INTEIRO METADE

05/11/2020

Depois de dois EPs e singles, Tagua Tagua lança disco cheio costurando emoções

 

Tagua Tagua por Guillermo Calvin

 

 

Depois dos EPs "Tombamento Inevitável" (2017) e "Pedaço Vivo" (2018) e alguns singles, Felipe Puperi, músico e produtor à frente do Tagua Tagua, lança o primeiro disco cheio do projeto solo que ele começou lá em 2016. "Inteiro Metade", que sai pela Natura Musical, é um disco sobre ressignificar sentimentos.

 

São nove músicas compostas em 2019 – com exceção da faixa “2016” – e que falam sobre mudanças, saudade, aceitação, recomeço, tudo isso costurado em camadas musicais que vão mudando de acordo com o sentimento que a música propõe. Um passo que dá uma identidade mais completa do projeto de Puperi. O disco é leve, contagiante. Quando vê, você sacudiu e passou por um carrossel de sensações. E sobreviveu.

 

Tudo isso reforçado pelos vídeos que acompanham as músicas de trabalho. A estética visual vai desenrolando as emoções de cada faixa. “É retrô e futurista, algo como olhar pra trás, se perceber no agora pra mirar o futuro”, comenta o músico.

 

 

AS NOVE FAIXAS

 

"Mesmo Lugar" abre o disco com um verso bem adequado para o contexto de hoje, e que, de certa forma, apresenta um pouco o tema do disco: Andam dizendo que o agora é tão diferente e a vida vai passando pela frente. Foi a primeira composição quando ele pensou em fazer um disco cheio. Na sequência vem "Só Pra Ver", primeiro single do disco. A música trata com irreverência, tanto no arranjo quanto na letra, as dificuldades de se desvencilhar da outra pessoa.

 

 

 

 

"4am", sobre uma paixão intensa, vai por um caminho mais introspectivo com beats eletrônicos, enquanto "2016" é uma balada que fala da "melancolia e tristeza na aceitação de ressignificar a outra pessoa". "Bolha" já era tocada ao vivo e nela Puperi faz uma autoanálise. "Até Cair" quase não tem guitarra, é toda baseada em sintetizadores e no beat. E vem seguida de "Inteiro Metade", faixa que leva o nome do disco.

 

"Essa música representa bem o sentimento do álbum todo. Como o disco é quase uma linha do tempo dos momentos e reflexões desse processo, ela acaba sendo o ponto de intersecção entre a linha da saudade (na melancolia da letra) e a linha da aceitação (no arranjo fluido, leve, que indica o progresso). A música, de certa forma, exalta que não tem como passar por isso sem ser inteiro num dia e metade no outro", reflete.

 

 

 

 

Encerram o disco "Sopro" e "Do Mundo". “Sopro” é mesmo um fragmento, uma vinheta na reta final. Puperi diz que ela é “uma preparação para o novo que está por vir, é a aceitação, é a vontade, é tudo que eu nunca tinha feito antes nesse projeto também”.

 

Além do lançamento no Brasil, Tagua Tagua está apostando em diferentes territórios: o disco sai também na Europa e nos Estados Unidos. Na entrevista abaixo ele fala mais sobre o disco, de como a quarentena impactou sua rotina, dos planos para 2021 e da relação com países lá fora.


 

 

Queria que você contasse um pouco sobre o tema do álbum e se as canções são composições de agora ou uma mescla?

 

O disco fala basicamente de ressignificação de relações, das dificuldades e emoções que permeiam esse processo. Com exceção da música 2016 - que foi de fato gravada em 2016 - o disco foi todo composto no ano de 2019. 

 

 

Existe um momento certo pra lançar um disco cheio? Digo, você vinha lançando EPs no projeto até então e podia ter seguido o caminho... São as canções que definem o formato ou rumo que o trabalho vai levar ou já era hora de lançar um disco?

 

Acho que era a hora sim de fazer algum trabalho maior, com mais facetas, um conceito mais definido, início, meio e fim. Eu já tinha lançado dois EP's e 3 singles, então senti essa necessidade de apresentar uma obra mais abrangente. Talvez nos EPs as músicas ajudavam a definir o caminho, já no álbum eu já sabia antes o que queria fazer.

 

 

Como foi lançar esse trabalho durante esse período de pandemia? Sua rotina de criação foi muito impactada?

 

Foram muitas mudanças, inclusive de data do lançamento do disco. Ele seria lançado em abril de 2020, ou seja, adiamos 6 meses esse lançamento, cancelamos vários shows que já estavam marcados e que seguem sem previsão. É estranho jogar um álbum no mundo e não poder sair pra tocar, trocar com as pessoas nas suas cidades, perceber como as músicas reverberam. Espero que em breve a gente saia dessa situação e que isso tudo seja possível.

