Alta Fidelidade em SP: uma visita ao Centro e a descoberta de um Rob Fleming brasileiro

1.

Em julho deste ano, a Companhia das Letras lançou sua edição do clássico “Alta Fidelidade”, de Nick Hornby, que deu origem ao filme de mesmo nome protagonizado por John Cusack em 2000. A história gira em torno do trintão Rob Fleming, dono de uma loja de vinis e fitas cassetes que está à beira da falência e cuja namorada, Laura, o deixou pelo vizinho do andar de cima. Entre curiosas tiradas sobre amor, família e sexo e a maníaca obsessão por produzir listas da maior importância – como, por exemplo, quais são os 5 melhores discos pra se ouvir numa manhã chuvosa – somos apresentados a seu mundo caótico, divertido e obsessivamente pop. O livro vendeu milhões de cópias, consagrou Hornby como um dos grandes ficcionistas do nosso tempo e virou uma espécie de bíblia para aqueles que dedicam suas vidas aos discos de vinil.

2.

“Ser infeliz realmente significava alguma coisa antes. Agora é só uma aporrinhação, tipo um resfriado ou falta de dinheiro”. (página 10)

Estou lendo o livro há 3 dias e me sinto muito mais imerso à vida ficcional de Rob Fleming do que à vida real de Eduardo Lemos. De modo que estava com uma vontade enorme de sair pra rua e entrar em lojas de vinil, caçar histórias, raridades, observar a dinâmica de um lugar assim – e aí decidi que este seria o tema do meu texto de hoje. Mas logo de cara cometi um erro primário: saí de casa sem pauta definida. Eu não sabia o que eu queria. Mas essa falha pode, às vezes, se transformar num convite à aventura, ao inesperado, ao acaso. E foi o que aconteceu.

3.

“Minha loja se chama Championship Vinyl. Vendemos punk, blues, soul e R & B, alguma coisa de ska, outro tanto de indie, algum pop dos anos 60 – tudo aquilo que o verdadeiro colecionador procura, conforme diz a frase na vitrine, em irônica inscrição retrô. Estamos localizados numa rua tranquila de Holloway, cuidadosamente escolhida de modo a atrair o mínimo de passantes e clientes ocasionais”.  (página 43)

A Galeria “Nova Barão” poderia se chamar, também, Galeria “Nova Galeria do Rock” – porque a mais famosa vai ano a ano perdendo sua veia musical e transformando-se muito mais num espaço dedicado a roupas, acessórios e ao universo do skate, do que propriamente ao gênero que lhe dá nome. Esta missão, aos poucos, está sendo repassada para a Galeria “Nova Barão”. Localizada entre a rua Sete de Abril e a Barão de Itapetininga, no centro de São Paulo, tem um primeiro andar que na verdade é um disfarce contra clientes chatos – ali estão lojas de roupas, salões de cabelereiro e lanchonetes, protegendo de gente inconveniente o pessoal que habita o segundo andar: exatas 15 lojas especializadas em vinil, desde a Extreme Noise – focada em metal – até a The Records, que só vende discos de punk rock.

4.

“Não é legal fingir que uma relação tem futuro quando as coleções de discos divergem violentamente, ou quando os filmes preferidos de cada um nem conversariam caso se encontrassem numa festa”. (página 117)

Imagine então a cara do sujeito-sem-pauta-definida quando ele subiu as escadas rolantes e deu de cara com esse mundo de opções. Fiquei andando ali por uma hora, olhando vitrines, entrando em uma ou outra loja, falando com funcionários e donos. Tudo muito interessante, mas o acaso – a pauta – ainda não tinha aparecido. Nada acontecia. Até que saí de uma loja e dei de cara com um conhecido. O cara é DJ de música brasileira e falei com ele apenas uma vez, mas me lembrei do rosto e porque o cara usa um chapeuzinho anos 20 indefectível. “Pronto!”, pensei. “Vou perguntar se ele conhece um dono de loja que seja meio Rob Fleming. Essa vai ser a pauta: achar um Rob Fleming brasileiro”. Mas o cara passou reto por mim. Fiquei olhando-o caminhar  pelos corredores externos da galeria, sem saber se deveria ir atrás dele, cutuca-lo delicadamente e dizer

- E aí, cara, lembra de mim? Então... você não teria aí um Rob Fleming pra me indicar aqui nessas redondezas?”.

Não fui atrás dele, claro, mas vi que ele entrou numa loja – Locomotiva Discos – e rumei pra lá. Interpretei isso como um sinal: encontrar um conhecido -> e isso me despertar a ideia de pauta -> conhecido que me despertou a ideia de pauta entrar numa loja de discos -> loja de discos tem sempre um dono.

