Descobrindo música em SP: um dia no sebo

A música é um troço surpreendente. Há poucas semanas, por exemplo, eu estava no metrô, em pé com meus fones pretos nos ouvidos, quando tocou Laura Marling e sua Made by Maid.

Forgive me/ I am only a maid

Forgive me / I am only a maid

Ela demora exatos 8 segundos para cantarolar esta parte e é mágico como nesse pequeníssimo intervalo de tempo (o que você consegue fazer com apenas 8 segundos?) as pessoas entrando e saindo do metrô parecem atuar num clipe exato da canção. Seus movimentos, tão humanos e ao mesmo tempo tão marcados, parecem admitir a letra:

Me desculpe / sou apenas um empregado

Me desculpe / sou apenas um empregado

Sete palavras. Oito segundos.

A música precisa de muito pouco pra valer a pena.

***

Sempre gostei desse negócio de usar asterisco para separar um texto de outro. Estou lendo um livro que utiliza-se desta artimanha de forma brilhante e eficiente. Trata-se de “As Jovens Damas Vermelhas Cada Vez Mais Belas”.

Comprei-o num sebo há anos e, desde então, ele foi abandonado na prateleira e ocupava um dos últimos lugares na lista dos livros sobre os quais eu queria ler. Mas, esses dias, por razões ocasionais e misteriosas, comecei a lê-lo, me apaixonei por seu tema (o maio de 1968 na França), pelo uso do asterisco e, especialmente, por um trecho que transcrevo a seguir:

Esperei uma hora. Do primeiro andar chegava uma música, sem dúvida de uma festinha. As músicas me remetiam a lembranças recentes, jogando-me na cara um passado muito próximo mas que já me parecia muito remoto: I'm a Believer dos Monkees, Sunny Afternoon dos Kinks, Just a Gigolo com Louis Prima, Surfin Bird com The Trashmen,  Wild Thing dos Troggs,  Happy Together dos The Turtles, Runaway  de Del Shannon...

Happy Together dos The Turtles!

Tínhamos sido felizes juntos, velha tartaruga de Teddy cujo corpo eu sabia instintivamente que já esfriava? Rousseau tinha atirado em sua cabeça, velho irmão, nessa cabeça barroca, cheia de sonhos, de estrelas, de poças enluaradas, de grande amor que nunca chegou e a revolução que logo se foi? 

Teddy é o melhor amigo de Fredéric, o narrador do livro. No parágrafo seguinte, Teddy será assassinado pelo tal Rousseau, um policial. A última lembrança que Fredéric teve de seu amigo foram as músicas que este escutava numa festa.

Happy Together, do The Turtles!

Uma música de 3 minutos é capaz de nos conectar imediatamente à dor de Fredéric. Não importa quantas páginas o escritor usasse para descrever aquela situação – nós só precisamos saber que tocou Happy Together do The Turtles para entender como pode ser dilacerante a dor de perder um amigo.

***

Música e literatura.

Quando naquela quarta-feira à tarde Laura Marling invadiu meus ouvidos no metrô, eu estava indo em busca de livros sobre música. Não havia regra, valia qualquer coisa: biografia, livro técnico, ficção, coletânea de letras, qualquer coisa que fosse encadernada, utilizasse a palavra para se comunicar e – condição principal – estivesse abandonado em alguma prateleira de sebo.

(pra mim, a grande diferença de uma livraria comum e de um sebo está no fato de que, na livraria comum, você vai encontrar histórias incríveis dentro de cada um dos livros; no sebo, você vai encontrar histórias incríveis dentro de cada um dos livros, mas – tão interessantes quanto – também fora dos livros, isso se você tiver alguma curiosidade de saber como eles foram parar lá, de quem eram antes de estarem nas prateleiras e, principalmente, se você for ousado o suficiente para abri-los e constatar que na primeira página há uma dedicatória escrita à mão com a data de 27/04/71, encontrar um jogo da Mega Sena de 1996 grudado entre as páginas 270 e 271 ou – acredite – deslizar a mão sob as folhas e sentir que há um pouco de areia entre as páginas, uma inequívoca prova de que alguém andou lendo enquanto passava férias na praia).

***

Rua Augusta, Galeria Ouro Velho, loja 102. Passa das 14h quando entro no sebo Chama de Uma Vela. No canto direito, está Maurício Eloy, um homem de estatura mediana, cabelos semi encaracolados e óculos redondos. Seus 43 anos estão somente na carteira de identidade: ele aparenta ter menos.  Usa roupas leves e seus olhos estão grudados no computador fixado em cima de uma mesa lotada de livros.

Ele é o proprietário do sebo, mas eu ainda não sei disso.