 

 

No início da pandemia eu fiquei bem produtivo, fiz várias músicas novas. Depois foi ficando mais difícil lidar com a falta de perspectivas e com todas essas privações que nos cercam, isso me desconcentrou um tanto. Nesse momento atual me enxergo um pouco adaptado, tenho conseguido criar, gravar e produzir. Ter lançado o álbum também exigiu bastante de mim, tem me feito criar alternativas, pensar em novas soluções.

 

 

 

 

 

 

A faixa que abre o disco, “Mesmo Lugar”, tem um verso que curiosamente cabe como luva pra esse momento: “Andam dizendo que o agora é tão diferente e a vida vai passando pela frente”. Está sendo um período de ressignificação, acho. No meio da música, entre colegas músicos, como você tem visto as pessoas passarem por isso?

 

Percebo que todos estamos no mesmo barco, artistas super underground, midstream e até mainstream passando pelos mesmos apertos. Os shows são o combustível de todo músico, é muito frustrante não poder tocar em público, vi muita gente tentando manter o foco e pensar em novas saídas pra conter suas angústias. Foi tudo muito rápido também, não deu tempo de ninguém se preparar minimamente, quando vimos estávamos com todas essas privações. Acho que o pessoal tem sim pensado mais coletivamente em se apoiar, se ajudar.

 

 

Quem acompanha seu trabalho solo nota também uma mudança na estética visual de “Inteiro Metade”. Há mais cores, não sei se numa relação com você explorando mais sonoridades e sentimentos... você que me diz, como pensou essa relação do visual com a música e quem trabalhou nessa ideia com você (a capa está linda!)?

 

Obrigado. Quem fez toda a arte foi João Lauro Fonte. Ele é meu amigo pessoal e quando pensei nas ideias do disco e nas músicas sabia que queria ele assinando a capa. O disco escorre pra vários tipos de emoção, desde alegria e euforia até introspecção, tristeza, luto e saudade. Queríamos que a arte acompanhasse esse carrossel, por isso ela tem cores vibrante ao mesmo tempo que tem cores sóbrias, é retrô e futurista, algo como olhar pra trás, se perceber no agora pra mirar o futuro. 

 

 

 

 

 

 

Uma curiosidade: de onde vem o nome Tagua Tagua?

 

Tagua Tagua é o nome de um lago no interior do Chile. Passei uns dias nesse lugar em 2016, quando tive a certeza de que queria tocar esse projeto pra frente. Quis levar um pouco daquela vibração positiva comigo.

 

 

Quando você começou o projeto, lá em 2017, ele era uma opção para criar outras coisas fora da banda ou você já pensava em uma carreira solo mais consolidada, em explorar mais sonoridades e parcerias?

 

Eu sempre pensei que seria o projeto da minha vida, até porque Tagua Tagua é basicamente uma extensão de mim, de como sinto e percebo o mundo. Quero andar por muitos caminhos ainda e descobrir cada vez mais novos universos de possibilidades. O disco “Inteiro Metade” é só o começo da jornada.

 

 

E conta um pouco do lançamento do disco em Portugal e nos EUA também. Aliás, nos últimos dois anos conversei com muitos artistas que tiveram Portugal como destino por algum tempo, seja pra criar algum projeto, dar um tempo daqui... ao mesmo tempo que reconheciam que viver de arte lá e a abertura não são tão fáceis. O que você acha que tem atraído artistas a irem pra lá ou tentarem estabelecer uma ponte maior com o país?

 

EUA é um mercado muito grande e bem receptivo a coisas diferentes. Tem sido legal essa experiência, fizemos shows lá ano passado que foram ótimos e agora as músicas estão rodando em algumas rádios também. Em Portugal a relação é diferente, pois a língua é um ponto de conexão direto com o público. Isso automaticamente muda o entendimento e receptividade da galera em relação ao trabalho. Tem muito interesse lá pela música brasileira, é um país com oportunidades e muita música nova legal. Vejo muitas possibilidades de trocas ricas entre esses dois países. 

 

 

Já está pensando em algo para 2021, alguma novidade que possa contar sua ou de parcerias, como está em termos de projetos?

 

O plano pra 2021 é circular tanto pelo Brasil quanto pela Europa e EUA, apresentando esse disco. Já tem planos de turnês e também alguns festivais. Tomara que tudo dê certo e isso seja possível.

 

 

Quem escreveu
Andréia Martins

É jornalista, trabalhou com edição e reportagem nos portais Vírgula, Globo.com e UOL cobrindo música, política e internacional. Hoje segue na redação e também é editora do Roteiros Literários, sobre literatura e viagem.

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