É um sinal bastante fraco, eu sei, mas era a única coisa que eu tinha, então eu fui em frente.

5.

“A loja cheira a cigarro velho, mofo e plástico de capa de disco, e é um ambiente apertado e escuro e sujo e entulhado, em parte porque era assim que eu a queria – é como uma loja de discos deve ser, e só mesmo fãs de Phil Collins pra querer comprar naquelas coisas que, de tão limpas e asseadas, parecem lojas de artigos pra casa – e em parte porque nunca tenho paciência pra uma faxina e uma reforma”. (página 45)

Entro na Locomotiva. Discos por toda parte, como é de praxe, mas muito bem organizados, como não é de praxe. Duas pessoas me fazem companhia: um cliente (que não era o DJ, acho que ele subiu para o segundo andar da loja, acessado por aquelas escadinhas em caracol) e um funcionário. O cliente – vocês acreditam em mim? – é um garoto que estudou comigo na faculdade. Fizemos juntos um trabalho inútil de alguma aula inútil, e desde então nunca mais o vi. Ele está atento à seção “Indie”, que conta com coisas bastante modernas, como Black Keys, Yeah Yeah Yeahs e Queens of The Stone Age - em vinil. Eu não quero encontrá-lo, então vou pra seção “Classic Rock”, dei um pulo na “Soul/Funk” e depois visitei “Música Brasileira”. O colega jornalista vai embora sem levar nada, o funcionário coloca um som maneiríssimo pra tocar, eu pergunto que som era aquele (“Root 70”) e iniciamos um papo. O nome dele é Glauco. Trabalha na Locomotiva há 1 ano e meio. É músico e DJ. Até então, havia trabalhado somente em bancas de jornais. Falamos sobre Nick Hornby, Alta Fidelidade, Nick Drake, Leonard Cohen e a minha busca por um Rob Fleming. Ele sugere que eu procure seu chefe, Marcio Custódio, dono da loja. Sou obrigado a fazer a pergunta mais imbecil de toda minha vida (mas totalmente necessária):

- Mas ele é tipo o Rob Fleming?

Glauco faz que sim com a cabeça. “O Marcio tá na nossa outra loja, aqui mesmo na galeria, mas que fica lá do outro lado. Vai lá”. Fui. Marcio topa falar comigo na hora – eu não menciono que estou em busca de um Rob Fleming para não assustá-lo. Saímos da loja, descemos a escada rolante cujos degraus estampam propagandas de cabelereiros, lanchonete e lojas de vinil, atravessamos a 7 de abril, entramos numa galeria comercial e vamos ao “Café no Vidro”, um local bastante simples – trata-se de um balcão com alguns bancos altos -, mas que esconde um tesouro: ali prepare-se cafés no coador e servidos em copos americanos (achei que só aqui em casa fazíamos isso). Eu não sabia de nada disso até então, então pedi logo um espresso, mas tanto Marcio como o atendente me avisam que ali não tem espresso. Eu penso: “Mas que merda de cafeteria é essa que não vende espresso? Deve ser aquelas coisas indianas, chinesas, naturebas”. Não era: tomei um dos melhores cafés de São Paulo por – preparem-se – R$ 1,50.

6.

Estamos os três de bobeira no trabalho, nos preparando pra ir embora e esculhambando as listas uns dos outros de melhores primeiras faixas de todos os tempos (as minhas: “Janie Jones”, do Clash, no disco The Clash; “Thunder Road”, do Bruce Springsteen, em Born to Run; “Smells Like Teen Spirit”, do Nirvana, em Nevermind; “Let’s Get It On”, do Marvin Gaye, em Let’s Get It On; e “Return of The Grievous Angel”, do Gram Parsons, em Grievous Angel”. (página 145)

Marcio tem 33 anos, é mais barbudo do que eu e está vestindo uma camiseta do Corinthians modelo retrô, sem número nas costas e sem patrocinador. Usa óculos de aros pretos e fala rápido num sotaque paulistano típico mas não carregado. Explico para ele a ideia de usar algumas passagens do livro como referência para a nossa conversa. Ele diz que já leu o livro em português e em inglês. “Aliás, eu li todos os livros do Nick Hornby, e gosto muito de todos. É um dos meus escritores preferidos”. Boa.

7.

