Fabio Pinczowski - Habilidades do Deserto

30/10/2020

Fabio Pinczowski estreia em disco com viagem afetiva e irrestrita

Foto: Vitor Bossa

 

 

O nome de Fabio Pinczowski aparece em diversos encartes de discos, mas nunca na capa. Essa frase passa a não valer mais a partir desta sexta, 30, quando o produtor, músico e compositor paulistano lança Habilidades do Deserto, seu primeiro álbum solo, com sete canções de sua autoria.


Seja como produtor, instrumentista ou apenas recebendo os artistas em seu Estúdio 12 Dólares, Fabio tem uma longa lista de serviços prestados à música brasileira. Sua colaboração está espalhada nos discos de nomes como Ceumar, Lucas Santtana, Siba, Roberta Campos, Marcelo Camelo, Filipe Catto, André Whoong, Garotas Suecas, Leo Cavalcanti, Vanguart, Miranda Kassin, André Frateschi, Seychelles, Ludov, Aldo the Band e Mamma Cadela - esta última, a banda instrumental em que ele tocava teclados e samplers e com quem lançou três discos entre 2006 e 2013. Ele também é criador, em parceria com Alessandra Dorgan, do programa de música "Clubversão", transmitido pela HBO Brasil. 


Em Habilidades do Deserto, Fabio também escolhe o caminho instrumental para se expressar. Muita coisa é tocada e gravada por ele mesmo (guitarra, violão, baixo, omnichord, piano, vozes) e há participações pontuais dos músicos Lenis Rino, Vitor Cabral, Bruno Buarque, Marcelo Freitas, Lucas Vasconcellos, Dustan Gallas, Ladislau Kardos, Nina Fernandes e Bruno Silveira. 

 


O disco é permeado por uma atmosfera íntima - as fotos que ilustram a capa do disco e dos singles foram retiradas de um álbum de viagem familiar, de onde também saiu o título do trabalho. É, ao mesmo, um registro de força universal, porque cada canção funciona de maneira autônoma, como um seriado cujos capítulos podem ser degustados sozinhos, sem prejuízo ao ouvinte.


Conversei com Fabio sobre o lançamento e outros temas mais: 


Eduardo Lemos: Há quanto tempo você guardava a idéia de fazer um disco? Como foi esse processo? E porque lançá-lo agora?


Fabio Pinczowski: Já faz uns 6 ou 7 anos que eu tava decidido a parar um pouco a produção dos discos e me dedicar a gravar composições próprias. O problema era que sempre que eu me planejava pra começar a gravar, apareciam os discos pra produzir, e aí eu acabava adiando. Há uns 3 anos eu resolvi me trancar no estúdio num carnaval pra dar uma iniciada no processo. Eu sempre compus muito, desde o Mamma Cadela minha banda instrumental, até com artistas que eu estava produzindo. Todas as músicas foram feitas nos dias das sessões, dos dias em que eu estava sozinho às sessões com alguns músicos. Quando começou a pandemia o disco já estava todo gravado, eu só resolvi editar e mixar o disco.

 

 

 

Qual é a história da capa do disco e o que são as tais habilidades do deserto? 

 

A capa e todas as fotos que acompanham as canções na divulgação fazem parte dos slides que meu pai tirou na lua de mel com a minha mãe no Marrocos em 1977. Eu sempre fui fascinado por essa sessão de cromos, a gente costumava montar o projetor na sala pra ver fotos antigas e sempre que apareciam essas eu gostava mais. Quando comecei a pensar na parte gráfica, eu de cara lembrei dessas fotos e aí fui atrás pra digitalizar tudo e fiz o design junto com a Alessandra Dorgan. O título apareceu durante esse processo da arte do disco, assim que fechamos as 7 músicas.

 

Todas as canções são instrumentais. Como você chegou nesse conceito pro disco? 

 

Habilidades do Deserto é tipo um filme composto por essas 7 músicas. Ao invés da trilha ser composta a partir das imagens do filme, é um filme que aparece na sua cabeça ao ouvir essas 7 músicas. A música instrumental traz essa narrativa através das melodias e dos climas. A gente cria as músicas e depois vai atrás do personagem que apareceu dentro delas. Às vezes o nome é do personagem e às vezes do cenário que eu imagino em que a canção se propaga.

 

As propostas estéticas de cada faixa são muito bem definidas, o que faz com que cada música seja um tíquete pra um destino diferente. Ao mesmo tempo, vi diálogo entre elas, seja pelas texturas sonoras, seja pelo desenho das composições. Como foi a construção deste repertório e como você enxerga a relação entre as canções? 

