trabalhou com edição e reportagem nos portais Vírgula, Globo.com e UOL cobrindo música, política e internacional. Hoje segue na redação e também é editora do Roteiros Literários, sobre literatura e viagem.

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