“Consigo me manter graças às pessoas que se dão ao trabalho de, aos sábados, sair de casa especialmente pra vir comprar aqui – rapazes, sempre rapazes, com seus óculos à la John Lennon, jaquetas de couro e montes de sacolas de compras de formato quadrado – e às encomendas por correio (...); jovens que parecem passar uma parte desproporcional do seu tempo à procura de singles desaparecidos dos Smiths e de discos do Frank Zappa marcado com um “ORIGINAL NÃO RELANÇADO”. Os caras estão próximos da loucura que não faz mais diferença”. (página 43)

“Ainda que muita gente apareça por aqui, só uma pequena porcentagem efetivamente compra alguma coisa. Os melhores clientes precisam comprar um disco aos sábados, mesmo que não encontrem nada que queiram realmente; se não voltarem pra casa carregando uma sacola de compras fina, formato quadrado, se sentem desconfortáveis”. (página 96)

Mostro a Márcio esta passagem do livro. Ele lê atentamente, pega o copo de café na mão, mas não toma o líquido antes de falar. “Primeiro, você precisa entender que fãs de música são pessoas excêntricas e sensíveis, senão, ele não seria obcecado por música. Donos de lojas de discos têm fama de ranzinzas, e não é à toa: alguns clientes são tão chatos como eu”, diz, enquanto sorve outro gole de café. “Tem uns caras que colecionam a mesma edição do disco, querem ter 10 edições do mesmo disco. O cara fica comparando as edições: se ele tem um disco original da época prensado na Inglaterra, ele vai em busca do mesmo disco, mas prensado nos Estados Unidos – e se, no meio do caminho surgir um feito na Espanha, ele tá topando também. O lance de música tem isso, um fetiche de capas e edições. Eu também tenho, não tão agudo, mas os meus favoritos eu gosto de ter em vários formatos. Eu tenho 5 variações do disco “Station to Station”, do David Bowie, por exemplo”. Peço para ele contar uma história curiosa envolvendo clientes obsessivos. “Cara, tem muitas. Uma vez um cara queria comprar um disco, mas ele não sabia se era bom. Ele tava muito afim daquele disco, e eu só tinha 2 cópias lacradas. Quando o cara quer ouvir um trecho de álbum, eu coloco uns vídeos no Youtube pra pessoa ouvir, mas nesse dia eu tava sem internet. Então eu abri o disco pra ele, tirei o lacre e coloquei na vitrola. Ele adorou. “Vou levar, vou levar”, ele falou.  Aí eu peguei o disco que eu abri para ele, na frente dele e coloquei na sacola. Ele falou "Não. Esse não. Não tem como você me dar o outro?”. Aí eu respondi: “Mas eu abri na sua frente, você viu!”. E ele: “Mas eu quero esse disco lacrado”. Eu descobri depois que alguns colecionadores tem verdadeiro tesão em tirar o lacre. O cara chega em casa e ele vai deslacrar o LP”.

Mas não é sempre assim, ele garante. “Tem muitos clientes bem legais, que me ensinam muito sobre música, me indicam discos e, de tanto frequentarem a loja, acabam virando grandes amigos”.

8.

“O Barry enfia a mão no bolso da jaqueta de couro, tira uma fita, coloca no som e escancara o volume. Em segundos a loja está trepidando ao som da linha de baixo de “Walking on Sunshine”, do Katrina and the Waves. É fevereiro. Faz frio. Está chovendo. A Laura foi embora. Não estou a fim de ouvir “Walking on Sunshine”. (...)

- “Desliga isso, Barry”.

(...)

(Barry) - Desde quando esta loja está sob um regime fascista?

(Rob) – Desde quando você entrou nela com essa fita.

(...)

(Barry) – Pensei que essa fita ia servir, sabe, pra gerar discussão. Estava aqui pronto pra perguntar quais são, pra vocês, os cinco melhores discos pra se ouvir numa manhã chuvosa de segunda e tal, e vocês vem e estragam tudo”. (páginas 49-50)

Rob Fleming nunca respondeu a essa pergunta. No livro, ele vai pra casa “escutar Beatles”, “provavelmente Abbey Road, mas vou pular Something”. Marcio Custódio, no entanto, aceita o desafio e me envia, horas depois por e-mail, sua decisão final sobre quais são os 5 melhores discos pra se ouvir numa manhã chuvosa de segunda-feira:

01. Lloyd Cole - Morning Is Broken

02. Suede - When The Rain Falls

03. Tres Chicas - Only Broken

04. Gram Parsons - Thousand Dollar Wedding

05. Big Star - The Ballad of El Goodo

E esse lance de brigar pra escolher o som que vai rolar na loja? Tem isso mesmo? “Bom, aqui na Locomotiva, quem manda no som sou eu”, Marcio diz, rindo. “É uma das poucas coisas que não abro mão. Tem algumas bandas que são muito boas de ouvir na loja”, continua, e tal qual Rob Fleming, puxa uma lista rápida de 5 artistas diferentes que são protagonistas das caixas de som da Locomotiva.

