Tatuagem Zen [2020]

04/09/2020

Novo disco de Fernanda Cabral é brilhante retrato de uma compositora em pleno voo

 

 

A força do canto, o diligente trabalho de compor, o tempo natural da criação, o brilho das parcerias talhadas ao longo do caminho e a sabedoria que só o palco traz. Os pequenos grandes rios que compõem a carreira da cantora e compositora Fernanda Cabral agora desaguam em Tatuagem Zen, seu segundo disco, que chega às plataformas digitais nesta sexta, 04.

 

 


 

Tatuagem Zen chega ao mundo quase uma década depois de sua estreia discográfica, "Praianos", de 2011. Neste período, Fernanda compôs canções para outros intérpretes e intensificou sua carreira na Europa - ela viveu em Madrid por 15 anos. 


É também neste espaço de tempo entre-discos que Fernanda maturou as canções do álbum - todas as faixas são de autoria dela, às vezes assinando sozinha ("Cerrado", "Tatuagem Zen"), em outras dividindo a autoria com parceiros de diversas frentes da música brasileira, de Makely Ka a Fernando Brant. 


O grande destaque do disco é o retorno de Fernanda ao estúdio, mas ali dentro há diversas belezas por se descobrir.  A primeira é a própria veia compositora da artista, mais elegante e poderosa do que nunca. Há também a presença dupla de Ney Matogrosso - que canta com ela a belíssima "Pássaros" e lançando o disco pelo seu selo, o Matogrosso Produções. Outra força está no entrosado time de músicos (Sacha Amback, Chico Correa, Misael Barros, Ocelo Mendonça, Oswaldo Amorim, Serge Frasunkiewicz e outros). 

 

 

 

 

Conversei com Fernanda sobre o disco, o tempo de criação e o que é ficar sem shows para uma cantora que celebra o palco como uma segunda casa. Confira: 

 

 

 

 

Eduardo Lemos: Tatuagem Zen é seu segundo disco. O primeiro, Praianos, é de quase uma década atrás. Numa era em que a indústria musical quase que obriga o artista a lançar coisas novas o tempo todo, achei significativo o tempo entre um e outro. Por que essa opção?

 

Fernanda Cabral: Nunca me importaram as exigências do mercado. Sou exigente com o meu próprio caminho e a autenticidade que possa nele construir, com o tempo do meu processo criativo. Estive todo esse tempo fazendo o que mais gosto de fazer: compor muito e, fazer muitos shows, para sentir a temperatura do encontro de cada canção com o público, para aí sim, decidir o repertório desse segundo trabalho, igualmente todo autoral.

 

 

Como foi a construção deste repertório? Como você foi escolhendo as canções?

 

Inicialmente passou por esse processo que te comentei anteriormente: sentir através do “ao vivo” a vibração do público com cada canção. Componho muito, de lá pra cá pude viver esse processo que amo inúmeras vezes, principalmente na Europa, onde normalmente faço mais shows. Daí veio a primeira entre muitas, a canção “Cerrado”, a única do disco que assino sozinha letra e música. Nesse momento, senti que esse novo disco falaria muito da minha relação com a terra, meu lugar de origem. E assim, comecei a perceber várias canções que dialogavam entre si, e sobre esse tema. Por outro lado, decidi me colocar mais no lugar da melodista, de quem pensa na canção e deixar espaço a diferentes poetas e grandes letristas.

 

 

O disco tem essa dupla parceria com Ney Matogrosso - no canto de "Pássaro" e no lançamento sob o selo Matogrosso Produções. Como vocês se conheceram e como se desenvolveu essa relação? E como está sendo essa parceria dentro e fora do disco?

 

“Pássaro” foi a última canção a ser composta e fechar as 12 músicas do disco. Foi tudo muito mágico, como é o próprio Ney pra mim. Ele é assim, um mago, intérprete-escultor das energias sutis do invisível. A letra de “Pássaro” é uma poesia que ganhei de presente do meu grande amigo e músico Chico César, compus a melodia e ao lado do meu produtor e pianista Sacha Amback, finalizamos juntos no Rio de Janeiro. Logo depois, ele mostrou para o Ney, que adorou e topou gravá-la no meu CD. A gente se conheceu no estúdio, e foi lindo porque estávamos os dois com uma energia muito bonita, focada, criando ali juntos e colocando essa canção no mundo. E foi a canção e sua própria força, que fez com que o Ney me fizesse esse convite, o de ser uma das artistas do seu selo discográfico. Não poderia ter recebido maior presente, cantar ao lado de um dos artistas que mais admiro na vida e fazer parte da estória da sua discografia.

 

 

 

 

 

Você passou alguns anos na Europa e agora anuncia um retorno ao Brasil. Como foi esse período por lá, profissionalmente falando? E em que estado você encontra a música brasileira neste 2020?

 

Morei 15 anos em Madrid e cantei em vários países da Europa e também no Japão. Foi muito importante poder viver da música de forma plena, em todos os sentidos, ser reconhecida, claro! Por outro lado, toda essa experiência estava sempre atrelada a minha faceta de compositora, com mais de duas décadas de intensa dedicação a esse ofício. Agora sinto o quanto isso foi importante pra mim! Acho que a música brasileira é incrível, tem cantores e compositores incríveis! Não acredito em quem diz que já não existe uma música de qualidade. Uma coisa são os artistas maravilhosos que temos, outra, o mercado. Acho que infelizmente há pouco espaço para a música “não comercial”, e ponho aspas, porque muitas vezes, o que a música precisa é ser conhecida para ser popular! 

 

 

Há uma dúvida enorme pairando na cabeça de quase todos os seres humanos neste momento de pandemia, em especial nos que vivem de música, já que o exercício do show pressupõe aglomerações. Como você tem enxergado este momento?

 

O momento é muito incerto mesmo! Eu sou uma artista do palco, amo! É a minha casa, então me preocupa bastante não vivenciar esse lugar de sintonia fina, de troca energética que tanto alimenta a minha arte; seja como cantora, compositora ou atriz. No entanto, através dessa limitação, estamos tendo que pensar em lives, em outras formas de produção visual, que por outro lado, pode também ajudar a divulgar mais o nosso trabalho, e levá-lo a muitas partes do mundo. Acredito também que quando tudo passe, vamos valorizar mais ainda os shows, e esse contato presencial.

 

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Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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