Entrevista: Saulo Duarte e Vinícius Calderoni

Quem são os novos nomes da música brasileira? Que cara tem essa MPB? Difícil responder. A nova geração de artistas é multifacetada, adepta do experimentalismo e da mistura de referências. Em comum, todos trilham o caminho da independência – onde o artista centraliza a maioria das funções, da gravação à distribuição e divulgação, e cujas carreiras dependem bastante das redes sociais e das casas de show que apostam em nomes que estão despontando.

Uma boa estratégia para conhecer essa nascente (e talentosa) safra é ficar de olho nos trabalhos de Vinícius Calderoni e Saulo Duarte. Os dois, dos mais promissores nomes da nova geração da música brasileira, se apresentam nos próximos dias em São Paulo – coincidentemente, ambos na Vila Madalena

Nesta sexta-feira (07), Vinícius Calderoni inicia a temporada de seis shows para o lançamento de seu segundo álbum, “Para Abrir os Paladares” (saiba mais). Conhecido também por seu trabalho no teatro e com a banda 5 a Seco, Vinícius receberá diversos convidados nas seis apresentações que realiza na Sala Crisantempo – dentre eles, estão os cantores Felipe Catto e Blubell e o escritor Marcelino Freire.

Saulo Duarte toca na segunda-feira no Grazie a Dio (saiba mais) tradicional casa de shows paulistana que recentemente abraçou o projeto Cedo e Sentado, originalmente criado pelo Studio SP, depois que a casa na Rua Augusta fechou suas portas no mês passado.

Nascido no Pará, Saulo vive há 3 anos na capital paulista. No começo de 2013, lançou seu primeiro disco, “Saulo Duarte e a Unidade”. Boa parte das canções deste álbum estarão no show, ao lado de novas composições que integrarão seu novo trabalho, ainda sem data de lançamento.

Em comum, ambos têm a capacidade de passear por ritmos, formatos e texturas diferentes; no entanto, e isso é louvável, as composições de Vinícius e Saulo, quando apreciadas em conjunto, soam originais e de identidade robusta.

Com exclusividade para o Azoofa, Vinícius Calderoni e Saulo Duarte contaram detalhes sobre as apresentações que farão nos próximos dias, comentaram o fechamento do StudioSP e o surgimento de novas casas de shows e explicaram como a cidade de São Paulo influencia diretamente a força criativa de ambos.

AZOOFA: Saulo, você vai tocar segunda-feira no Grazie a Dio. Como é a seleção do repertório para um espaço mais intimista como o de lá? 

Saulo Duarte: O Cedo e Sentado é um projeto massa que valoriza a cena independente e eu fiquei feliz com o convite de fazer um dos primeiros shows desse novo momento do projeto, agora no Grazie a Dio. O show vai ser uma mescla do nosso primeiro disco "Saulo Duarte e a Unidade" com algumas canções do nosso novo disco que está em período de gravação. Então, teremos algumas canções novas que vão mais para o Brasil Amazônico, digamos assim, são puxadas por "Mistério no Olhar", canção do primeiro disco. Vai ser um show especial, com algumas surpresas.

AZOOFA: Vinícius, você fará seis shows na sala Crisantempo para lançar “Para Abrir os Paladares”. Como surgiu essa ideia de fazer várias apresentações na sequência e com diversos convidados?

Vinícius Calderoni: Eu adoro a ideia de fazer temporada de um show. Em grande parte isso vem da minha proximidade com o universo teatral, onde isso é a regra e não a exceção. Gosto muito porque o show cresce absurdamente com essa constância de apresentações, ao se fazer uma sequência de shows. Infelizmente esse é um formato pouco usado pelos músicos em geral, e acho que tem a ver com não termos tantos espaços que comportem esse tipo de estrutura - e também não é fácil levar público para várias apresentações.

Esse é um formato, no entanto, que eu já havia testado na Sala Crisantempo em 2010, com bastante sucesso, na ocasião da temporada de shows d'Os 12 clipes de Tranchã, projeto do qual falaremos mais logo adiante. Quando o disco ficou pronto, no final do ano passado, eu pensei que seria muito importante botar a cara no mundo e fazer várias vezes o show, pra fazer o disco chegar às pessoas e consolidar um show que eu vou levar por um ano ou dois. A Crisantempo ajuda, porque é um lugar pequeno, super agradável, com um palco muito grande, que permite que se faça o show com muito apuro em termos de luz e cenografia, coisa que me é muito cara.

