Entrevista: Toni Garrido e a independência do Cidade Negra

"Eu fui, eu fui, eu fui, eu fui, pro outro lado de lá

Eu fui, eu fui, eu fui, Brasil Jamaica"

O refrão é de Downtown, quarta faixa do disco "Sobre Todas as Forças", lançado pelo Cidade Negra em 1994 e que marca a estreia de Toni Garrido nos vocais da banda. Já era o terceiro disco do grupo, mas tinha um sabor de primeira viagem. Foi com este álbum - e com a ajuda parcial desta canção - que o Cidade Negra tornou-se imediatamente a grande banda brasileira de reggae.

De lá pra cá, o grupo enfileirou sucessos - uma lista rápida e de cabeça: Onde Você Mora?, A Estrada, Pensamento, A Cor do Sol, A Sombra da Maldade, A Flecha e o Vulcão, Doutor, O Erê, Firmamento, Eu Também Quero Beijar - mas acabou se separando em 2008 - sem brigas, dizem os músicos, e sim por necessidade de trabalharem sozinhos. No ano segiunte, Toni Garrido gravou um disco solo, Todo Meu Canto, e participou como ator de algumas novelas. Não demorou muito, porém, para ele, Bino e Lazão - da formação original do Cidade Negra - resolverem se juntar para conversar e, quem sabe, fazer um som e, quem sabe, voltar a tocar juntos e, quem sabe, gravar um disco, já pensou?

Pois bem: em 2010, o Cidade Negra voltou e, em 2012, gravou seu primeiro álbum de inéditas em sete anos. "Hei, Afro!" soma 13 canções cujo maior mérito é recuperar a identidade do grupo - você ouve os primeiros cinco segundos e consegue decifrar que aquele é um disco do Cidade Negra.

Neste sábado, 10, o grupo faz o primeiro show da turnê de Hei, Afro! no HSBC Brasil - saiba mais aqui. A apresentação, porém, marca mais do que o pontapé inicial de uma turnê que pretende rodar o país. É também o início de uma nova fase. Sem apoio de gravadoras - exceto pela parceria com a Som Livre na distruibuição do disco -, o Cidade agora é uma banda independente cujo lema é um só: trabalho.

E Toni Garrido está orgulhoso e animado com os desafios e as possibilidades deste novo momento. Nesta entrevista exclusiva para o AZOOFA, o cantor fala sobre os planos do grupo para os próximos anos, a importância da Jamaica como referência musical e aponta Os Paralamas do Sucesso como referência para o futuro da banda.

AZOOFA: O último disco do Cidade é o Hei, Afro!, que saiu ano passado. Ele marca um novo momento, com o seu retorno ao grupo. O disco está bastante contemplado no show deste sábado, vocês tão tocando muita coisa do novo disco?

Toni Garrido: Cara, por alguns aqui, nós somos três, a gente tocaria o álbum inteiro, por que quando você faz o show do álbum, pô.. nada mais justo com a canção que você libertá-la, fazer ela sair do álbum e ir pro show. Então é uma experiência que tem que acontecer, você não faz uma música pra ela ficar gravada no CD, você faz uma música pra ela sair pra casa dos outros e pro seus ouvidos, e pra outros tocarem também. Eu acho que o Hei, Afro! tem uma média de 6, 7 musicas do álbum novo. Para um total de 13 faixas, tá bom. Eu tocaria as 13, mas tem um detalhe: aí você tem um show muito longo também, o público tem um limite agradável pra ver um show sem começar a doer o quadril, sem começar a doer o ouvido, é muita coisa. Então com 1h40 de show, tem muito espaço pra tocar musicas novas e canções que o Cidade já tem que as pessoas não sabem, algumas canções lado B, tem de tudo um pouquinho...

Tem algum cover aí que vocês tão preparando?

Tem uma couve com alface e tomate e... (risos). Brincadeira. Tem o Somewhere Over The Rainbow, na real é mais que um cover, é a primeira vez que o Cidade grava em inglês. Os álbuns que a gente tem fora do Brasil a gente não gravou em inglês, é sempre ou coletânea ou alguns álbuns que a gente tinha acabado de fazer e tinha um parceiro pra poder distribuir na Europa também, mas a gente nunca fez não.

O Cidade Negra, hoje, é uma banda independente. Como que essa nova fase tá influenciando na construção do show? Vocês se sentem de repente mais livres, menos obrigados a fazer concessões?