01.Steely Dam

02. Big Star

03. Chet Baker

04. Slayer

05. John Coltrane

9.

“Olhar de cima pra uma sala cheia de cabecinhas se agitando ao som da música que você escolheu é algo que levanta o astral, e, durante aqueles seis meses em que a casa teve bom movimento, fui mais feliz do que nunca. (página 89)

Aos poucos, nossa conversa vai mostrando que as semelhanças entre Marcio e Rob vão muito além do fato de ambos serem donos de loja de vinil e curtirem música alucinadamente. “A gente falando, eu percebo que eu tenho mesmo uma vida bem Rob Fleming. Eu morei na Seven Sisters Road, bairro onde se passa a história. Eu fui DJ lá. [Rob também] O Nick Hornby mora no norte de Londres, bem perto do estádio do Arsenal, aliás. Eu morei por ali uns 4 anos. Então, eu frequentava diversos lugares que ele cita nos seus livros, não só no Alta Fidelidade”, ele me conta, enquanto eu agradeço por ter escutado o Glauco. “E, em Londres, eu sempre fui DJ de bairro, como o Rob. Eu nunca toquei no centro de Londres, onde ficam os grandes clubes – até porque meu som é meio soul, funk, um tipo de música que é bem a cara de um pub de bairro. Que, aliás, é onde as coisas mais legais acontecem”.

10.

“Por uns anos, na década de 80, fui DJ de uma casa noturna em Kentish Town, e foi lá que eu conheci a Laura. Não chegava bem a ser uma casa noturna, era mais uma sala na parte de cima de um pub, na verdade. (...) Chamávamos o lugar de Groucho Club” (página 88)

Marcio também conheceu sua atual namorada, Larissa Godoi, quando estava discotecando em uma casa noturna de São Paulo. “Tive quatro namoradas na vida e todas eu conheci quando estava tocando”, diz ele, surpreso, tanto quanto eu.

“Por falar nisso, as cinco mais pra lotar a pista do Groucho:

Smokey Robinson and The Miracles – It’s a Good Feeling

Bobby Bland – No Blow No Show

Jean Knight – Mr. Big Stuff

Jackson Five – The Love You Save

Donny Hathaway – The Ghetto” (página 88)

Como sabemos, Marcio já tocou em diversos pubs de Londres, tão ou mais peculiares que o Groucho. Ninguém melhor do que ele pra fazer uma lista das 5 mais que ele tocaria no Groucho pra por a galera pra dançar:

01. Brunetta e Suoi Balubas - Baluba Shake

02. Jens Lekman - Friday Night At The Drive-In Bingo

03. Freda Payne - Band Of Gold

04. Les Rita Mitsouko - Someone To Love

05. The Autumn Leaves - You Didn't Say A Word

11.

“Durante o tempo que a Laura morou aqui, os discos foram organizados por ordem alfabética; antes, a organização era por ordem cronológica, começando com o Robert Johnson e terminando com, sei lá, o Wham!, ou algum som africano, ou qualquer outra coisa que eu estava ouvindo quando a gente se conheceu. Hoje, porém, estou a fim de algo diferente, então tento lembrar a ordem em que comprei os discos. (...) Tiro todos das estantes, faço pilhas que recobrem o assoalho da sala, procuro “Revolver” [Beatles] e começo por ele; quando termino, sou perpassado por um sentido de identidade, pois, afinal, isto aqui sou eu”. (página 59)

Nos 8 anos que morou na terra de Nick Hornby, Marcio trabalhou em bancas de jornais do 12h às 18h e, à noite, como DJ. A Locomotiva nasceu em 2010, logo que ele retornou ao Brasil. Seu irmão mais velho, Gilberto, já vendia LP’s pela internet e deu a ideia de montarem uma loja física. Marcio, que a vida inteira viveu de música – além de DJ, ele trabalhou como produtor de festivais - topou a sociedade. Naquele momento, lembrou que na verdade toda sua trajetória no meio musical começou justamente por conta de um vinil que surgiu em uma insólita visita ao supermercado. “Meu primeiro disco de vinil foi comprado no Carrefour, cara. Minha mãe que me deu: “Appetite for Destruction”, do Guns’n Roses. Eu tinha 9 anos e foi ali que começou a minha coleção. Na época, eu e meu irmão ouvíamos muita música, ficávamos assistindo uns programas de clipes pré-MTV e eu comecei a me interessar por discos. Dali até 1993, eu comprei muito vinil. Depois veio a era do CD, e eu também entrei nessa de colecionar CD’s. Hoje tenho 1.500 vinis e 7.000 CD’s em casa”.

