CAT VIDS: ENTRE ROCKS, AMIGOS E MEMES

28/09/2020

Banda lança primeiro disco, "Radicalíssimo", com faixas apenas em português

 

 

Depois de produzir uma série no YouTube mostrando como gravar um álbum de sucesso (este é exatamente o nome da série), o Cat Vids lança seu primeiro disco, “Radicalíssimo”, que chega com rocks divertidos, dançantes, que soam como trilha de memes e trazem muito da relação do vocalista e guitarrista Pedro Spadoni com os amigos.

 

A série -- gravada no ano passado e lançada na quarentena -- serviu como esquenta para o álbum, que chega três anos depois do EP de estreia, “Radical”. A cada episódio a banda ia divulgando uma música nova e, neste mês, Pedro, Paulo Senoni (guitarra), Aecio de Souza (bateria) e Tiago França (baixo) lançaram o disco com nove faixas.

 

Entre as novidades estão as composições em português, na sua maioria, o que “dá mais personalidade para o projeto como um todo”, comenta Pedro. Todo o EP anterior foi cantado em inglês.

 

"A transição pro português acabou sendo uma mudança radical, pois obriga a gente a se desgarrar de vez das referências gringas, e não existe necessariamente uma banda com essa sonoridade em português, né, então teve muita exploração. Ou seja, corremos um risco fazendo isso, e correr riscos é radical”, conta Pedro em entrevista ao Azoofa.

 

 

Ele conta que no início foi estranho cantar em português. “Muda tudo, pois cada língua tem a sua sonoridade intrínseca, e eu acho o português bem menos melódico que o inglês, pois tem palavras mais longas, com mais consoantes e menos links. Eu tive que dar uma estudada mesmo pra fazer essa transição, entendendo como deveria empostar a voz, e que tipos de palavras e expressões eu poderia utilizar pra manter a mesma sonoridade do inglês. Depois que você encontra seu jeito, fica mais natural, mas é um processo de desenvolver uma maneira diferente de interpretar. Tem umas coisas que eu faço tipo cortar as palavras no meio, quebrar elas em frases diferentes, que foram maneiras de manter essa estética que eu queria. No fim das contas, eu coloco a estética/sonoridade em primeiro lugar, porque a mensagem da música pode ser contada através de diferentes formulações de frases ou retratos de situações. Não ligo muito pra letra em si, mas pra vibe que ela ta transmitindo, sabe? É um jeito meio fotográfico de compor”, comenta ele.

 

Outra mudança foi uma produção mais coletiva do disco, já que a Cat Vids aparecia como um projeto solo no EP. “A composição em si eu ainda acabo fazendo, mas imediatamente levando pra que a gente monte todo o arranjo juntos. Acho que esse processo se tornou natural pelo fato de que nunca houve um momento separado pra composição do disco, já que a gente já ia montando as músicas e adicionando elas aos shows logo que estivessem prontas. A gente já tocava esse disco ao vivo praticamente inteiro, antes de gravar, porque não dava pra fazer show só com as músicas do EP, que além de serem poucas são bem curtinhas”.

 

Nas novas composições, a escolhida como primeiro single foi “Dress Code”, que traz alguns versos em inglês, exceção no trabalho. "Cingarro" foi a primeira faixa composta em português. "Basicamente porque eu tinha passado por uma frustração (risos) e queria escrever em português pra que ficasse bem claro que eu estava muito triste com a situação", conta Pedro.

 

Nos temas, "Mayday", que abre o disco, fala sobre relacionamentos que começa no virtual e o medo de levá-lo para a vida real, uma crítica suave ao incentivo do consumo de álcool em "Bebe Demais", a preguiça em sair de casa estimulados pelos realities shows em “TV Show”, mas boa parte das letras fala de situações de Pedro vivenciadas com os amigos, fazendo do disco quase um diário afetivo do artista.

 

 

 O vocalista e guitarrista Pedro, do Cat Vids

 

 

"A letra foi inspirada em situações que passei com o Tiago, baixista. Quando canto ‘olha o meu amigo, tá todo esburacado, o seu tênis tá furado (...)’, é dele que eu falo. Trabalhávamos juntos e, mesmo em reuniões, ele sempre estava com uma camiseta furada, pois nunca ligou muito para isso. Como não sou muito diferente, já passei por momentos do mais puro desleixo também, e a letra de ‘Dress Code’, apesar de fictícia, resume essa nossa incapacidade de sermos muito formais".

 

Em outras duas faixas, ele recrutou os amigos Bruna (Brvnks) e Chrysley. Ela canta em "Ash Ketchum", inspirada na história de uma amiga de Pedro cujo namorado enchia o saco pra ela jogar os mesmos jogos que ele, mas era super competitivo não deixando ela se divertir, e Chrysley em “Calabokitos”, faixa que faz uma transição para o final mais lo-fi do disco.

 

"A gente é amigo faz um bom tempo, tanto que dividimos apartamento desde que ela veio pra São Paulo. Ou seja, né, estamos sempre falando de tudo, compartilhando ideias, então foi inevitável que eu não falasse com ela quando pensei em colocar algum feat no disco, até pela proximidade de som também", diz Pedro sobre Bruna. "E eu queria botar o Chrisley no disco porque ele é muito engraçado e querido", diz o músico.

 

 

 A banda Cat Vids

 

 

"Radicalíssimo" foi gravado no Estúdio Aurora em São Paulo num período de oito dias. Uma figura que ganhou peso ao longo da gravação foi a técnica de som Alejandra Luciani, que acabou coproduzindo o disco com a banda.  

 

"Pra mim ela já era uma das melhores técnicas de áudio que eu conhecia, mas realmente essa sinergia foi uma surpresa pra todos e viramos grandes amigos! Foi super divertido e prazeroso ter ela no processo, até pra ajudar a botar ordem na casa. A gente é meio caótico, aquilo que representamos na série é bem baseado na realidade (rs), e a Alê acabou ajudando a gente demais a viabilizar ideias, a chegar em timbres, adicionar detalhes nos arranjos. Ela até fez uns backing vocals em ‘Dress Code’ e ‘Bebe Demais’”, conta Pedro.

 

Agora, a pergunta que não quer calar: depois de tantos tutoriais no YouTube, “Radicalíssimo” tem todos os ingredientes para ser um disco de sucesso? “Acho que ainda faltam as duas coisas principais pra um disco de sucesso, que é uma foto boa e uma briga com outra banda, mas assim que passar a quarentena vou tentar providenciar isso”.

 

 

Quem escreveu
Andréia Martins

É jornalista, trabalhou com edição e reportagem nos portais Vírgula, Globo.com e UOL cobrindo música, política e internacional. Hoje segue na redação e também é editora do Roteiros Literários, sobre literatura e viagem.

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