Em relação à gravadora, quer dizer, ela não existindo, a Som Livre é nossa parceira e ela se limita de certa forma a distribuir. Esse é o acordo muito especifico muito claro, muito aberto que eles fizeram com a gente. A gente sabe que é assim o contrato, então desde sempre, a gente sabia que essa nova fase pelo menos por enquanto é uma fase aonde as estruturas de gravadora que faziam as músicas chegarem às casas das pessoas - divulgação, rádio e tal -  a gente não teria.  Mas é.. como sempre teve, a gente teria que criar essas oportunidades, e é  o que a gente tá fazendo agora de certa forma falando com você. A gente tem a nossa assessoria de imprensa e tudo o mais, a gente rabisca lá, tentando fazer contato com boas empresas, marcando as entrevistas, fazendo as audições, e é isso. Tamo na sequência.

O Cidade teve um sucesso tremendo no meio da década de 90 pra virada dos anos 2000, e entrou na década passada muito bem. Depois teve uma mudança de formação, você saiu e agora voltou. Quais são os planos da banda hoje?

Enquanto não tem colisão, não tem nem o que pensar, é... eu acho assim, quando tiver colisão é oficina. A gente já tem tamanho, idade, vivência coletiva pra entender isso, que quando tiver uma confusão, vamos conversar, vamos ver o que a gente faz. A princípio a gente voltou faz 2 anos e meio e não teve confusão nenhuma. Você só se preocupa quando você tem que se preocupar. No momento, a gente não tem nada com o que se preocupar. É só trabalhar. É óbvio que a ideia é somar mais 30 anos de trabalho, porque a independência do trabalho a gente ainda não tem, a independência financeira muito menos. Então, a gente ainda vai trabalhar muito na nossa vida, e com muito prazer. A vida tá seguindo, os filhos estão crescendo, tem conta pra pagar pra caramba (risos). Agora é trabalhar, trabalhar, trabalhar, sem nenhuma expectativa que não seja a de trabalhar muito. E numa boa, numa ótima.

Tem alguma banda em que o Cidade Negra se inspire, nesse sentido de gestão de carreira?

Eu acho que o Paralamas é um grande exemplo. Acho que é um ótimo referencial quando a gente pensa em trabalho., principalmente porque eles são uma banda de rock e de reggae. E é uma banda que o Cidade Negra está sempre próximo, sempre perto. Então, pra gente eles são naturalmente um exemplo de administração de carreira.

Eu lembro que em 2002 vocês gravaram uma música deles, Soldado da Paz, que depois eles também gravaram no primeiro disco pós acidente do Herbert...

Era incrível essa versão. Mais um exemplo da relação estreita que a gente tem com os caras.

Me corrige se eu estiver errado: no começo da carreira, o Cidade Negra teve alguma ajuda, algum apoio dos Paralamas?

Foi isso. Teve uma história que a Lucy (Needham, esposa de Herbert Vianna que faleceu no acidente de ultraleve que deixou o músico paraplégico, em 2001) trabalhava na BBC de Londres e ela veio fazer matérias no Brasil, e uma das matérias que ela estava fazendo era para mostrar grupos novos, mas especialmente grupos que vieram de lugares teoricamente excluídos pela sociedade. E ela acabou descobrindo o Cidade Negra lá na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. Era os anos 90 e a Baixada era considerada o lugar mais violento do mundo pela UNESCO. Por isso, era uma coisa muito radical a ideia de você ter uma banda nascendo ali. A Lucy viu e observou isso – um movimento louco surgindo lá – e foi até lá entrevistar o Cidade no fundo da nossa garagem. No fundo da garagem, não: no quintalzinho que ficava escondido ali no fundo da garagem.

Hoje em dia a gente tem o Criolo, por exemplo, que é talvez o grande nome dessa nova geração, faz shows no Brasil e lá fora, mas não toca na rádio. Como você vê isso, esse novo momento em que o sucesso não necessariamente passa pelo crivo da programação das rádios? O Cidade fica ligado se as novas canções estão tocando nas rádios?

Não, pra gente a fase é: tudo que dá pra tomar conta, a gente quer. Hoje em dia, você depende de um esforço coletivo de muita gente para chegar ao resultado final – o disco, o show etc. Para você continuar tendo shows, você precisa chegar até aos contratantes, ao público – e isso pede uma organização muito grande. Então, continua sendo muito importante esse tipo de veiculação, porque a banda é uma instituição musical, mas que também é um negócio, uma sociedade de trabalho. E nenhum de nós está aqui para piorar na vida, seja no sentido espiritual, afetivo e também material. A gente pensa sempre em melhorar, progredir, ter felicidade e gerar felicidade para as outras pessoas. Se não, você corre o risco de ter um trabalho que é sensacional, mas que não funciona, não chega às pessoas.

