O fabuloso encontro entre Chris Murray e a Orquestra Brasileira de Música Jamaicana

O arborizado bairro de Perdizes enfrenta o calor que assola São Paulo desde o início do verão. As folhas das árvores estão paradas. Trabalhadores, patrões, policiais, camelôs: todos caminham por entre aquelas famosas ruas - Cardoso de Almeida, Caiubi, Bartira, Monte Alegre - carregando suor na testa e provando da incômoda sensação de viver em uma cidade que mais parece uma grande sauna barulhenta. No número 182 da rua Caiubi, está uma discreta casa de portão branco que também anda experimentando altas temperaturas, mas não se trata exatamente de camada de ar quente.

Nesta última semana, os termômetros musicais do Estúdio Ekord subiram bastante quando uma das figuras mais importantes da cena reggae/ska mundial, o músico canadense Chris Murray, encontrou-se pela primeira vez com a Orquestra Brasileira de Música Jamaicana, em dois ensaios para os shows que eles fazem juntos neste sábado (08) e domingo (09), no Sesc Pompeia.

Depois de duas horas de ensaio, Chris foi fumar um cigarro no terraço do estúdio. Ele segurava um violão Gibson e uma correia preta; cumprimentou cada um de nós com um “prazer, Chris”, que saiu acompanhado de um sorriso de canto de boca, certamente achando graça de si mesmo por usar uma palavra em português. Chris é um sujeito alto, boa praça e que está sempre disponível para uma conversa. No final de tarde daquela quinta-feira, 06, seus sapatos vermelhos de cano alto, as meias brancas que por pouco não chegam à metade da perna e o conjunto bermuda longa/camiseta com temática de ska ajudavam a deixar sua figura muito mais jovem do que poderiam supor seus 47 anos.

Quando soube que estávamos ali para gravar um vídeo e uma entrevista em áudio, Chris pareceu feliz e não fez nenhuma objeção. Acendeu o cigarro, contou sobre Los Angeles - onde vive atualmente - e descreveu com detalhes os estúdios que costuma frequentar por lá. Logo que o cigarro acabou e ele deixou o terraço, subiu as escadas que levam ao segundo andar da casa e adentrou a espaçosa sala de ensaio. Ficou por lá cerca de 20 minutos, quando tocou duas canções em formato voz e violão, numa sessão exclusiva para o Azoofa. Chris não está particularmente surpreso com o calor brasileiro. Ele conhece o verão abrasador do país desde janeiro de 2006, quando fez seu primeiro show em solo brasileiro justamente no Sesc Pompeia. Esta é sua quinta passagem pelo país, e está sendo a de maior duração: já são 4 semanas de shows e viagens por cidades do interior de São Paulo (Piracicaba, Araraquara e Campinas) e capitais (São Paulo, Goiânia e Palmas). O encerramento da turnê acontece com os shows que fará ao lado da OBMJ, neste que promete ser um encontro histórico. Algumas razões para isso: - já faz algum tempo que a OBMJ deseja convidar cantores brasileiros ou estrangeiros para participarem de uma ou duas músicas de seus animados shows. Com Chris, a trupe brasileira não só tem à sua disposição um cantor de voz original, como um músico amante da música jamaicana tanto quanto seus colegas brasileiros.

- esta é a primeira vez que a OBMJ se debruça exclusivamente sobre a obra de um compositor. É diferente do que fizeram nos ótimos discos que lançaram até aqui, “Volume I” (2009)  e “Volume II” (2013), em que escolheram uma canção de Gilberto Gil, uma de Tom Jobim, uma de Jorge Ben...

- Chris faz canções que passeiam com liberdade pelo rocksteady, reggae e ska – não raro, ele mistura os três ritmos em uma única música. Suas composições são baseadas no violão e quase sempre ganham a companhia de bateria, guitarra,  baixo e teclado. Será muito interessante ver, portanto, o que os sopros da OBMJ vão acrescentar a elas.

Na sala de ensaio, Chris cantou suas canções de olhos fechados, marcou o ritmo batendo no chão seus grandes sapatos vermelhos e não se incomodou quando teve de repetir uma das músicas. Ao fim da session, juntou-se a Sérgio Soffiatti (guitarra e voz) e Felippe Pipeta (trompete) para um bate papo descontraído sobre a inédita parceria entre eles, os critérios para a escolha do repertório e como cada um travou seu primeiro contato com a música jamaicana, o gênero do qual, depois de apresentados, esses três caras nunca mais se distanciaram.

*

AZOOFA: Como está sendo para a OBMJ, uma banda essencialmente instrumental, esta experiência de tocar ao lado de um vocalista?