Maurício me dá boa tarde sem me dirigir olhar. À esquerda, sentado numa cadeira semelhante às velhas carteiras escolares e rodeado de pilhas de livros, está seu sobrinho Rafael, um garoto de 15 e poucos anos cujos cabelos curtos, camiseta branca e olhar solícito não denunciam seu fanatismo pelo rock pesado - gênero que, aliás, costuma tocar nas caixas de som do sebo, notadamente quando Maurício sai para resolver algum problema e Rafael tem alguns minutos de liberdade musical para fazer da trilha sonora o que ele bem quiser.

Entro e vou passando os olhos pelos livros. Literatura estrangeira, Henry Miller, um ou outro Kafka. Mas estou procurando livros de música. Demoro um pouco, mas logo encontro um peso-pesado da literatura musical brasileira – “Noites Tropicais”, de Nelson Motta.

- Oi, tudo bem? Seguinte, tô procurando livros sobre música. Olhei em Artes mas só tem um.

- Oi.  Você deu uma olhada na nossa sessão de música?

- Aonde? Não achei.

- No andar de baixo.

- Existe um andar de baixo?

Existe, e Maurício muito educadamente faz questão de me acompanhar. Lá embaixo, ele me apresenta à seção de livros de música e sobe de volta ao andar de cima para atender um cliente. Imediatamente começo a ouvir um blues, um blues chorado, que caberia muito bem em qualquer filme em que haja uma encruzilhada. De quem seria aquela voz?

The sound you’re listening

Is my guitar, Lucille

Mestre B.B. King, claro! Quem mais poderia ser?

***

São pouco mais de 60 livros de música dispostos em uma prateleira de metal e que fazem vizinhança à seções como Psicologia e Medicina. Há uma certa ordem alfabética que organizam suas existências, embora um ou outro acabe escapando desta regra, muito mais por culpa dos clientes que pegam um livro  e depois o devolvem em qualquer prateleira do que de Maurício e Rafael, a dupla que parece dominar com destreza todo aquele ambiente e toda a organização que ele necessita.

Dos sessenta, 12 me chamam a atenção. Cito alguns exemplos imperdíveis (se puder, vá até lá e os adquira antes que eu tenha dinheiro suficiente pra fazê-lo). São eles:

“Chega de Saudade”, de Ruy Castro. Segunda edição deste clássico da literatura sobre música brasileira, um perfil irrepreensível da bossa nova e de todo o universo social, político e cultural que a cercou.

Logo na primeira página, uma curiosidade que é, na verdade, uma marca do sebo Chama de Uma Vela: ele te conta o preço que este livro custaria numa livraria comum (“R$ 60”) e logo em seguida te fala o preço que você vai pagar por aquela edição bem conservada e muitíssimo mais charmosa: "R$ 30".

Se existe um primeiro mandamento do marketing de sebos, você acaba de aprendê-lo.

“Furacão Elis”, a biografia definitiva de Elis Regina escrita por Regina Echeverria. Não há preço na primeira página. Mas trata-se de um livro de capa dura que tem uma belíssima foto da cantora e imagens deliciosas lá dentro. Olha só:

***

Estou namorando Elis secretamente quando ouço Maurício descer as escadas. Ele chega ali embaixo, me diz oi calmamente e começa a procurar um livro. Que livro, Maurício? Um livro sobre Interlagos, ele responde. O bairro? Não, o autódromo, ele me corrige. Que bacana. Ele responde: às vezes eu me perco e não lembro onde estão os livros. Imediatamente penso: nada mais normal. O sebo possui de 9 a 10 mil livros em seu acervo.

Três minutos e vinte e dois segundos depois, Maurício diz: achei o livro, vou subir. Fique à vontade.

***

Opa. Um chamou minha atenção. É “John Lennon: FBI Files”. Importado e, por isso, todo escrito em inglês. Com textos e algumas fotos, a obra conta como por anos e anos a polícia americana perseguiu e investigou o ex-beatle, considerando-o uma ameaça à “democracia” do país por conta de seu ativismo político. Abro sua primeira página e leio: “esgotado, R$ 50”.

Horas depois, Maurício me contaria que tenta sempre trabalhar com livros esgotados. Nem sempre consegue, é claro, mas orgulha-se de alguns itens que ninguém tem, só ele. É o caso deste livro sobre John Lennon e o FBI.

Estou fazendo tudo isso sentado em uma banqueta que Maurício educadamente disponibilizou para que eu ficasse à vontade para mergulhar em seu acervo literário-musical. Me levanto um instante, coloco o livro na banqueta e tiro uma foto.

***

Sabe quando você tinha enciclopédia em casa? Pois outro livro que me interessou tinha exatamente aquele aspecto antigo, grandioso e educativo que uma enciclopédia costumava ter. Era verde, mas não o verde plástico de uma Heineken, mas o verde esquecido pelo tempo, desgastado pelos anos e anos que foi passado de mãos e mãos até chegar ali, naquela prateleira de obras musicais no andar de baixo de um sebo da Rua Augusta.

Quem o comprou pela primeira vez? Como sobreviveu à imensa tendência de se jogar fora este tipo de obra? Quem era Dinorah Martins de Alencar, a mulher que assinou a primeira página?

