Por dentro do ensaio: Lucas Santtana

[caption id="attachment_588" align="aligncenter" width="584"] (crédito: Thiago Fagnani)[/caption]

Encontro Lucas Santtana sentado em uma cadeira de plástico azul, que está encostada em uma parede amarela ao final do corredor do Estúdio Loop, em São Paulo. São 21h32 de sexta-feira e ele está concentrado mexendo no celular.

Lucas está só, mas não está sozinho. Assim como escreveu em “Se Pá Ska SP”, a música-homenagem à capital paulista que integra seu último disco, “O Deus Que Devasta Mas Também Cura”, milhares de torpedos saem de seu celular para outros celulares – uma característica bastante paulistana, segundo a letra da música, na qual a solidão inerente à cidade é aplacada quando amigos começam a se comunicar por celular tentando combinar um encontro.

Ele está usando uma jaqueta de couro preta que não esconde a camiseta verde clara que está por baixo, calça jeans e um tênis marrom que, assim que o vi, achei graça de ser parecido com o meu – além de um cachecol enrolado ao pescoço, uma boa ideia para se proteger do vento gelado que passa pelos lados da Vila Madalena e para salvar sua garganta de qualquer problema que o atrapalhe a cantar as 12 músicas do show que apresentou sábado passado, no Palco 25 de Março, na Virada Cultural.

Cumprimento-o, me apresento e explico rapidamente a ideia da matéria. Ele diz “legal, vamos lá”, e eu peço um instante para ligar o gravador e pegar meu bloco de notas na mochila. Ele assente e volta os olhos para o celular. Enquanto organizo minhas ferramentas, percebo um nervosismo que há tempos não me habitava, um nervosismo que, se me recordo bem, apareceu pela última vez quando encontrei ao vivo pela primeira vez com Herbert Vianna – um nervosismo de fã em frente ao seu ídolo, algo que o verniz da função de jornalista que ali exerço não vai ser suficiente para disfarçar a porção humana que me habita.

A entrevista dura cerca de 40 minutos. Na maior parte do tempo, Lucas comenta os detalhes do show que faria menos de 24 horas depois e sua relação com os ensaios – desde quando era moleque, e se entregava a um pequeno ensaio como se fosse o grande show de sua vida, até aquela sexta-feira paulistana, em que reunia sua "banda de São Paulo" – ele possui formações diferentes que o acompanham no Rio de Janeiro e na Bahia – depois de 3 meses sem tocar com Beto Gibbs (bateria), Zé Nigro (baixo), Caetano Malta (guitarra), Mangaio (samplers) e Maurício Fleury (teclado).

[caption id="attachment_589" align="aligncenter" width="584"] (crédito: Thiago Fagnani)[/caption]

Os seis músicos se espremem numa pequena sala de ensaio de 16 m². Lucas começa conversando com Caetano sobre os efeitos de guitarra que o músico usará no show. Logo eles levam “O Deus Que Devasta Mas Também Cura”, a música que abrirá o show. Lucas fecha os olhos para cantar e simula tocar piano.

Na sequência, vem “Músico” – a canção dos Paralamas com Tom Zé que ele regravou em seu último album. Lucas, aliás, tem um carinho especial pela banda carioca: ele lembra especialmente de um dia, quando ainda estava iniciando sua carreira, que Herbert Vianna e João Barone foram vê-lo tocar em uma casa de shows do Rio e deliberadamente se juntaram a ele no palco. “Imagina: aqueles caras ali, fazendo um som comigo, na moral. Foi incrível”.

A versão de Lucas para “Músico” é enérgica e dançante. A canção está quase acabando, mas Lucas está visivelmente empolgado e ordena: “Deixa rolar esse groove final um tempão”. A banda topa e todos entram na onda de improvisar.

Lucas é centralizador, no bom sentido. Coordena o ensaio como um diretor de cinema. Está ligado em tudo e em todos - mesmo quando fecha os olhos para cantar, seus ouvidos estão atentos. Gesticula bastante, usa a voz para simular o som de baixo que gostaria de ouvir e não se incomoda em repetir mais de uma vez determinadas passagens. E dirige a si mesmo também: em “Se Pá Ska SP”, ele segura a voz e canta uma oitava abaixo no refrão.

