Lances [2020]

01/09/2020

Exclusivo - a bela estreia em disco de Sztu

fotos: Raphael Calheiros e Fernanda Frate 

 

 

Viver no século XXI é experimentar uma existência líquida, em que pouco apreendemos os fatos. Às vezes tenho a sensação de que a vida é um enorme clipe montado com milhões de imagens que passam repetidamente sem que consigamos observar nenhuma delas com o devido cuidado. Às vezes a vida é uma soma de lances - micro acontecimentos um atrás do outro - e lances - acontecimentos descontrolados. A pandemia só reforça a percepção.


É sobre o poder do tempo que fiquei pensando ao escutar "Lances", primeiro disco do cantor e compositor Sztu. No álbum de oito faixas autorais, o artista paulistano fala de amor, política, rotinas, absurdos, numa colagem que mimetiza nossos dias atuais, em que acontecem mil coisas ao mesmo tempo. 

 

 


 

O processo de criação do disco - do momento em que foi gravado até chegar aos nossos ouvidos - também teve influência do relógio. Gravado em 2017, o trabalho vem ao mundo somente agora, já que Sztu passou os últimos dois anos na Colômbia, onde realizou mestrado em artes - Sztu é também André Stuztman, artista plástico. “Eu achava importante estar no Brasil para lançar o disco. Mas eis que veio a pandemia e embora eu esteja de volta ao país, lanço o disco em condições de distanciamento. É irônico”, afirma o compositor. 


Musicalmente, brilham os arranjos criativos (ouça "Bicho Esquerdo"), a voz suave e as melodias labirínticas, que fazem o ouvinte mais interessado querer escutar de novo, como um visitante numa cidade desconhecida. E aí entra o tempo - nosso mais precioso bem - novamente: alguns discos merecem que você doe suas preciosas horas pra uma escuta atenta, e neste 2020 em que não sabemos se é domingo ou segunda, "Lances" entra nesta categoria.


 

 

 

“O foco do disco são realmente as emoções interpessoais, crises, dúvidas e êxtases, mas também tem paisagens que são politicas, absurdas. Então vejo ‘Lances’ hoje como um trabalho que tem alguma leveza, pois vivemos um estado de coisas muito mais extremo do que o de quando gravamos. Mas também é um disco com seus pontos ácidos e críticos”. E ele completa: “A evolução da pandemia e da violência de Estado crescente nos quebra por dentro todos os dias. Nesse processo doloroso e ao mesmo tempo cada vez mais anestesiado, um disco que dá tanta atenção aos afetos como esse, quem sabe possa dar uma força ou sensibilizar quem o escutar. Não sei, mas espero que sim”.


A produção do álbum é do próprio Sztu, em parceria com Edu Camargo e Thiago Nassif, e a banda é formada pelos músicos João Fidelis (Caixa Cubo) na bateria, Arthur Decloet (Música de Selvagem) no baixo, William Bica (Teto Preto) na percussão e trombone e Edu Camargo (MAWU) na guitarra. 


Para além da banda núcleo, o disco conta com participações de uma série de músicos bastante atuantes na cena musical contemporânea: Maria Beraldo (clarinete), Chicão Montorfano (teclados), Fernando Goldenberg (trompete e gaita), Guilherme Lirio (guitarra e sinths), Angelo Ursini (flauta, sax e pífanos), Chico França (bateria), Caio Falcão e Irene Rodevia (vozes). São eles que, juntos aos músicos da banda e ao violão de Sztutman, dão forma à uma sonoridade eclética, que bebe em referências múltiplas que vão da tropicália e da vanguarda paulista até sons contemporâneos como Canções Velhas para Embrulhar Peixes, Vovô Bebê, Jonas Sá, Sessa, Ava Rocha e Ana Frango Elétrico.

 

 

 

 

 

Sobre a escolha do título do disco, o músico explica: “‘Lances’ é uma música que cumpre um papel central no disco. É romântica e existencialista, melancólica e um pouco safada. E tem a ver com o tempo. Por que um lance é um lance (como diz MC Smith), é algo fugaz, mas eu acho que nem por isso deixa de ser algo impactante, que mexe com a gente. Ao mesmo tempo a palavra também remete para mim ao poema de Mallarmé, ‘Um Lance de Dados jamais abolirá o acaso’. Esse poema é um marco da poesia moderna, ele inaugura a possibilidade de usarmos as palavras de maneira plástica, concreta, e de fato a nossa poesia concreta brasileira vem também muito desse gesto radical. E é uma poesia que fala do acaso, da sorte, do azar, da aleatoriedade. Então no tempo a gente é sujeito de um acaso, a gente está sujeito a esse grande acaso e ‘Lances’ fala disso”.


Falei com ele sobre o processo de criação do disco, suas referências e a motivação para lançá-lo num dos momentos mais dramáticos para o Brasil.

 

Confira: 

 



capa: Maria Cau Levy

 

 

Eduardo Lemos: Como foi o processo de criação do álbum? Como rolou a seleção das músicas e dos músicos convidados? 


