Embrazado

15/09/2020

Pesquisadores lançam site com foco na música periférica do Brasil

foto: Igor Marques

 

 

É ponto comum para quem vive de música no Brasil: a cada ano, fica menor o espaço na imprensa para a cultura dos sons. As razões se misturam: uma queda global do jornalismo como principal canal de informação do público; a voracidade das novas plataformas digitais, como Google e Facebook, que se utilizam dos conteúdos mas não pagam por eles; a precariedade que os profissionais da área encontram em redações e o quase inexistente suporte governamental ou privado para o que já foi considerado o quarto poder. 


Se é difícil encontrar espaço para artistas dos grandes centros, qual é o cenário quando pensamos na música produzida na periferia? Ainda bem que há resistência e resiliência, e é neste lugar que vejo - com empolgação - a estreia do portal Embrazado (www.embrazado.com.br), que entra no ar nesta terça, dia 15.

 

Selecionado como projeto especial na Chamada Música em Movimento do Programa Petrobras Cultural em 2018, o portal é uma plataforma com grandes reportagens em diversas mídias sobre o que há de mais contemporâneo na música periférica do Brasil.

 

Organizado pelos pesquisadores pernambucanos Gabriel Albuquerque, Igor Jatobá, Igor Marques e Rodrigo Édipo, traz - além das grandes reportagens - podcasts em áudio e matérias de textos e vídeos sobre cenas como o bregafunk, pagode, funk, tecnobrega, forró, reggae, eletrônica, entre outros ritmos. 

  

 

Igor Marques e GG Albuquerque, criadores do Embrazado - foto: André Soares

 



O pesquisador Rodrigo Édipo, criadores do Embrazado

 


Difundir, capacitar e fomentar as produções culturais dentro e fora das periferias brasileiras é a base da iniciativa do Embrazado, que começou como festa em Recife (PE) em 2018, tornou-se um podcast em 2019 e, agora, abraça o jornalismo e as ferramentas digitais para expandir sua presença.

 

Conversei com Gabriel Albuquerque - ou GG Albuquerque - sobre a estreia do site, o impacto da pandemia na produção artística fora dos grandes centros e os complexos desafios de quem faz música periférica no Brasil.


 

foto: Igor Marques

 


Eduardo Lemos: Pra quem não conhece o Embrazado, como vocês se conheceram e como chegaram à ideia de criar um site com olhar dedicado à música periférica do Brasil? 


GG Albuquerque: Eu e Igor nos conhecemos transitando na cena musical independente de Recife. Mas além da cena mais, digamos, "alternativa", cada um tinha um interesse e uma escuta de determinadas cenas musicais periféricas. Eu ouvia, lia e escrevia muito sobre funk, de diferentes cidades. Igor sabia muito do brega recifense e das diversas cenas musicais da região Norte. Conforme fomos ficando mais amigos e compartilhando essas pesquisas entre nós, foi crescendo uma vontade de compartilhar essas músicas com outras pessoas e mostrar a enorme pluralidade, a riqueza e a criatividade das diferentes músicas das periferias brasileiras. Então em 2018 surgiu o Embrazado. De início era uma festa, aberta e gratuita, realizada no centro da cidade, no Edifício Texas (um bar que era também um centro cultural). Nunca ganhamos dinheiro com isso, fazíamos pela paixão à música e, claro, pela diversão. Mas com o tempo queríamos compartilhar essa nossa pesquisa de uma outra forma além da festa e do ambiente da pista. 