Ele faz uso do cavaquinho em “Dia de Furar Onda no Mar”. A banda parece se diverter e, novamente, ele pede para que a parte final seja estendida e todos “se divirtam”.  O ensaio vai pegando fogo e dura até à 1h. Com as 12 músicas passadas e a banda entrosada, é hora de descansar para, dali há algumas horas, enfrentar milhares de pessoas na Virada Cultural. Ele também tocará na Virada Paulista, que acontece no interior, na cidade de São José dos Campos. “É uma oportunidade de você tocar em cidades que, normalmente, seria difícil você ir. E é legal porque a cidade toda comparece e muita gente que não conhece o som vai pelo evento e sai de lá conhecendo o nosso trabalho”, diz.

Confira os principais trechos da entrevista com Lucas Santtana e, na sequência, a crítica do show que ele apresentou na Virada Cultural:

AZOOFA: São Paulo vive um momento de retomada de seu espaço público. As pessoas parecem desejar mais eventos na rua e ao ar livre, e a Virada Cultural é o ápice desse movimento. Como você vê isso?

Lucas Santtana: Cara, eu sou de Salvador... Essa coisa da população ocupar o espaço público todo ano, numa festa que tenha sempre a mesma data, é uma coisa muito rica, né? Porque aquilo pauta a vida das pessoas. Tem a festa de Iemanjá de 2009 que você começou a namorar sua mulher, e a festa de 2013 que você se separou... Isso vai pautando a vida de um monte de gente, vai se tornando um marco, um momento em que a cidade se reúne. E São Paulo, por muitos anos, não teve isso. Então, eu acho a Virada incrível nesse sentido – porque ela causa, primeiro, a possibilidade da população de vários lugares se encontrarem. Depois, o local dessa reunião, o Centro, que é um lugar normalmente mal visto, é como um lugar que não se frequenta, que é perigoso, Cracolândia e tal. A Virada é quase que o aniversário da própria cidade.

Qual tua relação com o Centro?

Já andei muito por lá. Lembro de passear por lá, com meus padrinhos, em dias de domingo. Eu já fiz a trilha sonora de uma peça de teatro de um grupo chamado Povo em Pé, que era uma peça itinerante pelo Centro. As pessoas ganhavam fones, onde elas ouviam o que tinham de fazer e iam escutando a trilha ao mesmo tempo. Foi muito legal.

E esse ensaio de hoje? É uma repassada do repertório já estabelecido ou vão pintar algumas surpresas?

É... na verdade, eu tenho três bandas: uma na Bahia, uma no Rio e uma em São Paulo. Venho fazendo isso ao longo do tempo, por necessidade em relação a agenda e também para otimizar os custos. Por exemplo: tem um show em São Paulo e os músicos moram no Rio. Isso leva uma grana de passagem, hospedagem etc. Foi uma maneira que eu encontrei de equilibrar os custos e, de certa forma, aquecer o mercado, já que você acaba tendo mais músicos tocando e tal. Ultimamente, eu tava fazendo muito show com a banda do Rio e de Salvador. Mas isso muda muito. Ano passado, por exemplo, praticamente só toquei com a banda de São Paulo. Isso depende das datas que vão pintando. Como faz um tempo que a gente não toca, marquei esse ensaio para gente dar uma lembrada. O último show que fiz com a banda de São Paulo foi em março.

Mas sabe que às vezes acontecem umas coisas engraçadas? O Mangaio, que é quem vai tocar os samplers nesse show, é da banda da Bahia, porque o cara de São Paulo não pode estar aqui. Então, às vezes rola isso, de uma banda se misturar com a outra.

[caption id="" align="alignnone" width="450"] (crédito: Thiago Fagnani)[/caption]

Num ensaio como esse, 1 dia antes do show, tem alguma chance de você aparecer com uma ideia nova?

Eu gosto muito de preparar as coisas, sabe? Então, para vir com algo novo, eu precisaria ter tempo. Ensaio, pra mim, é meio relembrar. E, nesse momento, eu tô criando uma trilha sonora para teatro (uma adaptação para a obra “O Duelo”, de Tchekóv, que estreia em Fortaleza e chega em São Paulo no final do ano) e tô sem tempo nenhum... Na real, esse ensaio de hoje é quase um milagre! (risos) A ideia é fazer uma manutenção mesmo e deixar todo mundo mais solto para amanhã.

Dia de ensaio, normalmente, você costuma se concentrar mais ou é um dia normal?