Depois de 28 anos de estrada, ainda dá pra ficar nervoso antes de um show como este de sábado?

Nós somos uma banda que toca junto há muito tempo, que dá certo, que se entende. E isso é muito difícil e ao mesmo tempo muito legal. Nossa pílula da eterna juventude é ter uma banda. É estar sempre com essa energia renovada. E a memória que mantém isso é a do primeiro encontro. É como um encontro amoroso, você sempre se lembra do primeiro e é com esse sentimento que você vai trabalhar. Conosco é assim.

E vocês continuam ouvindo muito reggae?

Muito, o tempo todo, o tempo todo. E o legal é que tem sempre muita coisa nova. O Rael da Rima, por exemplo, que mistura reggae com hip hop. Tem a Lurdez da Luz, aí de São Paulo, que eu acho sensacional, é legal pra caramba. Toda vez que eu a ouço, eu fico bem impressionado com ela. O som dela é maneiríssimo. A questão é a seguinte: reggae de alto nível está sendo feito no Brasil há muito tempo. A galera vem abrindo mão daquela coisa tradicional do reggae, e está deixando-o mais personalista, mais artístico mesmo, mais contemporâneo. E esse pessoal mais novo, eu falo novo mesmo, de 15, 16, 17, 18 anos, sabe de coisas que a gente – que tá rondando os 40 – não sabe, nem imagina. É um universo que não chega até a gente. Então, nós temos que ficar fazendo essa ponte com eles o tempo todo, temos que observar os amigos mais novos, os nossos filhos... eu acho que a alimentação está toda aí.

Porque que a gente gosta tanto da Jamaica? Porque quando a gente vai à Jamaica, a gente vê coisas que daqui a 5, 6 anos vão ser a novidade. Não é que o ano que vem vamos ver o que acontece na Jamaica hoje. Não. O negócio lá é tão adiantado, efervescente, fervilhante... É como os japoneses em relação à tecnologia, sabe? Você tá usando um celular cheio de utilidades, mas lá no Japão o cidadão já está usando algo três vezes mais evoluído. É a mesma coisa na Jamaica. Eles são mais evoluídos não só em relação ao reggae, mas na música como um todo, os beats nascem lá, as loucuras nascem lá... Lá tem louco e alucinado pra caralho, fazendo de tudo lá. E aí, a galera vê que... o hip hop nasceu lá, né? O toast nasceu lá, e foi a partir do toast é que nasceu o hip hop. Então, a Jamaica realmente é o lugar mais profícuo de ideias.

Abaixo, Toni Garrido destaca 4 músicas de Hei, Afro! que estarão no show deste sábado:

Hei, Afro!

Pelo próprio tema, que resume todo o conceito do álbum.

Ignorous Man

Ela tem gerado muita polêmica, porque discute a religião, o poder da religião no Estado, a opressão da religião nas pessoas. Isso acaba batendo em todo mundo, porque todo mundo acredita em alguma coisa. Até quem não acredita em nada acredita em alguma coisa, que é nada. Sempre tem alguma coisa pra você defender.

Ninguém Pode Duvidar de Jah

A gente conseguiu começar a quebrar o bloqueio das bandas independentes. O fato de o Cidade Negra já ter sido muito beneficiado pela estrutura e pela máquina [das gravadoras], isso não significa que agora a gente não seja reconhecido agora como alguém que está fora da nossa máquina. Hoje nossa divulgação, por exemplo, é muito mais no acordo, no que a gente consegue na troca, do que propriamente envolvendo dinheiro. Então, o approach é muito diferente e muito legal ao mesmo tempo. Essa música é o registro de que dá certo você ser muito profissional sem ter aquela visibilidade toda que a gente tinha com a máquina. Eu acho que o espírito é: “dá pra fazer, dá pra ir”. Eu acho que os independentes ensinaram isso pra gente... ao mesmo tempo que também o Cidade sempre foi independente. Nós começamos a ter gravadora em 1991, mas antes disso, de 1986 até 1991, a galera aqui estava totalmente na independência, na batalha, correndo atrás, comprando seus equipamentos, montando, fazendo shows, guardando, viajando nos próprios carros – quando tinha carro – ou viajando nas Kombis. Então, a gente sabe trabalhar dessa forma. Não falta disposição e nem garra.

Contato

É uma canção interessante, que tem muito a cara do Cidade Negra e que vem tocando as pessoas por conta da letra. Ela fala que quando não se sente a falta de ninguém, é porque você pode estar sozinho demais. É difícil o ser humano que não sinta a falta de nada ou de ninguém. A gente nasceu pra viver coletivamente.

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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