 

Eu sou jornalista. Igor é designer, fotógrafo e estudante de Ciências Sociais. Logo passamos a construir parcerias em trabalhos jornalísticos. Fizemos, por exemplo, uma série de reportagens sobre a história do Bregafunk para a Vice Brasil em 2018. E assim a ideia de um portal de conteúdos jornalísticos sobre a música periférica foi se fortalecendo. Tínhamos uma certa insatisfação quanto ao modo como essas cenas eram tratadas. Quando não eram simplesmente ignoradas, eram muito tratadas sob uma perspectiva meio condescendente que lhes atribui relevância apenas pelo fator social (é "a voz da favela", a "expressão dos oprimidos" e afins). Ainda que o aspecto social seja importantíssimo, para nós esse olhar enclausura e reduz toda a potência inventiva e a inteligência artísticas que permeiam essas músicas. Era como se esses artistas fossem tratados apenas como sujeitos periféricos, e não como artistas ou sujeitos criativos. A gente queria discutir música, acima de tudo, porque acreditamos que a arte que essas pessoas estão produzindo é sim inovadora e representa uma renovação vigorosa da música popular brasileira. E daí começamos a produzir o Podcast Embrazado, há um ano, e agora estamos lançando o Portal Embrazado, para aprofundar ainda mais em toda essa imensidão musical que é também um retrato do Brasil.

 


Quando a internet ganhou força no Brasil, com mais gente podendo acessar e publicar conteúdos digitais, algumas pessoas (eu me incluo neste grupo) tiveram a sensação de que haveria uma democratização da informação, e no caso específico da música, que artistas e ritmos de outros centros e desconectados do mainstream finalmente teriam espaços de divulgação. Mas essa ideia não chegou a se concretizar exatamente. Como vocês enxergam isso em 2020? 


Eu penso que ocorreu mesmo uma democratização, mas até certo ponto. Compara, por exemplo, as músicas mais tocadas das rádios brasileiras e as mais tocadas no YouTube. Se você analisar o Top 100 anual das rádios levantado pelo Instituto Crowley, no período de 2016 a 2019, vai ver apenas dois funks: "Vai Malandra" (de Anitta com feats de MC Zaac, Maejor, Tropkillaz e DJ Yuri Martins)  e "Terremoto"  (de Anitta e Kevinho). Dentre 400 músicas mais tocadas, apenas dois funks! Isso representa 0,5% do total! Aí quando você pega o Top 10 anual dos vídeos musicais mais vistos no YouTube Brasil nesse mesmo período, de 2016 a 2019, vai ver 10 funks mais 1 bregafunk da MC Loma — isto é, 27,5% do total. A internet é o espaço onde a música periférica vai se espraiar e, principalmente, criar uma rede na qual se compartilham influências musicais, visuais, técnicas de audiovisual e muito mais. 

 

Claro, isso também tem a ver com uma ascensão social que se dá com mais ênfase em meados dos anos 2010. Em 2013, a venda de smartphones no Brasil cresceu 122%, sendo que 58% dos aparelhos no país estavam nas mãos das classes C, D e E. Estas mesmas classes possuíam 60% de todos os computadores do país e 46% dos tablets. O efeito desta inclusão digital apareceu na lista dos nomes mais buscados no Google naquele ano: dentre o top dez, três eram funkeiros, como Daleste, que foi assassinado em cima naquele ano e estava no topo da lista. Tem então uma relação entre política (no sentido institucional mesmo), tecnologia e proliferação de outras práticas culturais, que por sua vez vão disseminar outras subjetividades na sociedade e na cultura brasileira.

 

Um dos problemas é que muitas dessas cenas ainda são invisíveis ou negligenciadas pelo jornalismo cultural — ainda que existam alguns importantes profissionais que pautam essas cenas com profundidade e seriedade. Outro problema é que o mercado se apropria dessas cenas (muitas vezes embranquecendo) deixando de fora a periferia. Dennis DJ, que construiu sua carreira sob a égide de um funk "higienizado", faz uma live no Cristo Redentor sem problemas. O DJ Rennan da Penha, artista negro que construiu sua carreira no baile de favela, transformando o Complexo da Penha, tem sua live cancelada por conta de problemas com a UPP. São muitas as questões, mas a meu ver a questão central é o racismo e classismo, o preconceito com pobres. Isso é a base tanto da violência policial quanto da inferiorização dessas artes. 