É um dia normal, super normal. Alguns ensaios são mais tensos como, por exemplo, quando você vai levantar o disco. Normalmente são ensaios longos, você fica muito atento a todos os detalhes e eles acabam sendo muito cansativos. Nos ensaios, além de cantar e tocar, eu tenho que ficar prestando atenção no que os outros estão fazendo. E eu sempre gravo os ensaios, para ouvir depois e ver o que tá sobrando, o que tá faltando. Esses ensaios de manutenção, como o de hoje, já são diferentes. Eles são mais curtição, mais uma desculpa para encontrar a galera, ver se está todo mundo bem, fazer um som.

E é um momento que você fecha o set list ou você já vem com ele fechado?

Eu já venho com ele fechado. Quando eu monto o show, eu vou experimentando até chegar a um set list. Depois, eu vou fazendo pequenas alterações. Mas tem uma base de canções que persiste. Nesse show da Virada, tem bastante coisa do “Deus Que Devasta Mas Também Cura” e algumas coisas de “Sem Nostalgia” e “3 Sessions in a GreenHouse”.

Voltando um pouco no tempo, você lembra de como eram seus ensaios quando moleque?

Cara, eu lembro que eu ensaiava num estúdio no Rio de Janeiro, mas não lembro o nome. Os primeiros ensaios são incríveis, né? Todo mundo tocando alto pra caralho, no meio do ensaio você ficava rouco (risos). Aquele gás, aquela pressão, todo mundo querendo soar alto e você quase não ouvia a voz direito... Eu lembro mais disso, de ter muita vontade, de pensar: “caralho, conseguir realizar meu sonho!”. Um momento de super emoção, super ansiedade.

Você parece gostar muito de São Paulo. Qual sua relação com a cidade?

Há muitos anos que eu venho pra São Paulo quase todo mês, para trabalhar. E tenho muitos amigos aqui. E tem isso de a maioria dos meus amigos na cidade serem músicos, então toda vez que eu estou aqui, estou muito perto da música, sabe? Ou dentro de um estúdio, ou com algum amigo conversando sobre música. Minha relação com São Paulo é muito musical. E de produtividade: estou sempre fazendo coisas, gravando, compondo etc. E mesmo quando eu estou de bobeira, alguém me chama para ir num estúdio e eu acabo gravando alguma parada. Então, em SP, sempre a música me chama.

E a letra de "Se Pá SKA SP" tem muito a ver com isso...

É. Eu fiz pensando na minha vivência com os meus amigos daqui. Essa coisa de sempre ter que comer, por exemplo. Você vai no cinema? Então depois você vai comer em algum lugar, ou antes. Ou vai ver um jogo de futebol e, enfim, essa coisa da comida é sempre uma obrigação do programa. Mas tem um lado bacana também que é essa coisa de sentar ao redor da mesa, de prosear, que é típico do caipira.  E tem outra: o fato de a cidade ter essa solidão faz com que as pessoas se procurem. Você acorda sozinho domingo e não quer ficar em casa, você liga pra um amigo e combina de almoçar com ele, ou de fazer alguma coisa. O fato de ele te ver e você ver ele meio que atesta sua existência, e vice-versa. Por isso que eu falo, na música, “quem é o amigo que vai te salvar”. Salvar da solidão.

Menos de 24 horas depois, Lucas está no palco.

(crédito: Eduardo Lemos)

Chego à Rua 25 de março às 19h15 e encontro a primeira atração do espaço: Os Ritmistas (Kassin, Domenico e uma turma de bons músicos) acompanhando Jorge Mautner. O público não é dos maiores - mais por culpa da localização do palco (um dos mais distantes das áreas que reúnem a maior parte do público, como Anhangabaú e República) e do horário – às 20h ainda é “cedo” para a maioria das pessoas que vão à Virada. Jorge Mautner hipnotiza o público e se despede pontualmente às 19h55.

Imediatamente inicia-se a montagem do palco para Lucas Santtana. Diversos problemas de som, porém, fazem o início do show atrasar mais do que o normal – e Lucas só sobe ao palco para dar boa noite ao público 55 minutos depois. A demora, porém, trouxe algo de bom: o público nesse horário já era bem maior.

O show começa com “O Deus Que Devasta Mas Também Cura”, uma escolha corajosa em se tratando de um show de rua. A delicada canção arranca tímidas palmas dos espectadores, os mesmos que minutos depois ensaiam dançar a esperta “Músico”. De paletó cinza e camiseta amarela, Lucas também vai perdendo a timidez e se soltando. Dança, interpreta, interage com os outros músicos. Não tira os óculos escuros em nenhum momento.

