Primeiro disco de Tomás Cunha Ferreira é uma viagem

17/12/2020

Com produção de Pedro Sá, multiartista português lança 'Vai Começar'

fotos: Daryan Dornelles

 

 

Portugal, Brasil, Lisboa, Rio, artista solo, artista coletivo, pinturas, sons, vivências de menino que desaguam no trabalho da vida adulta. ‘Vai Começar', a estreia fonográfica de Tomás Cunha Ferreira, é uma viagem - ou, como escreve Arnaldo Antunes no release, "mesmo que não estejamos no interior de um carro ou trem a contemplar a paisagem travelling na janela é como nos sentimos quando escutamos o álbum". 

 

O multiartista português chegou ao Brasil com seus pais quando tinha apenas um ano e por aqui ficou, entre o Rio de Janeiro, São Paulo e algumas férias em Itajubá, MG, até os treze anos de idade. Voltou para sua cidade natal, Lisboa, levando consigo os primeiros passos, palavras, experiências, o seu olhar para fora da janela para descobrir o mundo. Tomás conta que este disco é um acerto de contas com o Rio, com a sua história. Um disco que celebra, sobretudo, o encontro e a amizade e as histórias que surgem a partir daí. 

 

 

 

 

Em 13 canções que somam meia hora ao total, o artista não esconde a influência da música brasileira (e nem quer, visto que parte da trupe que o acompanha é formada por Pedro Sá [que assina a produção musical] Alberto Continentino, Domenico e outros), mas não de maneira nostálgica, e sim fazendo dela uma estrutura que ele molda à sua maneira, alcançando originalidade

 

Conversei com Tomás sobre o álbum, seu processo criativo e a escolha por estrear em disco no ano mais confuso de todos. Leia abaixo:

 

 

 

 


Eduardo Lemos: Tomás, adorei o disco. De primeira, queria que você me contasse um pouco sobre teu processo de criação do álbum: quando você começou a pensar nele e como você, como compositor, selecionou as faixas que entraram no disco?


Tomás Cunha Ferreira: Obrigado, Eduardo. Para mim a música está muito próxima da magia. Não no sentido de fazer truques, mas de acreditar mesmo na magia. Parte de um desejo íntimo de fazer soar, de sentir a vibração do instrumento e da palavra, e o efeito de afirmação disso em mim e no mundo - e é algo que se faz em colaboração, com outros músicos e parceiros, um trabalho de desprendimento do ego. O processo vive desse desejo pessoal, mas também da vontade de quebrar a fronteira entre mim e o outro. O disco traz o meu nome, só que é feito em parceria com meus amigos, que compõem e tocam comigo, que são essenciais mesmo para que eu possa definir a mim próprio. Eu sou eu, e sou eles: Pedro, Domenico, Alberto, Moreno, Branquinha, Quito, e todos os que participam no disco. São músicos mas também há uma ligação de amizade que marca muito o trabalho.


 

O álbum tem momentos mais solares e suaves (como "Joá" e "Enredo") e outros mais experimentais (casos de "Looking for Love" e "Tigres na Chuva"). Como acontece pra você as definições sobre os caminhos que as canções irão tomar? Isso já nasce pronto com a música ou é mais no estúdio?


Logo a abrir o disco vem Joá, uma parceria minha com Pedro Sá, que produziu e tocou em todas as canções. Joá abre o disco porque define muito essa parceria com Pedro, que esteve comigo em todas as decisões artísticas, arranjos e escolha das canções. A gravação no estúdio do Bernardo Barata, em Lisboa, foi um processo mágico. Tigres na Chuva foi composta no estúdio. Eu levei a letra e com Pedro Sá fiz a melodia alguns instantes antes de gravarmos. Foi muito rápido, a banda a tocar na mesma sala, todos juntos, ao vivo. Num instante a canção surgiu pronta, e já gravada. A performance da banda faz parte da canção. Isso também aconteceu com (A) e (O), e com várias outras faixas, mas de modos muitos distintos. “Então”, que é com letra do Moreno Veloso, demorou muitos anos até ficar pronta, mais de uma década - mas a gravação foi muito rápida, logo ao primeiro take, com voz e tudo. Todos esses momentos distintos de que você fala, sinto que vêm com o meu modo de fazer. Eu quero tudo: solar, experimental, sentimental. Para mim tem que ter tudo isso, e é sempre uma descoberta, uma viagem, uma superação, um sonho. 


 

Como foi trabalhar com Pedro Sá e esse time de músicos brasileiros como o Continentino e o Domenico? 


É uma sorte! Às vezes até tomo uns choques, há muita eletricidade perto deles. São muito assertivos, inacreditavelmente musicais e temos uma cumplicidade muito forte. Cada um deles é muito importante para mim, parceiros musicais intensos, aprendo imenso todos os dias. É mesmo muita sorte. Pedro Sá é que deu o impulso para fazer o disco, ele é que me disse que estava na hora de fazer um disco meu, e se propôs para produzi-lo e gravar comigo. Todos eles me têm dado muita força para fazer música, sem eles eu não me sentiria com coragem. Mas este disco particularmente, existe porque Pedro insistiu e acarinhou-o até o fim. Pedro Sá é de uma precisão artística estonteante, e o simples fato de ele gostar do que eu faço, e se dispor a embarcar nessa aventura comigo me deixa espantado. Mas como acredito muito nele, fui a jogo e fiz o disco.


 

Este é um disco "de acerto de contas com o Brasil". Como é a tua história com o país e de que forma ela está no álbum?


As contas nunca estarão saldadas. Nasci em Lisboa mas logo fui para o Brasil, cresci entre Rio e São Paulo, e tudo o que eu mais gosto na vida começou aí. É difícil traduzir a importância do Brasil para mim. É grande demais. Aos 13 anos voltei para Portugal e foi um choque enorme, mas com jeitinho habituei-me ao sotaque e aos modos daqui, e hoje Lisboa é o meu lugar, a minha cidade. O Brasil está impresso no meu coração e em tudo o que eu faço.

 

 


 

Este é teu primeiro disco solo e você optou por lançá-lo neste que é o ano mais maluco, ao menos pra nossa geração. Muitos artistas se questionaram se valeria lançar um disco num momento tão confuso. Você chegou a se questionar? 


Sim, quase hesitei. Mas por outro lado, acho importante manter arco e flecha tensos, não baixar os olhos. Muita gente boa lançou discos e livros, isso fez-me ver que mesmo um ano doido, não é um ano para desperdiçar. Vale a pena. 


 

A capa é uma obra tua. Como foi essa experiência de misturar suas duas atividades, a de pintor e a de músico?


Meus movimentos andam ligados. Cada trabalho tem o seu lugar, mas não seria natural pensar tudo em separado. Eu não gosto muito da ideia de fronteira, e acho que as coisas não gostam de ficar paradas num mesmo lugar. A pintura acaba por transpirar pelos poros da música. Eu ainda estou a começar, mas sempre fiz de tudo, e tudo misturado. Faço sobretudo aquilo que eu não sei fazer muito bem, aquilo onde é arriscado, e onde não sou particularmente talentoso. Eu pinto porque não sei o que é pintar. E faço música para aprender a fazer - porque eu gostaria de um dia ser um bom músico. 


 

Por fim, quais são suas referências musicais mais diretas?


Acho o som dos filmes do Godard música muito boa. Gosto de canções românticas em parque de diversões. Gosto de música contemporânea indigesta. Gosto de música que é a expressão de um lugar, como por exemplo flamenco, jazz ou samba. Caetano sempre foi muito importante para mim, até mais no olhar do que na música, se é que é possível separar as duas coisas.



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Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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