JÁ OUVIU? EP BAD VIBES DE CASAL

03/11/2020

Duo A Transe canta sobre as angústias da vida a dois em pleno isolamento

 

 

 

A vibe virou, 2020 bugou e fugiu de todos os roteiros possíveis. Não foi diferente com o duo capixaba A Transe, formado pelo casal Francesca Pera e Fernando Zorzal. Depois do EP tropical “Hora Dourada”, lançado no final de 2019, o duo soltou duas faixas em meio à quarentena. No EP “Bad Vibes de Casal”,eles falam das questões que esse período de isolamento provocou neles enquanto indivíduos e a dois.


"Se no primeiro lançamento tínhamos ido até o útero para criar nossas elaborações de nascimento e morte, Bad Vibes se instaurou em outra nave, em nossa casa, em nossa convivência. Esse supletivo de convivência e o mundo apocalíptico que vivemos trouxeram à tona egoísmos, comportamentos tóxicos, verdades e mentiras. As músicas surgiram em um momento onde vimos que nossa parceria afetiva poderia acabar - o EP veio como uma maneira de materializar toda essa bad das relações e descarregar ela nas músicas", diz a dupla na apresentação do projeto.

 

No meio das DRs de uma crise amorosa, o caminho que a dupla buscou foi o de tentar se enxergar de uma maneira saudável. Um olhar mútuo que permitisse que estivessem juntos de um jeito bom. E o resultado são as faixas “Pra Te Ver” e “Domingo”, que vieram acompanhadas de um vídeo-arte que explora esse turbilhão de sentimentos a que ficamos – e ainda estamos – sujeitos no atual contexto.

 

“Gravamos em casa, assumimos juntos a produção musical, piramos juntos e separados em tutoriais, passamos aqueles perrengues com equipamentos antigos e tivemos a colaboração a distância de pessoas queridas”, conta o duo ao Azoofa.

 

Fernando puxa "Pra Te Ver", uma faixa reflexiva, enquanto Francesca canta em "Domingo", uma canção onde as divergências e conflitos estão mais expostos ao mesmo tempo em que se tenta reencontrar o amor.

 

Para o projeto, a Transe teve apoio de parceiros como Henrique Cesar (identidade visual e fotos), Dan Abranches (coprodução musical em “Pra Te Ver’), Alexandre Barcelos (mixagem) e Igor Comério (masterização). Ainda este ano, a dupla também estará nos showcases oficiais da SIM São Paulo 2020, que acontece de 3 de novembro a 6 de dezembro.

 

Eles contaram mais sobre a produção do EP em um bate-papo com o Azoofa. Leia abaixo:

 

 

 

Queria que vocês contassem um pouco de como começou esse ano pra vocês, quais eram os planos musicais – o disco "Hora Dourada" tinha saído no final de 2019, ainda estavam trabalhando nele, como estava?

 

Estávamos super empolgados fazendo shows e planejando circular pelo interior do Espírito Santo e por algumas cidades do Brasil para divulgação do “Hora Dourada”. Tínhamos projetos em editais, convites de festivais e, além disso, sempre compondo. E com o bug 2020 rolou a clássica interrupção de sonhos e projetos.

 

 

Do clima do "Hora Dourada" para o EP “Bad Vibes de Casal” é uma virada 180 no mood, e já somos avisados no título. Era importante pra vocês compartilhar com o público esse momento tão pessoal? Como cantar sobre isso ajudou vocês também?

 

O mood mudou, o mundo mudou e tantas camadas de compreensões sendo reveladas sobre relações afetivas e sociais que não tem como passar por isso sem se sensibilizar e tentar se reconhecer como uma pessoa que pode ser um opressor também. As composições surgiram num momento de crise bem intensa. E aí fomos percebendo também que não era só com a gente, alguns casais íntimos outros tantos conhecidos que passaram por tretas pesadas ou separações. BVDC foi se delineando quando a gente ia se aproximando das pessoas, e se identificando, vendo na gente coisas parecidas. Aí começamos a entender que tem a nossa história e expurgação alí, mas que o EP também estava sendo diretamente influenciado por processos de pessoas que estavam perto da gente e que poderia ser importante mostrar ao público essas questões, porque outras pessoas também poderiam estar passando algo semelhante.


 

Me contem sobre as faixas: como elas nasceram e se vocês gravaram tudo de uma vez? São composições de vocês dois, como foi?

 

“Domingo” era uma música que estava iniciada e só tinha o refrão, e depois de um domingo muito ruim que tivemos, terminamos numa espécie de DR e reconciliação. “Pra Te Ver” foi num momento menos dramático, começou também já há um tempo com Fernando brincando no ukulelê, com essa frase “é um longo olhar, quando eu paro, pra te ver”, em outro momento, os dois foram cantando e improvisando na música, criando numa dinâmica de perguntas e respostas.

 

 

Vocês optaram por lançar um videoarte, poderiam ter lançado um vídeo pra cada canção. O que estavam pensando com esse vídeo, qual era a ideia?

 

A ideia era passar uma experiência visual-sonora para as pessoas, onde as imagens e os sons se unem por elementos. A escolha da água como elemento condutor e a alternância entre noite e dia para “Pra Te Ver” e “Domingo” foram narrativas criadas para mergulhar em cada canção. A ideia não era ser um videoclipe, mas sim um vídeo que estivesse mostrando o EP e a ligação direta entre as músicas.

 

 

Vocês lembram quando caiu a ficha de que passaríamos um tempo distante uns dos outros, sem shows, sem o público ali perto, sem encontros. O isolamento afetou a rotina de vocês comporem, a criatividade?

 

Caiu a ficha pra gente no nosso último show antes do isolamento, que fizemos em Vitória na Guava. Já tinha aquela sensação de que a realidade estava mudando na nossa frente e que tudo aquilo seria impossível durante um tempo. Só não sabíamos que seria esse tempo sem fim, com tantas incertezas e o governo ainda conseguindo sempre surpreender as piores das nossas expectativas. Passamos por muitas fases, mas em geral criamos e estudamos. Temos uma filha de 5 anos. Dormimos muito pouco pra poder criar, produzir e estudar. Isso às vezes nos prejudicava enquanto esse coletivo família, mas era o melhor que poderíamos fazer com o que tínhamos.

 

 

E como vocês estão pensando os próximos passos? Já dá para ter algum plano para 2021, pensar em novas faixas?

 

Nós fomos selecionados para a programação de showcases da SIM São Paulo. Agora nós estamos bem envolvidos na criação e preparação desse show, estamos fazendo com muito carinho e com uma equipe do coração, Luara Zucolotto na direção de arte, Jackson PInheiro na gravação e mix, Francisco Neto no vídeo, Vitor Lorenção na iluminação. Estamos com planos para três singles em 2021, que já estão em fase de produção, que serão parcerias com outros artistas.

 

 

Quem escreveu
Andréia Martins

É jornalista, trabalhou com edição e reportagem nos portais Vírgula, Globo.com e UOL cobrindo música, política e internacional. Hoje segue na redação e também é editora do Roteiros Literários, sobre literatura e viagem.

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