Em relação às participações, queria uma temporada que honrasse o nome do disco, e achei que chamar uma série de artistas a quem admiro muito e com quem nunca tinha dividido o palco, era uma ocasião ótimo para abrir os paladares gerais e fazer todo mundo (eu, a participação especial em questão e o público) sairmos da nossa zona de conforto em busca da faísca do novo. Esse é bem o espírito do disco e acho que está reproduzido aqui, com estes primeiros encontros tão especiais- e arriscados, também.

O Grazie a Dio abraçou o projeto Cedo e Sentado, que acontecia no Studio SP. Para vocês, que estão iniciando uma trajetória – o Saulo inclusive tocou num dos últimos shows da casa -, qual o peso do fechamento do Studio? Numa cidade do tamanho e da importância de São Paulo, faltam lugares que deem espaço para novos sons?

Vinícius: Acho que o Studio SP é um ícone da minha geração, que é a primeira geração em que a música independente tomou um espaço nunca antes conquistada, em enorme medida pela disseminação dos trabalhos através da Internet. Foi uma casa que acompanhou e se adequou muito bem a esse espírito do tempo, soube como poucas surfar na onda e formar um público próprio, para si mesma e para os artistas que lá se apresentavam. Lamento muito o fechamento do Studio SP, porque acho que, sim, estamos carentes de espaços que dêem vazão à enorme quantidade de artistas e trabalhos que existem em São Paulo hoje em dia. Acredito que tem espaço pra todo mundo e nesse cenário, quanto mais vitrines, melhor. Na mesma medida que lamento o fechamento do Studio SP, celebro a iniciativa do Grazie a Dio, que permite que um projeto que revelou tantos artistas significativos a um público maior não seja abandonado.

Saulo: O fechamento do StudioSP é ruim, com certeza, por ser uma casa referência de São Paulo e por conseguir abrigar shows variados desde a minha banda até um show como o do Ney Matogrosso, por exemplo. Isso é ruim pra cidade. mas por outro lado é um sinal de que experiências de casas menores e mais pessoais, digamos assim, apontam para o futuro das relações músico x contratante. A Casa do Mancha, o Puxadinho da Praça, a Mundo Pensante, entre outras, são casas que ficaram com essa missão de comportar a demanda de bandas independentes. Vai forçar a cidade a criar mais casas desse tamanho e isso também é bom!

Saulo, você nasceu no Pará e está na capital há pouco mais de três anos. O Vinícius é daqui da capital. Qual a influência da cidade na hora de compor? 

Saulo: As duas cidades, Belém e São Paulo, são importantíssimas e fundamentais no processo de composição dos nossos discos. Esse primeiro "Saulo Duarte e a Unidade", foi todo escrito aqui em SP, após minha mudança pra cá. Foi influenciado pelas paisagens daqui, pelas vivências e a formação da banda.

O nosso segundo disco é voltado pra sonoridade amazônica, não só do brasil, mas da América Latina, passa pela cumbia, pela guitarrada, pelo reggae e as letras também são de experiências vividas e experimentadas lá pela região Norte do Brasil.

Com certeza, a mudança de cidade influencia seu modo de compor até porque a matéria prima do meu trabalho é minha vida.

Vinícius: Acho que todo mundo que nasceu e foi criado em São Paulo, como eu, e aprendeu a amar a cidade, estabeleceu um modo muito singular de criar afeto por esse gigantismo e esse funcionamento caótico. Porque São Paulo não tem as belezas naturais e a topografia de um Rio de Janeiro, por exemplo, mas acho que a força de São Paulo é mesmo a diversidade, a fauna humana rica, a efervescência de megalópole, pra bem e pra mal.

No meu caso específico, diria que tenho quase dependência química com a cidade. A velocidade e a variedade dos acontecimentos em São Paulo, de algum modo, moldaram meu modo de pensar e de me colocar no mundo, então por mais que eu consiga, hoje em dia, curtir uma cidade tranquila ou fazer turismo em outras localidades, passada uma semana já estou com coceira pra voltar pra cá. O espaço urbano já ganhou um ar de casa e familiaridade pra mim, de modo que nada me é estranho, nem as ruas e bairros que não conheço.

Por último, mas não menos importante, acho que a vida cultural de São Paulo é incomparável com o resto do Brasil, e essa é uma das razões pelas quais, fazendo o que faço e sendo quem sou, teria muita dificuldade pra morar em qualquer outro lugar.

Pra finalmente responder sua pergunta só posso dizer: à medida que São Paulo moldou a maneira como sou, ela moldou minha música, que é essencialmente, uma expressão visceral do que me constitui.

