Daniela Mercury falou, Daniela Mercury avisou

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Passava da 1h da manhã de domingo. Era, então, já segunda-feira, mas o clima era de sábado a noite. Estávamos na porta do Cine Joia, prontos para entrar naquele belíssimo espaço (um antigo cinema localizado no centro de São Paulo, ali no meio da Liberdade, que hoje dá palco para uma diversidade de bons nomes da música brasileira).

Estávamos em 4 amigos e tudo nos parecia festa. O ato de entrar no Cine Joia, receber pulseiras vip’s (um oferecimento Lollapalooza) e estar a poucos minutos de assistir ao Alabamas Shakes - num show que pode-se considerar exclusivo em comparação a quem viu a banda liderada Brittany Howard no Jockey Club, um dia antes, em meio a uma multidão de mais de 40 mil pessoas – nos trazia uma empolgação genuína, como quando estamos bêbados no dia do nosso aniversário rodeado de amigos de épocas diferentes que pararam suas vidas paralelas para nos saudar.

Foi ali, num clima quase adolescente, que eu descobri que um novo amigo nosso era homossexual, ou bissexual – tanto faz. O fato era que aquele garoto com pinta de quem fazia sucesso fácil com as meninas não gostava de...meninas. E saber isso não mudou em absoluto a nossa noite, exceto pelo fato de, naquele dia, eu ter aprendido que as diferenças são bonitas.

Foi na porta do Cine Joia, com vergonhosos 27 anos de idade, que eu fui entender que as diferenças entre eu e ele eram exatamente o que me faria querer ser amigo dele por muito tempo.

Escritores confusos tendem a explicar seus textos, e é o que farei agora. Nessa semana que está acabando, duas datas foram lembradas pela mídia: os 45 anos do assassinato de Martin Luther King (morto em 1968, a tiros) e o aniversário de Cazuza (morto em 1990, de AIDS). E, anteontem, a cantora Daniela Mercury assumiu sua nova opção sexual: depois de anos num casamento hétero, a rainha do axé declarou ao mundo, via Instagram, que agora tem uma esposa.

É curioso e instigante me deixar levar por um pensamento: King influenciou Cazuza, que influenciou Daniela, embora talvez nenhum deles tenha um dia tido consciência disso.

Pense: o que seria de nós se um dia Luther King não tivesse se levantado contra a segregação racial nos Estados Unidos? Sua luta, suas passeatas, seus discursos inspirados e inflamados levaram uma nação inteira a se questionar. E, ao se questionar, admitir – num processo histórico demorado, mas contundente – que separar negros e brancos era uma tremenda estupidez.

Hoje, o presidente dos Estados Unidos, prêmio Nobel da Paz, é negro.

Agenor de Miranda Araújo Neto era líder do Barão Vermelho no início dos anos 80. Sua banda era uma das mais aclamadas pela crítica e mais celebradas pelo público. Havia algo de Rolling Stone na pegada bruta das guitarras que o acompanhavam. Havia algo de Tropicalismo nas letras irônicas, carregadas de malandragem carioca e, ao mesmo tempo, recheadas de dores de amores mal resolvidos.

Cazuza já era um ícone quando saiu do Barão, seguiu em carreira solo e contraiu AIDS. Foi corajoso ao definhar em público e, bravo!, estampar a capa da revista Veja, a mais vendida naquela época e ainda hoje, com o corpo magro e esquelético. Não escondeu de si nem de ninguém a verdade por trás de sua opção sexual: foi ela, aliada às drogas, que o levaram a contrair o vírus mais temido do século passado.

Tínhamos um preconceito velado contra homossexuais, e Cazuza foi o primeiro brasileiro-celebridade a nos provocar a pensar sobre o assunto. Haveria outra forma deste assunto entrar nas ruas, nos bares e nas casas das pessoas?

Daniela Mercury nunca foi ativista política, nem suas letras trouxeram algum legado revolucionário para a geração que a viu nascer. No entanto, 20 anos depois de nos fazer decorar a letra de O Canto da Cidade, vem dela uma nova demonstração de coragem dentro do mundo da música. Se Daniela Mercury se orgulha de ser quem é, de se apaixonar por uma mulher e gritar isso ao mundo... minha senhora, porque o seu filho não pode?

Seja no exemplo de Martin Luther King, de Cazuza ou de Daniela Mercury, só consigo pensar que éramos perfeitos idiotas quando aceitávamos que negros deveriam ser escravos; que uma nação (Alemanha) descriminasse violentamente outra (os judeus); que homossexual era doente e exceção.

O preconceito nasceu para ser quebrado. A História nos ensinou isso, e a música – ela! – é quem está nos dizendo agora que continuaremos perfeitos idiotas se não jogarmos fora qualquer receio de aceitar o próximo como ele é.

Em 1977, o índio de Caetano Veloso já sabia disso:

"E aquilo que nesse momento se revelará aos povos Surpreenderá a todos, não por ser exótico Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto Quando terá sido o óbvio"
Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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