Sua cara cansada, porém, esconde o tesouro que há por dentro. Trata-se de “Folclore Musical”, uma coleção de 5 volumes que discorre sobre:

1. Elementos de Teoria da Música

2. História da Música no Antigo Continente

3. História da Música na América

4. Antologias de Cantos Orfeônicos e Folclóricos – Parte I

5. Antologias de Cantos Orfeônicos e Folclóricos – Parte II

Pego o Volume I, leio suas primeiras linhas:

“Música é a arte de combinar os sons de modo a produzirem sensações especiais ao ouvido e despertarem na alma emoções especiais”.

***

Maurício é fã de Zbigniew Preisner, o compositor austríaco de 58 anos reconhecido por criar as trilhas sonoras dos filmes de Kieslowski. É Preisner que ele cita quando lhe pergunto qual é a melhor música para se ouvir quando se está lendo um livro. “Mas não só ele”, Maurício se corrige, e logo cita o jazzista Chet Baker.

Maurício é professor de arte, fissurado por teorias que você pode chamar teorias da conspiração, entrou na vida de livreiro meio por acaso e, naquela quarta-feira, havia acabado de escrever um poema para sua namorada, uma espécie de presente que ele daria a ela algumas horas depois, junto à uma barra de chocolate.

Maurício está novamente no andar de baixo. Pega um livro de teoria da literatura. Me conta que o proprietário daquele imóvel quer renegociar o valor do aluguel – quer que Maurício pague o dobro a partir do próximo mês. Ele me diz que essa notícia o abalou de tal forma que, há alguns dias, teve de ser internado em um hospital. Era uma crise emocional causada pelo medo de ter de sair daquele ponto da Galeria Ouro Fino, onde está há 5 anos. Ele sabe que seu ponto é valioso.

Mas... o dobro?

“E junho ainda é o pior mês de vendas”, ele me confidencia, enquanto segura o livro de teoria da literatura (há um cliente esperando lá em cima, mas tanto por ser boa prosa quando por saber que, diferente de uma loja convencional, em um sebo nenhum cliente fica entediado enquanto está esperando, Maurício continua a conversa. Eu estou na banqueta e agora seguro um exemplar do maravilhoso livro infatil “Villa Lobos – Alma Sonora do Brasil”, da Editora Melhoramentos. Preço: R$ 20. Esgotado, claro).

Ele para de falar sobre o aluguel, olha em volta, seu rosto não esconde o quanto aquele assunto o martiriza. Diz que vai voltar para o andar de cima para entregar o livro de teoria literária ao cliente. Enquanto sobe as escadas, diz, para mim, mas imagino que muito mais para si mesmo: “vai dar tudo certo”.

Eu concordo com a cabeça e volto a me entreter com a história de Villa Lobos, sem antes, no entanto, pensar que o mundo será muito mais justo no dia em que livreiros faturassem como bancos, e banqueiros passassem mal por não ter dinheiro...

***

Passei 4 horas dentro do sebo. Folheando livros, conversando com Maurício, observando clientes entrarem e saírem, o dia escurecendo lá fora e todo meu espírito, em oposto, clareando a cada segundo que naquele sebo permaneço. Não sei o que é. Talvez seja por perceber que a música é maior do que suas notas, suas classificações, suas letras, refrãos, melodias, vozes, instrumentos.

A música me deu um novo lugar, o sebo.

Me deu um novo amigo, Maurício - um cara com superpoderes, como o de escalar prateleiras utilizando apenas a memória e um velho all-star vermelho. (nando reis já conseguiu definir a amizade em uma frase: "seu all-star combina com o meu, de cano alto...")

E, ao decidir folhear o último livro – “Panorama da Música Brasileira na Belle Époque", de Ary Vasconcelos -, me deparo com uma citação a Herman Hesse, cuja capacidade literária de resumir o poder da música - música e literatura, happy together! - se iguala à força de Laura Marling e seus oito segundos:

Por mais ansiosamente que buscasse, através de muitos outros caminhos de redenção, o esquecimento e a libertação, por maiores que fossem minha sede e meu desejo de Deus, de compreensão e de paz, tudo isto eu encontrava exclusivamente na música. Não era preciso que se tratasse exclusivamente de Beethoven, ou de Bach, não; o simples fato de que a música existe no mundo e de que um ser humano pode comover-se pela harmonia de seus sons até o mais profundo do seu coração, e sentir-se mergulhado nela, somente estas realidades significaram para mim sempre uma consolação profunda e uma justificação da existência”.

***

Sebo Chama de Uma Vela

Rua Augusta, 1371 – Loja 102 Funcionamento: segunda a sexta-feira, das 10h às 20h / sábados, das 10h às 18h
Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, ex-aluno de futuro promissor, ex-músico de gosto duvidoso e ex-meia direita que já fez gol que saiu no jornal.

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