 

Algumas canções eu criei no piano e aí gravei alguns overdubs em cima pra fechar o arranjo. Aí fiz algumas sessões com bateristas e percussionistas pra completar a instrumentação. Aí, tiveram 3 sessões (Lição Marítima, Terra Vermelha e Mantra da Recuperação) em que eu montei um setup já escolhendo alguns teclados pra mim, chamei os bateristas e compusemos a música na hora. Por termos essa conexão da amizade e da referência musical, eu acho o clima ideal pra compor na hora e já registrar. Depois disso eu sempre fazia alguma sessão pra editar e terminar a música. Quando eu terminei de gravar eu tinha umas 12 músicas e aí entrei no processo de pensar no recorte do disco, em como eu queria contar uma história...é como um filme mesmo. Você filma 60 horas pra usar 1 hora e meia. 

 

Você acha que a apreciação de música instrumental pede uma dedicação maior do ouvinte? 

 

Eu acho que é diferente da música cantada. Se por um lado você às vezes precisa estar mais atento pra se prender a canção, por outro lado ela pode te fisgar pela despretensão. Claro que eu queria que todo mundo escutasse o disco numa viagem de carro ou na varanda de um sítio depois de tomar um vinho ou fumar um baseado....mas aí já é pedir demais, rs.

 

Foto: Caroline Bittencourt 

 

 

E por falar em atenção: você é produtor, dono de estúdio e acompanha diversos artistas nos palcos. E agora está lançando seu próprio disco. Levando em conta essa multiplicidade de olhares que suas diferentes funções te possibilitam, como você vê o consumo de música atualmente? Fala-se muito da desatenção das pessoas para a escuta pura e simples, da necessidade do som vir embalado com imagens para captar a atenção… Como você vê isso? 

 

Muita música sendo lançada a toda hora, muita coisa boa e muita coisa meio plastificada. Acho que a oferta tá gigantesca, então tem que estar disposto a escolher o que você vai ouvir, senão fica um pouco escravo do algoritmo. Talvez ele seja o mini vilão dessa geração, alguém que fica no seu ombro dando uma empurrada seja no seu dedo na tela do celular ou no mouse do computador....mas realmente pra brigar com tanta concorrência a turma acaba tendo que agregar mais "valor ao produto" pra dar essa despontada. Mas acho que nunca produzimos tanto e acho foda que a galera faça cada disco lindo dentro dos seus quartos, acho que dar essa ferramenta pra mentes criativas é a melhor parte desse cenário atual. 

 


***

 

Fabio Pinczowski - Habilidades do Deserto

PRODUZIDO, GRAVADO E MIXADO POR FABIO PINCZOWSKI NO 12 DÓLARES.

MASTERIZADO POR FELIPE TICHAUER.

GRAVAÇÕES ADICIONAIS: VITOR CABRAL, MARCELO FREITAS, BRUNO SILVEIRA E VICTOR NERY.

DIREÇÃO DE ARTE: ALESSANDRA DORGAN E FABIO PINCZOWSKI.

FOTOS POR FERNANDO PINCZOWSKI, ALESSANDRA DORGAN E FABIO PINCZOWSKI.

 

  1.     O Homem Árvore

Fabio Pinczowski: teclados, violão e baixo

Vitor Cabral: baterias

 

  1.     Couro das Almas

Fabio Pinczowski: teclados e guitarra

Lenis Rino: congas, ilú e surdo

Bruno Buarque: congas, ilú e agogô

Marcelo Freitas: saxofones e clarinete

 

  1.     Lição Marítima #09

Fabio Pinczowski: teclados, violão, omnichord e baixo

Lucas Vasconcellos: samplers

Dustan Gallas: mellotron

Lenis Rino: pífanos e shaker

Bruno Buarque: pífanos e bongô

Ladislau Kardos: bateria

 

  1.     Rios Flutuantes

Fabio Pinczowski: voz, piano, violão, teclados e baixo

Nina Fernandes: voz

Bruno Silveira: bateria

 

  1.     Salões de Ópio

Fabio Pinczowski: piano, violão, teclado e baixo

Lucas Vasconcellos: loopstation

Bruno Buarque: bateria

 

  1.     Terra Vermelha

Fabio Pinczowski: teclados, violão e baixo

Lenis Rino: bateria

 

  1.     Mantra de Recuperação

Fabio Pinczowski: teclados

Lenis Rino: bateria

 

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

Outras matérias e entrevistas