TOCAR EM FLORES PELADO

01/12/2020

Gabrre lança seu primeiro disco solo -- e cabe a você entender o que o nome quer dizer

Gabrre, em seu quarto em Gramado (foto: Samyra Locatelli)

 

 

"Uma breve narração dos meus anos como jovem no extremo sul do país. Noites de festas em casas aleatórias, passeios diurnos em todos os lagos possíveis, amor e carinho pelos meus animais, amigos e família e lamentos otimistas são alguns dos temas".

 

É assim que o gaúcho Gabrre, de 22 anos resume um pouco do que vamos ouvir em “tocar em flores pelado” (assim, sem letras maiúsculas mesmo), trabalho solo que ele lançou em outubro pelo selo Honey Bomb Records.

 

Todo gravado em seu quarto, em Gramado, na Serra Gaúcha, o disco traz canções sobre expectativas, otimismo com o que ainda vem, pelo que permanece, as frutrações com relacionamentos, o tédio, saudade, os altos e baixos da adolescência e início da fase adulta, um período de muita intensidade, onde tudo parece ser 8 ou 80.

 

"Mesmo ainda sendo jovem, já sinto uma nostalgia imensa quando penso em 4, 5, 6 anos atrás, nessa coisa toda de adolescente descobrindo o mundo, o clichezão Skins de TV. Mas vejo também que a minha vida não mudou muito nesse sentido, continuo fazendo as mesmas coisas”, conta ele em entrevista ao Azoofa.

 

O ar puro, clima bucólico, temperaturas amenas e a verdejante serra servem como cenário ideal para o som produzido por Gabrre, que une violões, pianos e synths, tudo embalado com muito echo e reverb, no melhor estilo dream pop.

 

Gabrre já é figura conhecida na cena gaúcha há alguns anos. Aos 16, lançou seu primeiro EP como baterista no grupo Urso Polar, um ato extinto de indie rock autodepreciativo da serra gaúcha (Canela e Gramado).  Já em novembro de 2019, estreou como artista solo com seu primeiro single “...e parabéns”, selecionado pela Natura Musical e Honey Bomb Records para a coletânea “Sons que Vem da Serra”. Agora, chega ao disco solo.  

 

Ele conta mais sobre esse primeiro trabalho na entrevista abaixo.

 

 

 

Me conta um pouco sobre essas canções: são recentes ou letras que você vem reunindo já algum tempo?

 

Ambos. O período de construção do disco foi de um ano, um ano e meio, aproximadamente. Talvez dois, não tenho certeza. Algumas das músicas, como “verão de novo” e “gemütlichkeit” são de 2018.  “no meu quarto” já é mais recente, entrando depois que o disco já estava finalizado.

 

 

Você assina também a produção do disco... era um disco muito íntimo, muito seu pra dividir o rumo com outras pessoas, já tinha uma ideia do que queria dele?

 

Eu estava trabalhando em um disco antes desse, completamente diferente, sonicamente. Acabei deixando o projeto de lado por não conseguir chegar onde queria. Enquanto trabalhava nas misturas desse primeiro, experimentava coisas novas que viriam a dar forma para essas canções. Depois de um tempo percebi que já havia bastante material novo e com uma cara parecida, uniforme. Então trabalhei nas canções que mais gostava e tentei formatá-lo como uma obra coesa, com início, meio e fim, dentro de um mesmo universo.

 

 

 

 

O disco foi bem no esquema do it yourself. Como foi a rotina de gravação em casa? Existia uma rotina, um padrão para gravação?

 

Ele foi gravado durante períodos diferentes da minha vida, uma parte significativa da mistura foi feita na quarentena, por exemplo. Infelizmente, eu sou bastante preguiçoso para manter uma rotina de gravação, então sempre gravava quando dava na telha, quando estava feliz. Sempre que preparava algum drink em casa visitava o projeto e pensava “hoje eu tô afim de gravar algo nessa música”, coisas assim. O único padrão foi sempre gravar a tarde.

 

 

Você era baterista da Urso Polar, também do sul. Hoje você se vê apenas como artista solo ou ainda pensa em integrar uma banda?

 

Difícil dizer. Gosto muito de tocar com outras pessoas, da troca de informações no palco e na hora de criar, etc. Mas, nesse projeto, gosto de ter controle sobre as direções que ele vai tomar e a performance ao vivo. Só deus sabe.

 

 

Você comenta que o disco é "uma breve narração dos meus anos como jovem no extremo sul do país. Noites de festas em casas aleatórias, passeios diurnos em todos os lagos possíveis, amor e carinho pelos meus animais, amigos e família e lamentos otimistas são alguns dos temas da obra". Mas fato é que você é muito jovem (rs). O que há de tão impactante nesses pré-pós 20 e poucos que mexe tanto com a gente?

 

Absolutamente nada! E é isso que me chama bastante atenção. Mesmo ainda sendo jovem, já sinto uma nostalgia imensa quando penso em 4, 5, 6 anos atrás, nessa coisa toda de adolescente descobrindo o mundo, o clichezão skins de TV. Mas vejo também que a minha vida não mudou muito nesse sentido, continuo fazendo as mesmas coisas, mas com um olhar no futuro, como jovem adulto. A única coisa que sinto falta é de ter a jovialidade pra poder fazer besteira.


 

 

 

Ouvindo o disco fui levada para uma série de referências, mas quais são as suas principais influências? Pra esse disco, inclusive, algo te inspirou mais a entrar na sonoridade, na vibe do disco, como foi?

 

Essa é uma ótima pergunta que eu não tenho boas respostas. Sempre que penso nisso surgem inúmeras coisas na minha cabeça, mas nada exato. Digo, eu não consigo pensar em nada que eu tenha dito: esse som é interessante e quero ir por esse caminho. Eu estava ouvindo bastante Brian Eno e Death Cab for Cutie nessa época, mas, como disse, foi um período longo de criação, então muita coisa acabou entrando. 

 

 

E qual a ideia por trás do nome do disco? 

 

Um dia, aleatoriamente, me ocorreu o pensamento de que seria interessante tocar em flores pelado. Dá pra fazer um bocado de analogias e tentar ressignificar isso, ligar ao som. Aí é com o espectador.

 

Quem escreveu
Andréia Martins

É jornalista, trabalhou com edição e reportagem nos portais Vírgula, Globo.com e UOL cobrindo música, política e internacional. Hoje segue na redação e também é editora do Roteiros Literários, sobre literatura e viagem.

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