Uma viagem musical por Ouro Preto em 10 tempos

1.

Quando começa uma viagem?

No momento em que se decide o destino? Na compra das passagens? Ou então naquele instante mágico que você finalmente bate a porta de casa com malas nas mãos, feliz por saber que nos próximos dias você não estará mais aonde sempre está?

Para mim, a viagem para Ouro Preto começou no exato instante em que eu descia as escadas rolantes do metrô Consolação rumo à estação rodoviária do Tietê, e tentava desenrolar o fio do meu fone. Nunca vi um fone tão enrolado. Eu puxava sua ponta, tirava-a de um emaranhado e acreditava estar próximo do sucesso, quando mágica e rapidamente a ponta novamente se enrolava. A escada acabava, eu ajeitava as mochilas, desviava dos mais apressados e voltava ao fone: estava mais enrolado. Começava tudo de novo.

Eu tinha imaginado esse momento diferente. Esse momento seria assim:

eu descendo as escadas do metrô ouvindo Milton Nascimento cantar "Carro de Boi":

“que vontade de não mais voltar

quanta coisa que vou conhecer”

Na verdade era o começo mais básico de uma viagem para Minas que eu poderia pensar. Você no metrô mas você não tá indo trabalhar, ou pra casa de alguém, ou pra um bar.

Você tá indo pra Ouro Preto!

E a porcaria do fone atrapalhando os planos.

2.

Se bem que a Bê esqueceu os fones dela em casa e passou as 9 horas que separam Franca de Belo Horizonte sem ouvir música.

O que me faz suspeitar fortemente que o começo da viagem para ela também envolve fones de ouvido.

3.

Levar músicas para uma viagem é tão importante quanto levar camisetas, desodorante e dinheiro. Um dos meus esportes preferidos é especular qual música será “a música da viagem”; aquela canção que tocará muitos anos depois nas caixas de som de um supermercado e será capaz de me trazer de volta lembranças, cheiros e texturas de um lugar que ficou no passado.

Que me desculpem as fotografias, mas trilha sonora é fundamental.

Por isso, horas antes de brigar com o fone, me impus a tarefa de selecionar quais artistas, e depois quais discos, iriam me acompanhar nos sete dias e seis noites que estaria pelos chãos de pedra de Ouro Preto.

Então, como um Felipão sonoro, minha seleção ficou assim:

The Acorn, Almir Sater, Beto Guedes, Bob Dylan, Bruno Souto, Burning Spear, Céu, Clube da Esquina, Deep Sea Arcade, Duke Ellington e John Coltrane, Eleni Mandell, Fito Paez, Gene Russell, George Harrison, Heartless Bastards, Herbert Vianna, Iron & Wine, Jennifer Souza, Joni Mitchell, Linton Kwesi Johnson, Marcelo Jeneci, Marisa Monte, Maskavo, Milton Nascimento, Modest Mouse, Monica Salmaso, Moriarty, Mulatu Astatke, Neil Young, Nick Drake, Nina Becker & Marcelo Callado, Nina Nastasia, Paralamas, Paul Weller, Pélico, Robert Johnson, Santana, Skatalites, Submarinos, UB40, The Velvet Underground, Verônica Ferriani, The Vulcans.

4.

É madrugada. Estou no ônibus sozinho. Saí de São Paulo há cerca de duas horas rumo a Belo Horizonte. De repente o ônibus para. Um posto. Descemos alguns, outros já dormem. Peço uma Coca Cola de garrafinha. Um cheiro de coxinha domina todos os cantos do salão desbotado. O garçom é um senhor de barbas brancas, camiseta cinza com foto de candidato a deputado. Me serve candidamente. Pago-lhe com moedas. Caminho de volto para o ônibus, mas sou interpelado por outro senhor, esse de chapéu marrom estilo panamá, de movimentos sóbrios e fala rápida.

- Onde estamos, você sabe?

Percebo que não, não sei onde estou. Ainda em estado paulista? Já em solo mineiro? Não sei. Olho em volta. Tudo escuro depois do posto, nenhuma placa.

- Não sei.

Volto pro posto, pergunto, descubro: estamos em Camanducaia (MG). Comunico o senhor, que me agradece e diz:

- Se bem que é bom não saber, né?

Subo no ônibus encantado - pela frase dele, pela sensação graciosa de não saber onde estou, pelo gosto de coca-cola de garrafa que perdura na minha boca. Ligo o som, nos fones vem “Esta Tarde”, dos Paralamas, e não deixo de reparar a semelhança de mensagens entre o acontecido e a canção:

“e o viajar

já é mais que a viagem”.

5.

