Rumours: a tragédia inspiradora

Fleetwood mac. Rumours capa disco

A ideia original era formar uma banda de blues. Foi isso que Peter Green, John McVie e Mick Fleetwood pensaram quando formaram o Fleetwood Mac, logo que saíram do John Mayall & The Bluesbreakers (banda que já teve Clapton, Mick Taylor, ex-Stones, Andy Fraser, ex-Free, entre outros), em 1967. E assim foi durante os primeiros anos, mais precisamente nos três primeiros álbuns, justamente os com Green no conjunto. Entre muitas mudanças de formação, pelos motivos mais diferentes (que vão desde acessos exacerbados de espiritualidade que afastaram, por exemplo, o guitarrista Jeremy Spencer da música em 1971 e, temporariamente, Peter Green um ano antes, até simples divergências musicais), o “Mac” se manteve ativo nos seus primeiros sete anos de vida com uma média boa: nove discos lançados. Porém, a troca desenfreada de integrantes impedia a banda de definir uma personalidade e talvez por isso as vendagens nunca tenham atingido os números esperados. Isso até o lançamento do décimo disco, homônimo, em 1975. E o que mudou toda essa história? Justamente uma nova alteração entre seus músicos, dessa vez pra durar. O casal Stevie Nicks (ela), no vocal, e Lindsey Buckingham (ele), na guitarra, se juntaram aos bons e velhos remanescentes da formação original Mick Fleetwood, na bateria e John McVie, no baixo, que a essas alturas já havia chamado sua mulher Christine McVie para fazer parte da banda há alguns anos e, para a surpresa de todos, lançaram um LP de extremo sucesso de crítica, ficando em primeiro na parada da Billboard daquele ano e, posteriormente, em 182o na lista dos 500 Melhores Discos de Todos os Tempos da revista Rolling Stone. O Álbum Branco, como também é conhecido para não ser confundido com o outro disco chamado Fleetwood Mac, de 1968, alcançou ainda a marca de mais de cinco milhões de cópias vendidas, improvável para uma banda com média de venda entre duzentas e trezentas mil unidades por lançamento nos nove primeiros trabalhos.

Fleetwood mac.

E com a química perfeita, os ensaios pra 11a bolacha já tinham data marcada para começar: fevereiro de 1976. A pressão para superar o improvável êxito repentino existia, mas os ventos estavam enfim a favor e, depois de tanto tempo de estrada, nada poderia estragar esse clima de vitória, certo? Errado. John e Christine McVie colocaram um ponto final em seu relacionamento de oito anos e só se falavam quando o assunto era profissional. O outro casal Stevie Nicks e Lindsey Buckingham também estavam se separando, após um longo período de idas e vindas, com direito até a romance secreto de Nicks com o baterista Mick Fleetwood, que por sua vez descobriu também estar sendo traído por sua esposa, Jenny Boyd (irmã de Patty Boyd, lembra? A musa de Eric Clapton e George Harrison), com ninguém menos que seu melhor amigo. Cenário catastrófico para a realização uma produção bem sucedida, certo? Errado, novamente. Mesmo com a imprensa investindo pesado em fofocas sobre a vida pessoal de todos e colocando os velhos integrantes em pauta novamente (dizia-se que a formação original do Fleetwood Mac faria uma turnê de reunião para comemorar os dez anos da banda), o problema envolvendo as separações aflorou o sentimento de todos da forma mais intensa possível e acabou refletindo na criação da maior obra-prima dos caras e uma das maiores dos anos 70: Rumours (o título faz referência, inclusive, às diversas notícias falsas que circulavam nos meios de comunicação). Claro que não foi fácil. O abuso de drogas era constante e, geralmente, as gravações só começavam após longas festas realizadas no próprio estúdio Record Plant, em Sausalito, Califórnia, para muitos convidados, quando todos já estavam mais pra lá do que pra cá. Inicialmente chamado Yesterday’s Gone (uma das frases repetidas na música “Don’t Stop”) durante os ensaios, o disco contou com músicas muito particulares, que escancaravam o perfil de quem havia escrito e sua situação emocional em meio a uma mistura de guitarras elétricas e acústicas, juntamente dos potentes piano Rhodes e órgão Hammond e uma marcante linha de baixo, que em algumas faixas deixava escapar a velha influência do blues, mesmo caso da bateria.