O público vai, aos poucos, se deixando levar pela eficiência da banda e pela performance de Lucas, que beira o teatral – especialmente em “Cira, Regina e Nana”. Em “Se Pá Ska SP”, acontece uma pequena catarse entre banda e público, que em sua maioria atendeu ao desafio de dançar o ska e gritar a plenos pulmões o refrão em inglês. Simbólico que um dos principais momentos do show tenha acontecido justamente numa canção que falava sobre todos que ali estavam – paulistanos, não paulistanos, mas que vivem ou se relacionam com a capital – e bem no Centro da cidade.

Espectadores e banda se juntam novamente – e literalmente – quando Lucas convida a galera para subir no palco e dançar uma música instrumental. Para desespero da organização, o público começa a se mexer para atender ao pedido. “Pode ou não pode subir?”, é o que várias pessoas perguntam aos seguranças, que não sabem responder. A falha de comunicação acalma o ímpeto do público e, ao final, somente uma turma de amigos realiza o pedido de Lucas. Mas o faz bem: eles dançam, se divertem e ganham aplausos calorosos da plateia.

[caption id="" align="alignnone" width="552"] (crédito: Maurício Fleury)[/caption]

A essa altura, Lucas repete Mautner e já hipnotiza os espectadores. Seus gestos e falas são observados com atenção e curiosidade. Quem não o conhece parece descobrir não só sua música, mas também uma figura interessante. E a banda que o respalda, eficiente e talentosa, faz a história daquela noite ficar ainda mais especial. Faltando duas músicas para o fim do show, o baterista Beto Gibbs acusa um problema no bumbo de sua bateria. Lucas vai ao microfone dizer ao público que, sem o bumbo, não há como continuar. Ele brinca: “Tem alguém aí que é bom de contar piadas? Preciso passar o tempo enquanto não arrumamos outro bumbo”. Nesse instante, Beto o chama e fala: “Vamos sem o bumbo”. Lucas parece não entender direito, mas topa o desafio – e “Jogos Madrugais”, uma das melhores composições do último disco, sai na base da caixa e surdo e encerra de forma marcante uma noite memorável.

"Achei o show ótimo. Como já havia te dito shows na rua sempre tem uma energia extra", me contou Lucas, dias depois. "Não sentimos nenhum problema no som, pelo menos no palco. Aliás, ficamos surpresos de que o som estivesse tão bom para nós, porque não tivemos nem passagem de som. Saímos do palco com uma vibe muito boa e o público foi um dos grandes responsáveis por isso".

Não só o som e o público deixaram Lucas empolgado. O cenário - a icônica rua 25 de Março, um espaço tão representativo do que é (o Centro de) São Paulo - também mexeu com ele. "Tocar na rua e de graça é sempre bom. No Centro de São Paulo e dentro da Virada, melhor ainda. Acho que a cidade precisa de uma festa anual como essa, reunindo a população no Centro", finalizou.

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

Comentários
Postagens relacionadas

12/07/2019 Geral, Listas e coletâneas

Lançamentos de julho

28/06/2019 Geral

Lançamentos de junho

27/06/2019 Geral, Entrevistas

3 perguntas para Camille Bertault

26/06/2019 Geral, Entrevistas

A volta do Ave Sangria

Shows relacionados
COLETIVO RODA GIGANTE
28/07/2019 - 13:00 hs
até 18/11/2019 - 13:00 hs
JazzB
COLETIVO RODA GIGANTE
O SOM DA CASA
17/08/2019 - 20:00 hs
até 19/10/2019 - 20:00 hs
Casa dos Trovadores
grátis
O SOM DA CASA
ITAIPAVA DE SOM A SOL SP
26/09/2019 - 21:30 hs
até 04/10/2019 - 21:30 hs
Ginásio do Ibirapuera
ITAIPAVA DE SOM A SOL SP
KING CRIMSON
04/10/2019 - 21:30 hs
Espaço das Américas
R$150 a
R$850
comprar
KING CRIMSON
BON JOVI
25/09/2019 - 20:00 hs
Allianz Parque
R$180 a
R$780
comprar
BON JOVI
GERALDO AZEVEDO - ADIADO
30/08/2019 - 22:00 hs
Casa Natura Musical
R$100 a
R$80
comprar
GERALDO AZEVEDO - ADIADO
MAURÍCIO PEREIRA
07/08/2019 - 21:00 hs
Blue Note SP
R$25 a
R$50
comprar
MAURÍCIO PEREIRA