Revisitar e reverenciar Raul Seixas

Não houve ninguém como Raul Seixas. Dono de uma obra popular e ao mesmo tempo ligada a temas filosóficos, místicos e espirituais, Raul uniu o rock de Elvis e Beatles ao baião de Luiz Gonzaga. Mas, mais do que isso, mostrou que a música brasileira poderia se juntar aos ritmos estrangeiros e não soar datada e subserviente, e sim nova, própria, original. Nem só Caetano é filho da antropofagia de Oswald de Andrade. Raul também.

E mais uma prova disso poderá ser vista neste final de semana, em São Paulo, quando diversos artistas de diferentes gêneros de juntam para celebrar a obra de Raulzito. Realizado pelo Centro Cultural Banco do Brasil para celebrar os 12 anos da instituição, o projeto "Toca Raul!" reunirá Zeca Baleiro, B Negão & Os Seletores de Frequência, Zélia Duncan, O Terno, Marcelo Nova, Kátia B, Lucas Santtana e Letuce, dentre outros, em shows gratuitos em pleno vale do Anhangabaú no sábado (20) e domingo (21) - saiba mais.

Lucas, um dos artistas mais consistentes e interessantes da última década, e o Letuce, duo carioca formado por Letícia Novaes e Lucas Vasconcellos, que mistura samba, bom humor e poesia, bateram um papo exclusivo com o Azoofa sobre suas expectativas para o show, a importância de eventos gratuitos e abertos ao público e a relação de cada um com a obra do compositor baiano.

AZOOFA: Lucas e Letícia, qual a relação de vocês com a obra do Raul? Desde moleques vocês curtem o som dele?

Lucas Santtana: A relação de quase todo mundo, a relação com um ícone pop da cultura brasileira. com todas aquelas canções que todo mundo vai ouvir um dia. Raul é como Beatles, todo mundo na vida uma hora vai passar por ali. eu também passei na minha adolescência. esse projeto foi importante para eu acessar coisas que não conhecia da obra dele.

Letícia Novaes: Eu sei que meu pai ouvia Raul quando eu era criança, mas é tudo tão misterioso que não lembro a primeira vez que ouvi; não que não tenha me marcado, mas acho que deve ter sido tão cósmico e forte que eu apaguei o primeiro contato. Já me lembro criança, sabendo da existência dele e de toda sua loucura e genialidade.

O que vocês vão apresentar ao público no show deste sábado?

Lucas Santtana: Vou apresentar versões jamaicanas de músicas dele. Algumas conhecidas, como Al Capone e Cowboy Fora da Lei, e outras menos conhecidas, como As Profecias. Quando digo jamaicanas engloba ska, dub, reggae, 4 drop, etc. Procurei as músicas que tivessem poucos acordes justamente para poder soar bem no mantra jamaicano.

Letícia Novaes: Apenas uns 2 hits e o resto é bem lado B, músicas maravilhosas, dançantes, letras emocionantes. O que mais me impressiona é que todas as letras são emocionantes, têm mensagens que tocam profundo mesmo.

São Paulo vive um momento interessante, em que a população começa a clamar por mais eventos nos espaços públicos da cidade, como ruas, praças e parques. Qual a importância de tocar no meio do Anhangabaú para milhares de pessoas, em um show gratuito?

Lucas Santtana: Sou 100% a favor disso. Tem muito dinheiro público circulando nesses editais, sejam eles públicos ou privados. No mínimo, isso tem que retornar para a população em eventos como esse. O povo gosta de cultura. Ficam querendo catalogar o que é popular. Num show desses você vê que essa catalogazão é pura ditadura dos meios de comunicação de massa.

Letícia Novaes: Eu AMO fazer show na rua. Aqui no Rio de Janeiro, de vez em quando, rolam shows na praia, é muito democrático: tem idoso, neném, mendigo, gringo, gente que jamais iria no seu show e para pra te ouvir, por ser de graça. Então espero esse clima, pessoas diferentes mas entusiasmadas. tomara que o tempo ajude.

Sobre interpretar a obra de outros artistas: Lucas, você já regravou Paralamas em dois álbuns (“Mensagem de Amor” e agora “Músico”) e recentemente cantou canções setentistas de Gil junto com o Bixiga 70. O Letuce também já visitou a obra de outros compositores. Como é para vocês essa aventura de mexer na música de outro autor?

Lucas Santtana: É ótimo. A gente re-conecta com músicas que fizeram parte da nossa vida, só que agora de uma maneira autoral, graças ao passar dos anos e o acúmulo do seu próprio trabalho. Ao mesmo tempo a gente aprende e educa.

Letícia Novaes: A gente sempre fez muita releitura com a banda, da Sade, de pagodes, do Queens of the Stone Age, enfim, sempre gostamos de brincar em cima de músicas que gostamos. Claro que sendo do Raul, tinha uma coisa meio sagrada em cima daquilo, mas acho que fizemos um bom trabalho. a banda tá emocionada, juro, é essa a palavra. A gente ensaia de olhos fechados, sentindo as músicas hahahaa, tá engraçadão.

Gostaria que vocês destacassem 3 canções do repertório do Raul que, para vocês, são especiais, e nos contassem rapidamente o motivo de cada uma.

Lucas Santtana

1. As Profecias: foi uma surpresa pra mim na pesquisa do repertório. A descrição que ele faz na primeira parte da canção é linda e precisa. Um tipo de sentimento que todos já tivemos pelo menos algumas vezes na vida.

2. Carimbador Maluco: meu filho adora e as crianças em geral também. essa música é uma especie de continuação da Arca de Noé do Vinicius de Moraes. Só que mais pisicodélica. E é a última imagem televisiva que eu guardo do Raul.

3. A Maçã: é uma aula sobre amor, liberdade, tesão, vida a dois e mais...

Letícia Novaes

1. Sociedade Alternativa: hit, clássica, mas importante para minha infância, ouvia e pensava que então poderia haver uma ALTERNATIVA. já sabia que o mundo poderia ser padrão/careta/gaveta, e eu não queria nada daquilo, e de repente uma música que falava sobre ser alternativo, pirei e respeitei.

2. Love is Magick: uma música pouca conhecida do Raul, clima David Bowie, letra poderosíssima, forte, lindo, essa eu quero até continuar cantando com o Letuce. Rá!

3. Paranóia: música que também vamos tocar. fala sobre a mente perturbada do Raul, e de todos nós, que eventualmente já entramos numa. Ainda mais no mundo hoje em dia, de Felicianos e Renans Calheiros, paranóia pura.

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