Marcio organiza seus discos por ordem alfabética. “É o melhor jeito, pois gosto de muitos estilos, e muita coisa que tenho é difícil de classificar. Eu teria que inventar gêneros musicais. Achei melhor não complicar. É mais simples. Gostaria de organizá-los frequentemente, mas não tenho muito tempo pra isso. Devido ao ritmo da loja e o fluxo de trabalho, passo pouco tempo em casa. Minha coleção é relativamente bem organizada, mas já tem muita coisa fora do lugar. É uma zona considerável”.

12.

“Exatamente uma semana depois da Laura ter ido embora, recebo um telefonema de uma mulher de Wood Green que tem alguns singles pelos quais ela acha que talvez possa me interessar. Normalmente não me dou ao trabalho quando aparece esse pessoal fazendo a limpa em casa, mas a mulher parece saber do que fala: murmura coisas sobre selos brancos e capas e todo tipo de troço a sugerir que não estamos tratando só de uma meia dúzia de discos riscados da Electric Light Orchestra que o filho deixou pra trás quando foi morar sozinho” (página 79)

Este é o início de uma polêmica e surreal passagem de “Alta Fidelidade”, uma espécie de prova-dos-nove para quem trabalha com vinil. Rob recebe essa ligação e vai até lá e...

“É a melhor coleção de discos que já vi na vida. Não faço ideia de quanto oferecer. Aquele lote deve valer pelo menos uns seis ou sete paus e ela sabe disso. Da onde vou tirar uma grana dessas?

(Mulher) Me dê 50 pilas e pode levar o quiser hoje mesmo.

Rob não entende. Pergunta se é material roubado. A mulher nega. “De quem são esses discos?”, ele quer saber. “Do meu marido”, ela responde. Ele entende a mensagem: aquela senhorinha está querendo se vingar do maridão que pulou a cerca e foi viver com uma novinha na Espanha. Aí vem o dilema moral/musical: aproveitar-se do problema conjugal alheio pra fazer o melhor negócio da sua vida, ou levantar a bandeira da ética colecionista e se colocar no lugar do homem, pobre-coitado, que levou anos e anos juntando discos para de repente eles serem vendidos à sua revelia por míseros 50 dólares?

“Por que será que acabei ficando do lado de um cara mau, que abandonou a mulher e se mudou pra Espanha com uma ninfeta? (...) Imaginem voltar pra casa e descobrir que seus singles do Elvis e do James Brown e do Chuck Berry já eram, por puro despeito. O que vocês fariam?

“Eu levaria”, diz Marcio, assertivo. “Sem problema nenhum. Faz parte do negócio. Já aconteceu de cliente me oferecer disco sem saber que aquilo valia muito mais, e eu paguei o que ele pediu. Como também acontece de negociar com quem entende o assunto, e aí você paga mais caro. É normal. E, também, a gente vive uma vida de cão aqui em São Paulo. Há alguns dias, um cara entrou na loja e roubou um iPad. Na cara dura. Então, foda-se. Eu levaria”.  

13.

No total, conversamos por exatos 50 minutos. Lá fora, o dia começa a dar os primeiros sinais de que vai escurecer. Uma agitação de fim de festa toma conta da rua Sete de Abril: pessoas de mochilas nas costas apressam o passo, vendedores começam a fazer os primeiros movimentos para o fechamento dos seus comércios, a vitrine de bolos do Café no Vidro está quase vazia, como já estão vazios os nossos copos de café. O celular de Marcio toca - “é só eu sair da loja que aparecem os pepinos” – e ele se despede de mim. Eu o agradeço pela entrevista e lembro-o de me enviar suas listas por e-mail. Ele assente positivamente e sai correndo.

Ser Rob Fleming não é fácil.

PS: Marcio e a Locomotiva Discos organizam a feira Feira de Discos, que acontece no dia 1o de setembro, na Chácara Santa Cecília - saiba mais.

Serviço - Locomotiva Discos

Endereço: Rua Barão de Itapetininga, 37 - subir as escadas

Telefone: (11) 3257-5938

Dias e horário de funcionamento: De segunda a sábado, das 10h às 20h

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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