Fleetwood mac.

Do otimismo após o fim de um relacionamento em “Dreams”, até o “vai te catar” não tão esperançoso de “Go Your On Way”, o disco mostra muitas facetas. O rock celta de “Second Hand News”, que abre o LP, em nada se parece com a dançante “Don’t Stop”, nem com a balada “Songbird”, que fecha o lado A. A voz e violão de “Never Going Back Again”, mostrando a excelente fase criativa do guitarra Lindsey Buckingham também mostra características diferentes das canções do lado B, como a R&B “You Make Loving Fun” e “The Chain”, única composta por todos. O violão de doze cordas em “I Don’t Want To know” e o free jazz incrementado por um cravo e um dobro de “Gold Dust Woman” também exemplificam bastante o Rumours, que ainda continha uma “homenagem”, um tanto camuflada, para o “paizão” da banda Mick Fleetwood, que muitas vezes discordava das ideias de seus companheiros e no final acabava se mostrando com a razão em suas decisões.

O resultado de toda essa mistura de individualidades e frustrações amorosas foi uma obra que vendeu, na época, dez milhões de cópias e hoje passa da marca de quarenta milhões de discos vendidos em todo o mundo. É o 6o disco mais vendido nos Estados Unidos e o 14o no Reino Unido, além de ocupar a 26a posição naquele bem bolado dos 500 melhores discos feito pela Rolling Stone que eu já citei anteriormente (melhor que o então comemorado 182o do disco predecessor, não?) e fazer parte de inúmeras listas de melhores álbuns já lançados na história, sempre figurando em altas posições. Além de ser o preferido de todos os integrantes do Fleetwood Mac, abriu caminho para que a banda continuasse a trilhar uma trajetória que dura até hoje e soma mais doze produções, entre idas e vindas nos últimos trinta e seis anos. Definitivamente, um dos meus preferidos. Coloque para rodar e, como disse sabiamente a crítica da BBC Daryl Easlea, sinta mil anjos beijando você suavemente na testa.

Fleetwood Mac – Dreams Fleetwood Mac – Go Your On Way Fleewtood Mac – Don’t Stop Fleetwood Mac – The Chain Fleetwood Mac – You Make Loving Fun
Quem escreveu
Daniel Branco

 

Comentários
Postagens relacionadas

11/10/2019 Geral

Lançamentos de outubro

27/09/2019 Geral

Lançamentos de setembro

23/09/2019 Geral, Entrevistas

Duas histórias em uma

03/09/2019 Geral, Entrevistas

O Artista em Processo: Luiz Gabriel Lopes

30/08/2019 Geral

Lançamentos de agosto

Shows relacionados
JAZZ IN FESTIVAL
05/11/2019 - 21:00 hs
até 07/12/2019 - 17:00 hs
Teatro Porto Seguro
JAZZ IN FESTIVAL
COLETIVO RODA GIGANTE
21/10/2019 - 13:00 hs
até 18/11/2019 - 13:00 hs
JazzB
COLETIVO RODA GIGANTE
POPLOAD FESTIVAL 2019
R$120 a
R$800
comprar
POPLOAD FESTIVAL 2019
RAÍCES DE AMÉRICA
09/11/2019 - 21:00 hs
até 10/11/2019 - 18:00 hs
SESC Belenzinho
RAÍCES DE AMÉRICA
TIAGO IORC
08/11/2019 - 23:00 hs
até 09/11/2019 - 23:00 hs
Espaço das Américas
TIAGO IORC
CASTELLO BRANCO
09/11/2019 - 22:00 hs
Casa Natura Musical
R$100 a
R$80
comprar
CASTELLO BRANCO
FESTIVAL NOVABRASIL 2019
09/11/2019 - 15:00 hs
Allianz Parque
R$135 a
R$90
comprar
FESTIVAL NOVABRASIL 2019