O encontro entre Meno e Kyungso Park - Brasil e Coreia do Sul

18/12/2020

Sonoridade da artista sul-coreana é o destaque do novo lançamento de Meno

 

 

Das belezas que a vida tem, a casualidade dos encontros é uma das que mais admiro, talvez porque, nesses casos, eu consiga enxergar nitidamente os caminhos humanos se cruzando e gerando algo completamente novo a partir do agrupamento simples de duas pessoas. 


Me lembrei desse tema quando ouvi Meno del Picchia me contar que lançaria um par de canções neste final de ano, e que elas teriam a participação da artista sul-coreana Kyungso Park. Brasil e Coreia do Sul? Tá aí um encontro pouco explorado na música. Fiquei curioso. 

 

Fui conversar com Meno (que está no Brasil) e Kyungso (direto da Coreia do Sul) sobre "Falta Muito" e "Nunca Tenha Medo", as duas faixas que chegam nesta sexta-feira, 18/12, às plataformas digitais. Leia a seguir:

 

 



Eduardo Lemos: Como vocês se conheceram e como se deu essa troca musical entre vocês?


Meno del Picchia: Eu conheci a Kyungso em 2015, na residência musical que teve na Fazenda Serrinha, pelo festival de inverno da Serrinha, em Bragança Paulista. Foi uma residência muito legal, que tinha Jaques Morelembaum, Marcos Suzano, Benjamim Taubkin e outros músicos brasileiros. Eu era o baixista da residência. Tinham músicos estrangeiros também, e a Kyungso era a representante da Coreia do Sul. Em 2018, ela veio pro Brasil para fazer uma série de shows e o Benjamin Taubkin me convidou para fazer um show de trio, eu, ele e ela na Casa de Francisca. Consegui agilizar uma banda pra fazer uma tarde de gravação com ela (Guilherme Kastrup na bateria, Marcelo Djovereck no baixo, eu de guitarra e voz e a Kyungso tocando o gayegeum, um instrumento tradicional coreano). 


Kyungso Park: Tudo começou em 2015, no festival da Serrinha. Eu fui convidada por Benjamin Taubkin. Ali estavam Jaques Morelembaum, Marcos Suzano, Carlos Malta… e Meno estava lá. Nós tivemos 10 dias de residência, tocando e criando música sem parar. Essa foi a minha primeira vez no Brasil, e cada momento com eles foi fantástico e mágico. Embora eu não falasse português, nós nos conectamos uns aos outros através da música, dos sons. Depois disso, em 2018, eu voltei ao Brasil, agora para apresentações solo na Caixa Cultural. Durante esta turnê, gravei estas músicas com Meno. Os músicos brasileiros são incríveis, eles tem uma liberdade e uma alma muito musical. Eu adoro a diversidade rítmica. De alguma forma, eu sinto que é parecido com a música tradicional coreana: rítmica, triste e alegre. 

 

 

capa do compacto - arte: Laura Solezzi

 

 

O que mais chamou a atenção de vocês no trabalho um do outro?


Meno: Sou muito fã dela. Várias coisas me chamaram a atenção nela. Primeiro, a sonoridade do instrumento, que é algo que não estamos acostumados aqui no Brasil. Outra coisa é a delicadeza e a sutileza da música da Kyungso. Tem um silêncio na música dela, ela abre muito espaço pro silêncio, pro respiro, pra meditação. Ela trabalha muito bem isso. Ao mesmo tempo, ela é uma virtuose, ela domina completamente o instrumento, é capaz de tocar qualquer tipo de ritmo, melodia, harmonia… É impressionante. Ela é de uma musicalidade muito forte.


Kyungso: A música do Meno tem uma energia forte e terna. Mesmo que eu não entenda o português, eu consigo sentir isso. E a forma como ele toca é tão legal, sem dúvidas, sem hesitações, mas com instinto. E ele tem uma energia que deixa as pessoas calmas. 

 

 


 

Me parece que estes encontros sempre geram aprendizados e evoluções. Nesse sentido, como foi pra vocês se aproximarem de uma cultura e de uma música que não estão habituados a experimentar no dia a dia?


Meno: Este compacto com Falta Muito e Nunca Tenha Medo traz uma mistura que pra mim ficou linda, essa mistura de sonoridades entre a música brasileira contemporânea e a música tradicional sul-coreana. Tô muito feliz com isso, principalmente por trazer pra nossa música um instrumento que a gente não tem aqui. Isso traz toda uma atmosfera diferente. Eu queria que o instrumento dela ficasse no mesmo lugar que a minha voz. Fiz questão de colocar o gayageum alto na mixagem, como se fosse uma voz que está cantando comigo. Eu pensei isso como um diálogo mesmo. 


Kyungso: Pra mim, é claro que há diferenças culturais: o idioma (que acaba influenciando também a forma como pensamos), a moda, a arquitetura e tudo isso. Mas não tanto assim. Vivemos na mesma era, e transitamos mais facilmente hoje em dia do que antigamente. Vivemos distantes, mas nos falamos, assistimos aos mesmos filmes e a internet acaba nos deixando ligados uns aos outros. Eu penso que a música brasileira é a melhor do mundo. Vocês tem uma energia musical brilhante. O Brasil é um país que ama música, eu percebo essa admiração do povo pela música. Portanto, eu me sinto muito grata por ter tocado com o Meno. Isso me ensinou e me inspirou, fez eu me sentir sortuda. Beleza! 

 

 


 

Meno, você também lançou um disco recentemente e um single ("Crie Seu Espaço"). Queria que você contasse um pouco desse seu momento de intensa produção em pleno ano pandêmico…


Meno: Esse foi mesmo um ano intenso. Quando tudo parou, eu gravei um disco em casa chamado "Pele de Água", com músicas que fiz de 2017 pra cá. O isolamento me deu tempo pra construir o álbum. Eu tinha um projeto de lançar um disco em formato de websérie, e cada episódio seria uma música e um encontro com uma banda diferente. O primeiro foi "Crie o Seu Espaço", single que lancei no segundo semestre. O segundo episódio é justamente o encontro com a Kyungso. O vídeo está na ilha de edição pra gente lançar no começo do ano que vem. O terceiro episódio é com o MC Ciszo, de Heliópolis. A gente compôs uma mistura de funk com trap. Eu tô num momento de produzir muita coisa. Essa semana eu lanço o Litheratorio, um podcast sobre poesia e música, ao lado de duas poetas, a Anna Zêpa e Eveline Sin. Em 2021, quero continuar produzindo. 


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Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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