Vinícius, em 2010, você realizou um projeto incrível, Os 12 Clipes de Tranchã. Como pretende trabalhar a questão audiovisual neste novo disco?

Vinícius: Eu sou formado em Cinema e tenho escrito para teatro desde 2011 (tenho uma companhia chamada Empório de Teatro Sortido), e posso dizer que são interesses tão grandes e importantes como a música na minha vida. Dessa maneira, acho que sempre procuro jeitos de fundir e aproximar essas linguagens, até pra poder viver mais feliz fazendo um pouco de tudo que amo.

Os 12 Clipes de Tranchã falavam muito dessa convergência entre as artes, de borrar fronteiras onde termina a música e começa o cinema-raciocínio que foi expandido na ocasião da temporada de shows d'Os 12 clipes, que também tinha muito de inspiração teatral.

Agora para o Para Abrir os Paladares, também já estou me movimentando nessa direção. Não que vá ser um novo projeto de 12 clipes (embora esse disco também tenha 12 músicas), porque é um tipo de projeto que consome muito tempo e energia e agora, com muito mais afazeres do que naquela ocasião - shows e gravações do 5 a Seco, do qual faço parte, duas peças teatrais que devem estrear entre o segundo semestre desse ano e o início do ano que vem, etc.- seria impossível de se realizar. Mas já adianto que tenho dois clipes em pré-produção, um a ser dirigido pelo Arthur Warren e Suza, duas vezes indicados ao VMB de Melhor Clipe do Ano pelos clipes que fizeram para o Garotas Suecas, e outro pelo Marco Lafer e Gustavo Moraes, os mesmos diretores do 66, clipe d'O Terno que ganhou o prêmio de Melhor Videoclipe do Ano no Prêmio Multishow. A ideia é lançá-los a partir do segundo semestre entre agosto e setembro.

Saulo, “Onze Horas” foi escolhida para gravação de seu primeiro clipe. Como foi essa experiência? E quando sai o clipe?

Saulo: Foi uma escolha da diretora, minha amiga querida e também paraense Viviane Rodrigues, que gosta muito da canção e já veio com uma idéia pronta na cabeça. Aí nós reunimos as pessoas da nossa confiança pra rodar o clipe. Tem a direção de fotografia de um outro amigo, muito competente, o Eduardo Escariz e na reta final tivemos a alegria de contar com uma atriz, também amiga, que é a Juliana Didone. Então, o clipe foi feito só por gente querida e vai ficar bonito por essa energia.

Vocês disponibilizaram seus álbuns para download gratuito, mas eles também são vendidos em formato físico. Acreditam que este é o caminho, o de dar opções para quem quer comprar e para aquele que só pretende baixar? Como tem sido para vocês o resultado dessa estratégia?

Saulo: Eu acho que não existe fórmula e nem acerto nessa situação. Pra mim, o que fica é a tentativa de que mais gente possa ouvir o som e que ele chegue a mais lugares. Então, procuro colocar na loja, pra quem é de loja, na internet, pra quem é de internet, e tenho comigo nos shows, pra quem é de noite, haha! Mas é isso: quanto mais gente escutando nossa música, melhor.

Vinícius: Acredito demais. A felicidade e o grande barato da Internet é essa real democratização do acesso à arte. A música é um tipo de produto muito propício, pela sua formatação, pra esse tipo de disseminação, então acho que é dever do artista se colocar o máximo possível em contato com seu público, sem interposições e atravessadores. Acho que essa questão de dar opção de baixar com compartilhamento em rede social, pagando quanto quer ou a compra do disco físico é um modelo que pretendo adotar por tempo indeterminado, e que está dando muito certo. Porque acho muito legal haver alguma contrapartida do público quando baixa seu disco - pra que o trabalho tenha, realmente, valor de trabalho -, mas acho muito legal ele poder escolher a maneira como se sente mais confortável em contribuir. Tô muito satisfeito com esse modelo e feliz com os resultados, aumentou muito a procura e a difusão espontânea em redes sociais da minha música, o que ajuda muito a ganhar o capital mais importante da carreira de um artista: o público.

Para conhecer mais sobre o trabalho de Vinícius Calderoni e comprar ou baixar o disco "Para Abrir os Paladares", clique aqui.

Para conhecer mais sobre o trabalho de Saulo Duarte e comprar ou baixar o disco "Saulo Duarte e a Unidade", clique aqui.

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, ex-aluno de futuro promissor, ex-músico de gosto duvidoso e ex-meia direita que já fez gol que saiu no jornal.

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