 


Me chamou a atenção a aposta que vocês fazem no jornalismo. Tanto pelo formato ‘grandes reportagens’, que imagino significar matérias mais aprofundadas e com tempo mais alargado para serem produzidas, quanto pela escolha de ter correspondentes em regiões diferentes.  Me chamou a atenção a aposta que vocês fazem no jornalismo. Tanto pelo formato ‘grandes reportagens’, que imagino significar matérias mais aprofundadas e com tempo mais alargado para serem produzidas, quanto pela escolha de ter correspondentes em regiões diferentes. Esse é um momento tremendamente difícil pro jornalismo. Como se deu essa decisão?


Apostamos no jornalismo porque é uma ferramenta de cidadania. As nossas críticas ao jornalismo tradicional são apenas isso: críticas. Não é uma recusa por completo. O jornalismo pode e deve sempre se reinventar, e as melhores reinvenções vieram justamente da periferia. Não somos os únicos, nem os primeiros e nem os últimos a buscar isso. Iniciativas como a Agência Pública, o Voz da Comunidades ou o Alma Preta são referências para um novo fazer jornalístico, e vamos trabalhar para que o Embrazado também possa ser. Ser independente nos tira certas possibilidades. Somos uma equipe minúscula, não podemos convocar tantos colaboradores (mas pagaremos todos, é importante frisar). Por outro lado, ser independente e contar com esse apoio do edital Petrobras cultural é que vai nos permitir pensar em conteúdos mais extensos e profundos, numa interface entre a pesquisa acadêmica e o jornalismo.

 

foto: Hannah Carvalho

 


Há um interesse em “conectar pessoas e contribuir para a criação de laços entre as comunidades”. Como pretendem fazer isso na prática?


Vamos realizar intercâmbios musicais, com artistas de diferentes regiões gravando músicas juntos. Existe uma rede de música periférica brasileira que se influenciam mutuamente pela internet. Unir, por exemplo, uma cantora de pagodão baiano com um DJ de Belo Horizonte. Ou um produtor do tecnomelody de Belém com um funkeiro carioca. E, obviamente, remunerando os artistas adequadamente. Ao fim do projeto, teremos cinco músicas que serão fruto desse intercâmbio (a ideia era que esses intercâmbios fossem presenciais, mas agora vai ter que ser online mesmo). Nossa ideia é acentuar essas conexões já existentes. O carioca MC Reizin, por exemplo, passou a fazer músicas no estilo bregafunk do Recife e até tem dois repertórios diferentes: um show para Recife e outro para o Rio. A MC Dricka, de São Paulo, vem fazendo músicas com artistas do funk mineiro, como MC Rick, DJ Ray Lais e DJ Gui Marques.


Por fim, como vocês analisam o efeito da pandemia no ecossistema da música periférica do Brasil?


Devastador. São artistas que vivem de show, tem uma instabilidade e vulnerabilidade financeira enorme e viram sua principal fonte de renda ser cortada. São poucos os que conseguem apoio financeiro para fazer lives, e mesmo assim elas não abarcam todo a economia criativa da música periférica — que inclui não apenas o cantor, DJ e músicos mas também dançarinos, técnicos de som, roadies, casas de shows, trabalhadores da casa de show e por aí vai. Fizemos um episódio do Podcast Embrazado sobre isso. Tem muita gente recorrendo a bicos ou voltando aos seus empregos "comuns", trabalhando de ajudante de pedreiro ou cabeleireiro, por exemplo. Apesar de sua lentidão frente a um problema que é imediato, a Lei Aldir Blanc é uma conquista da classe artística. Mas precisa haver uma iniciativa para expandir os seus benefícios aos produtores culturais da favela. Os editais culturais que estão por vir podem se tornar instrumentos elitistas se não houver um trabalho de divulgação destes nas regiões mais pobres. É preciso pensar em formas de oferecer melhorias na capacitação e formação dos produtores culturais das favelas para que eles também possam desfrutar dessas possibilidades.

 

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Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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