Sztu: Fiz um longo trabalho de pré-produção com o Edu Camargo. Mandei muitas músicas pra ele, gravações de celular. Ouvimos e trabalhamos na seleção, até chegar num conjunto que nos deixou animados, porque formava uma unidade também. Então juntamos a banda, que é um bando de amigos. Conheço o Bica e o Arthur, por exemplo, há muitos anos. Então tínhamos intimidade e pensamos muitos arranjos e soluções juntos. Uma banda realmente especial, com o João Fideles, baterista do Caixa Cubo, Arthur Declodt, baixista do Música de Selvagem. O Edu na guitarra e o William Bica, do Teto Preto, tocando percussão e trombone. Convidei então músicos que admiro muito e que de alguma forma também estavam próximos de mim. Foi emocionante tocar com esse povo todo. Os convidados são Chico França, bateria; Chicão Montorfano, teclados; Maria Beraldo, clarinete; Fernando Goldemberg, trompete e gaita; Guilherme Lirio, guitarra e sinths; Angelo Ursini, flauta, sax, pífanos; Caio Falcão, voz; Irene Rodevia, voz. E o Thiago Nassif, que é produtor também e parceiro de longa data, trouxe sua experiência pra somar na gravação e pós-produção do disco. Então tenho esses dois produtores em pontas opostas do processo, pré-produção e pós, e eu mesmo acabei assinando a produção porque eu tinha ideias muito claras sobre muitos aspectos da sonoridade do disco. Esse trabalho a 3 foi muito fluido e gostoso.

 



Lances chega ao mundo num momento de enorme dúvida pra todo mundo, em particular ao mundo da música, que enfrenta a impossibilidade de fazer shows e aposta tudo no digital. Como você vê e sente esse momento? 



De fato, o mundo em que gravamos o disco e o mundo em que o lançamos são muito diferentes. A pandemia e o governo federal atual fazem com que nossa realidade seja muito mais extrema que a de 2017, que já não era boa... Em relação ao meio musical, perdemos muito espaço, e é especialmente difícil para o pessoal da técnica em geral. Sinto que gente precisa conversar entre todos para descobrir ou inventar estratégias de sobrevivência. Acho que possíveis soluções só podem ser encontradas coletivamente. Mas frente a isso tudo não pensei em adiar o lançamento, porque já demorou muito pra ser lançado. Eu adiei o lançamento porque de 2017 a 2019 fui morar na Colômbia, onde tive então uma oportunidade de estudo e trabalho. Eu achava necessário estar no Brasil para lançar o disco. Mas eis que veio a pandemia e embora eu esteja de volta ao Brasil, lanço o disco em condições de distanciamento. Em relação aos shows, acho que hoje eu faria um show muito diferente do disco, por tê-lo gravado há 3 anos atrás. Então acho que faz sentido fazer um lançamento apenas digital e deixar pra pensar o show com mais cuidado, e fazer isso mais pra frente.



 

Esta será a primeira vez que algumas pessoas vão escutar seu nome, então queria que você se apresentasse um pouco: quando você começou a trabalhar com música e quais são suas referências musicais? 


Eu sou artista plástico e sou mais conhecido nessa área, onde me dedico profissionalmente desde 2008. Mas também sempre compus canções também como algo paralelo mas muito presente na minha vida, um hábito mesmo. Eu também tenho uma banda desde 2008, a Epicac Tropical Banda, que é um projeto mais radical, onde a gente experimenta muita coisa com interfaces eletrônicas e constrói sonoridades muito menos tradicionais. A gente tem 2 discos gravados (Feeling Trésh e Grau Gero A e B), que estão no bandcamp e em breve vão estar em todas as plataformas digitais. Mas paralelamente a isso eu mantinha esse hábito de compor canções e aos poucos outros artistas foram gravando algumas músicas minhas. A primeira música que lembro de compor é Aviãozinho, que fiz com uns 15 anos, e que o Caio Falcão gravou no primeiro disco dele, o Tudo Verde.  Ele também gravou Ready-Made, Adeus Rock’n Roll e outras. Depois a Linna Karo também gravou Atristeve e Desvios de Luz, e fiz também parcerias, compondo junto com outras pessoas. É o caso de Pedra Preta que era um samba, e que a Laura Dias gostou, viu algo ali além do que eu via, e complementou a letra, mudou a pegada, e virou clipe do Teto Preto, que é um grupo importantíssimo na cena de São Paulo, politicamente importante. A tal da pedra preta ganhou outros significados com essa parceria, porque a Laura viu um vínculo entre essa pedra citada na letra com o Bendegó, o meteorito carburado e único sobrevivente do incêndio do museu nacional em 2018. Também tenho varias parcerias com o Thiago Nassif, que recentemente lançou um disco incrível, o Mente, co-produzido pelo Arto Lindsay. A música Rijo Jorra Já é uma parceria nossa, a letra é toda minha, umas das letras que fiz que mais gostei até hoje. Minhas referências então são muito heterogêneas, e isso pode ser visto nas minhas parcerias também. Vão desde a tradição da canção popular brasileira até a música eletrônica e construções sonoras mais abstratas. 



FICHA TÉCNICA:
“Lances” - Sztu
Produção musical: Sztu, Eduardo Camargo e Thiago Nassif
Produção Executiva: Chico Oliva
Gravado em Julho/2017 por Fábio Pinczowski no Estúdio Doze Dólares - SP
Mixado no Rio de Janeiro por Duda Melo
Masterizado por Martin Scian.
Sztu - Violão, Guitarra & Voz
Arthur Decloedt - Baixo Elétrico & Acústico
Eduardo Camargo - Violão Nylon, Aço & Guitarra
Thiago Nassif - Guitarra & Baixo
João Gabriel Fideles - Bateria, Percussão & Vibrafone
William "Bica" Sprocati Tocalino - Percussão & Trombone
Guilherme Lirio - Guitarra & Synth
Fernando Ruggiero Goldenberg - Flügelhorn, Trompete & Gaita Cromática
Maria Beraldo - Clarinete
Chicão Montorfano - Fender Rhodes, Hammond & Nord Lead
Ângelo Ursini - Pífanos, Flauta Transversal & Saxofone Tenor
Irene Rodevia - Backing Vocals
Caio Falcão - Backing Vocals
Chico França - Bateria
Participações Vocais Faladas: André Sztutman, William "Bica", Samuel Benaton & Chico
Oliva

 

 

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Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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