Águas Claras: A Quermesse Woodstockiana

[caption id="attachment_1037" align="aligncenter" width="417"]Festival de Aguas Claras Foto: Carlos Eduardo Caramez[/caption]

No mês de agosto, mais precisamente dias 15, 16 e 17, se comemora o aniversário do festival de música mais famoso do mundo, o de Woodstock. Realizado em uma fazenda na cidade de Bethel, estado de Nova York, em 1969, essa reunião de shows que abrigou cerca de meio milhão de pessoas e entrou pra história, inspirou uma série de festivais em todo o mundo, inclusive aqui no Brasil.

O Festival de Águas Claras é um exemplo. Conhecido por essas bandas como "Woodstock Brasileiro" ou "Uma Grande Quermesse Brasileira", foi idealizado por um jovem de 22 anos, filho de um fazendeiro muito conhecido nos arredores de Bauru, interior de São Paulo. Antônio Checchin Júnior, o Leivinha, era apaixonado por música e teatro. Em 1975, após rodar o mundo viajando, resolveu escrever e montar uma peça, realizando os ensaios, juntamente de um grupo musical, ao ar livre, nas terras da Fazenda Santa Virgínia, propriedade de seu pai, o Seu Toninho. Quem passava por lá e via o que estava acontecendo, ficava maravilhado com o teor flower-power do projeto e queria participar de alguma forma. Assim, a montagem despretensiosa acabou ganhando os ouvidos de muita gente, inclusive da classe artística (reza a lenda que Raul Seixas chegou a entrar em contato com Levinha para participar de uma das sessions de música/teatro na Fazenda) e a ideia de realizar um grande festival aos moldes de Woodstock nos hectares de Seu Toninho, em Iacanga, veio à tona.

Foi difícil para Leivinha, em plena ditadura militar, conseguir permissão para a realização do evento. Só após muita insistência e diversas visitas a "órgãos de segurança", como o antigo D.O.P.S, que a permissão lhe foi concedida (não antes porém, de assinar um termo de responsabilidade por todos os "atos de subversão" que pudessem rolar).

Durante os três dias de festival, o que se viu foi muita paz, amor e cultura. Paralelo ao universo musical, uma exposição de arte também aconteceu no "Águas Claras", que contou com uma infra de fazer inveja aos festivais de cidade grande. Não havia problema de banheiros, chuveiros foram improvisados no córrego, tendas de comida e bebida não deixaram ninguém na mão e, pra completar, um alambique podia ser facilmente encontrado nas redondezas da propriedade, gigante e mais-que-propícia para abrigar as 30 mil pessoas que passaram por lá e armaram suas barracas (no melhor dos sentidos) para conferir artistas como Mutantes, Rock da Mortalha, Som Nosso de Cada Dia, Patrulha do Espaço, Walter Franco, Jorge Mautner, o Terço, entre outros. Arnaldo Baptista estava entre as atrações (ia tocar com a "Patrulha"), mas segundo relatos passou os três dias tocando flauta em cima de uma árvore, desistindo do show.

O festival foi um sucesso, e apesar de não ter sido registrada nenhuma ocorrência, uma nova edição só se realizou seis anos depois. A justificativa da polícia era de que o uso de bebidas alcóolicas e entorpecentes, assim como a prática de atos libidinosos e propagação de ideias subversivas, naquele tipo de ambiente, eram mais propícios de acontecer.

Além das edições de 1975 e 1981 (esta mais pop, com propaganda na TV e um line-up mais conhecido, com nomes como Gil, Gonzagão, Alceu Valença, Hermeto Paschoal, Raul Seixas, Zé Geraldo, Itamar Assumpção e Egberto Gismonti lançando o seu então novo LP Circense, em meio a palhaços usando pernas-de-pau rodeando o palco), tivemos o Festival de Águas Claras em 1983 (com a participação ATÉ de João Gilberto) e, finalmente, o último em 1984, que por exigência dos patrocinadores, aconteceu às pressas e sem qualquer planejamento, ficando um pouco atrás das outras montagens.

Com o falecimento do Seu Toninho, proprietário da Fazenda Santa Virgínia, Leivinha deixou de lado o comando dos festivais e partiu pra novas empreitadas. Ficou a lembrança, principalmente do primeiro Festival de Águas Claras, onde, em plena ditadura militar, jovens brasileiros puderam experimentar um pouco da mais pura "hiponguice", pegando carona e acampando para curtir, no meio do nada, três dias de música e, principalmente, liberdade.

Quem escreveu
Daniel Branco

 

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