Abrimos nossa primeira cerveja em Ouro Preto. Derrama-se o líquido da garrafa Original gelada nos copos de plástico, brinda-se, encosta-se a garrafa no muro da calçada. Bebe-se, fala-se algo como “ô, trem bão!”. A rua está cheia. De um lado da calçada, o bar Barroco. Do outro lado, o bar Satélite. Os dois estão lotados e esparramam pessoas para fora, e essas pessoas agora dominam a calçada e parte da rua. Trabalhadores, universitários, vejo famílias e crianças também. Se alguém se dispor a contar quantas pessoas tem em cada um daqueles bares, certamente descobrirá que ambos estão comportando exatamente o mesmo número de pessoas.

Ou que a menina que neste instante está no Barroco oferecendo whisky para sua amiga é prima do ex-chefe do menino que acaba de sair do banheiro.

Porque a noite nos parece mágica, não é, meu amor? E essas coincidências malucas sempre acontecem em noites assim.

Sentamos na calçada, servimos nossos copos de novo. Acendo um cigarro. Entre a algazarra e a polifonia de sotaques mineiros cariocas paulistas gringos latinos gringos europeus: um som.

Violão, voz, vozes: um coro desafinado. Ah, vá lá: um coro de bêbados!

Quatro amigos passam por nós impassíveis à multidão, talvez porque a multidão também não repare neles. Vão descendo a ladeira e cantando:

“Se eles são bonitos, sou Alain Delon

Se eles são famosos, sou Napoleão

Mas louco é quem me diz

Que não é feliz

Eu sou feliz”

6.

Ficamos em Mariana pouco mais de 1 hora. Algo não bateu. Talvez o excesso de comércio – lojas de celulares, sorveterias, lojas de lingerie – cortou o barato que Ouro Preto tinha causado em nós.

Vamos embora no próximo ônibus? Vamos.

O ônibus de Mariana para Ouro Preto está lotado. O cobrador fica na parte de trás. O bilhete custa R$ 3,40 desde o dia 30/12/2013.

Que dia é hoje? 30/12/2013.

Que azar.

O ônibus está lotado, então ela senta no único banco disponível e eu fico na sua frente em pé. Faz um sol escaldante.

Das profundezas do bolso direito da minha bermuda, puxo meu fone. Novamente enrolado em si mesmo, claro. Rumo a mais um desafio de desenrolar o fio, solto uma das mãos que segurava o apoio e inicio o uso das técnicas de viajar-sem-mãos adquiridas nos metrôs de São Paulo. Dessa vez foi mais fácil. Desconfio que o calor era tanto que aquele cabo branco estava sem forças para lutar contra mim.

Ligo o som. Ela pede para ouvir também. Mas ela está sentada, e eu em pé, então é preciso realizar algumas manobras para que o fone sirva a dois senhores, a Sentada e o Em Pé.

Decido por não escolher a música que vai tocar - quero que a música nos escolha. O poder está na mão do aleatório do iPod.

(Alô, destino: estou num ônibus de Mariana para Ouro Preto, em pé, faz um calor de moçambicano, estrada de terra, então não seria nada mal se tocasse um Beto Guedes ou um Almir Sater, sem querer influenciar...)

Mas toca Paul Weller (“Broken Stones”). Depois Maskavo (“Tempestade”). Em seguida Burning Spear (“Tradition”). Até rolou um Nick Drake que bateu bem (“Saturday Sun”), mas foi só.

A sequência de músicas erradas na hora errada não deixou dúvida: toda viagem tem um dia que nada dá certo, e esse foi o meu.

(Ah, não. Começou a chover.)

7.

Mas então, no final daquele mesmo dia, o vento mineiro viraria de novo a nosso favor.

Um grupo de oito ou dez ou menos ou mais pessoas nos vê sentados na calçada, um cara segura o violão com carinho e exclama:

- Vamos fazer um som com a gente no Beco dos Artistas!

Achamos graça da ideia, vamos atrás, tímidos. Bêbados e tímidos!

E então:

5 minutos depois

Estamos do lado direito do beco, e a turma do violão do lado esquerdo. Faz parte da timidez, estamos lá de alma, mas o corpo ainda breca a aproximação. Mas já fizemos dois amigos, conversamos animadamente com eles. A turma lá canta e toca “Luz dos Olhos”, de Cássia Eller. E depois outra, talvez um Jorge Ben, não sei ao certo.

12 minutos depois

Nos unimos, finalmente de corpo, à turma. Já paguei uma cerveja pra todo mundo, e alguém pagou uma cerveja para nós. O violeiro é dos bons, tem um repertório que parece infinito, canta afinado, ficamos em volta dele cantando, ao mesmo tempo conversando, ao mesmo tempo fumando, ao mesmo tempo enchendo copos alheios e o meu também.

De tanto encher meu copo, pedi o violão, armei meus dedos de forma a fazer a nota G (sol) e depois Am (lá menor) e mandei:

A novidade veio dar a praia

Na qualidade rara de sereia

Vocês tinham que ter visto a gente fazendo a parte do “uh, uh, uh, uh, uh, uh, ahhhh”.

16 minutos depois

Um cara sentado atrás de mim pede o violão, passo pra ele, que toca excepcionalmente bem “Hoje Eu Quero Sair Só”, depois “A Rede”, depois “Jack Soul Brasileiro”, e eu fico espantado de ver como o sujeito faz o violão soar tão bonito, parece o próprio Lenine. Acompanho-o: canto junto, faço backing vocal, batuco com as mãos.

Não sabia seu nome na hora, e não sei até hoje.

1 hora e 04 minutos depois

Eu e Guillermo, um argentino beirando os 50 anos, torcedor do River Plate que usa óculos fundo de garrafa, estamos falando de Fito Paez, Charly Garcia, quando de repente começamos a cantar e eu juro que não sei porque começamos a cantar, porque justamente um segundo antes estávamos apenas conversando, então é inexplicável como que as 4 e tanto da madrugada nós dois chegamos ao ponto de cantar a plenos pulmões:

"Hay secretos en el fondo del mar Personas que me quiero llevar Aromas que no voy a olvidar Silencios que prefiero callar Mientras vos jugás"

Fim da noite. Eu e Bê, que no dia seguinte íamos passar o réveillon sentados na praça Tiradentes com nossos vinhos, já temos 4 convites diferentes de lugares para passar o ano novo.

Porque música também serve para você fazer amigos.

8.

31/12/2013, último dia do ano. 23h, última hora do ano.

Na vitrola do hostel onde estamos, acompanhados de 18 pessoas, sendo 17 completamente desconhecidas – a outra é um dos caras que conhecemos na noite anterior, e que nos convidou -, ouço Gal Costa cantar:

“É preciso estar atento e forte

não temos tempo de temer a morte!”.

E depois toca Caetano, toca Gil, toca até Little Richard. O índice de desconhecidos vai caindo, já ficamos amigos da maioria, de quase todos. 23h59, hora do 3, 2, 1...

FE-LIZ A-NO NO-VO!

Cada um tem que escrever algo em um papel e pendurar num varal de mensagens pra 2014. Escrevi:

“Que nos lembremos sempre de Beto Guedes:

Nosso coração é novo!”

Às 3h30, eu e alguém - Aline? - segurávamos uma cordinha, e embaixo dela todo mundo passava.

"Vai, vai, vai Baixando Vai, vai, vai Passando Vai, vai, vai Que eu também vou Essa aí passou! Essa aí passou! Essa aí passou!" É o Tchan - um clássico das boas festas.

9.

Quase 5 horas da manhã. O réveillon foi incrível, novos amigos, muita risada, tudo tão simples e direto: pessoas boas que o universo juntou. Ninguém segura quando o ser humano se veste de paz e harmonia (e bebe vinho, proseco, cerveja e cachaça Salinas).

Hora de ir embora dormir, pra esse ano começar logo de uma vez.

Sobe ladeira. Ladeira, ladeira, ladeira. Ladeiras ficam mais íngremes quando você está bêbado. Finalmente chegamos ao plano. Praça Tiradentes. No meio da praça, está o monumento em homenagem ao mártir da Inconfidência Mineira. Inaugurado em 1894, naquela noite ele servia de pouso para alguns foliões sobreviventes, que aproveitavam os degraus da imensa obra para sentar e beber. Há um garoto com violão na mão. Me aproximo, ansioso pela música que aquele menino vai tocar.

"Pra fechar o réveillon com chave de ouro, vai!", eu digo, mais pra mim mesmo do que pra Bê.

E o menino canta:

“17 anos e fugiu de casa

Às 7 horas da manhã do dia errado”

Minha decepção só não é maior do que minha dúvida: o que será que Tiradentes está achando desse sujeito tocar Capital Inicial em seu monumento?

Se bem que o cantor da banda se chama Dinho Ouro Preto, e estamos em Ouro Preto e...

Meu Deus, preciso dormir.

10.

A música da viagem finalmente apareceu no dia 01/01/2014, lá pelo meio dia, quando dei um gole de água gelada na esperança inútil de aplacar minha ressaca. Estávamos no hotel, deitados tomando sol, ouvindo música do celular, quando começamos a falar da viagem:

- Olhe pra este lugar, olhe onde estamos. Que cidade! Que réveillon! Que paz!

Aí, nesse instante, no celular, meu mineiro preferido cantava, eu juro que ele cantava:

“Céu de janeiro aberto, sol dourado

Rua cheia, a cidade a se animar

Vai pela rua calma, minha alma está desperta

Entra em cada loja aberta, em cada olhar

Dias assim

Dias de paz

No céu sem fim

No coração”

** todas as fotos por Belisa Bagiani

*** mais três pequenos contos extras sobre Ouro Preto: clique aqui.

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, ex-aluno de futuro promissor, ex-músico de gosto duvidoso e ex-meia direita que já fez gol que saiu no jornal.

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