Sérgio Soffiatti: Há tempos a gente queria isso. Na verdade, quando montamos a banda, a ideia era seguir a tradição das orquestras que convidam cantores – os crooners – para participarem. A gente só não sabia quando isso ia acontecer, e a primeira vez está sendo agora. É muito legal que seja com o Chris, um cara que a gente já escutou bastante e que conhecemos e gostamos muito do trabalho que faz. Particularmente, admiro muito as melodias que ele cria.

Felippe Pipeta: E para esse encontro acontecer não é fácil, depende de diversas questões. E uma das coisas que nos ajudou a realizar essa parceria foi o Sesc Pompeia ter acreditado neste projeto.

Como vocês chegaram ao repertório que vão apresentar no Sesc Pompeia?

Chris Murray: Estamos tocando um mix das músicas do OBMJ com as minhas, além de alguns covers. Algumas das minhas canções jamaicanas favoritas e algumas outras surpresas.

Sérgio: A gente escolheu as músicas que vamos tocar na primeira parte do show, que será só com a OBMJ. Chris mandou para nós algumas de suas músicas que ele gostaria que nós tocássemos com ele.

Felippe: Chris selecionou algumas músicas que ele achava que seriam mais interessantes para a OBMJ trabalhar. Poucas músicas dele tem sopros. Então, ele deu prioridade para canções que já tinham um esboço nesse sentido.

E rolaram uns improvisos em cima dos arranjos de Chris?

Sérgio: Ah, claro. A gente sempre dá uma “orquestrabrasileirademúsicajamaicanilizada” nas músicas. (risos)

Chris, nessa turnê, você se apresentou em estados que normalmente ficam de fora de turnês de internacionais, como Goiás e Tocantins. Como vê a recepção brasileira à sua música ser cada vez maior?

Chris: Sim, eu acho que o cavalheiro aqui, Bruno (Lancelotti, dono da Radiola Records, realizador de diversos eventos e ações voltadas para a cena de reggae e ska no Brasil e responsável pela vinda de Chris Murray ao país) trabalhou bastante nos últimos 8, 10 anos, até mais, especificamente depois do festival do SESC em 2006. Então, em 8 anos, Bruno trouxe vários grandes talentos do mundo todo para o Brasil para tocarem ska. Antes, acho que as pessoas não costumavam fazer isso com tanta frequência. Ele facilitou a exposição desse ritmo aqui e vejo as pessoas cada vez mais compreendendo o ska e sua relação com o reggae, como o reggae vem do ska… e pra mim isso é ótimo porque eu amo esse tipo de música e amo o fato que as pessoas conheçam esse tipo de música.

Há uma empatia interessante entre você e o público brasileiro, e que é rara especialmente no universo do rocksteady e do ska, gêneros pouco conhecidos no país. Consegue arriscar uma razão para isso?

Chris: Eu acho que como todas as vezes que eu vim aqui, toquei com músicos brasileiros. Através disso eu fui exposto a uma grande "rede" de pessoas que gostavam de ska e reggae, mas iam além disso. Fiz amizade com pessoas que tinham bandas. E assim, fui capaz de me conectar, especialmente em São Paulo, com uma gama maior de pessoas diferentes, o que é ótimo. Então talvez essa seja a melhor parte: trabalhando bastante com os brasileiros aqui pude cair nas graças dos brasileiros. Eu espero (risos).

Que tal tocar com músicos brasileiros?

Chris: É legal. Eu gosto de tocar com diferentes tipos de músicos e estou sempre aprendendo quando toco com eles pela primeira vez, ou pela terceira vez, ou até mesmo depois de anos. Eu acho que a música brasileira e a música latina tem um certo groove, similar ao meu tipo de música, que é influenciada pela música jamaicana. Então acredito que exista uma união natural, uma fluidez entre certos tipos de música que é mais importante do que - em algumas ocasiões - precisão e todas as outras coisas, sabe? Então sentir o "movimento" da música é algo que acontece de uma forma bem agradável aqui, não apenas entre os músicos, mas também com a platéia.

E para a OBMJ, como tem sido a troca musical com o Chris?

Sérgio: Tem sido muito natural, na verdade. Não houve nenhum empecilho. Fluiu super bem, sabe? E isso é difícil. Acho que são coisas que acontecem com artistas que gostam muito de música jamaicana; nós temos uma mesma conexão, que é anterior a este encontro. Se você for para o Japão, vai ter algo muito próximo também. É claro que cada um vai ter seu pequeno suingue específico, mas todo mundo cresceu escutando música jamaicana. A referência é uma só.

Chris, você está no Brasil já há algum tempo. No seu Instagram, você publica diversas fotos de sua viagem pelo país. Está gostando daqui?

Chris: Estou aqui há 4 semanas e está sendo ótimo. Essa é minha última semana aqui. Na primeira semana, fiz 5 shows com um baterista e um baixista apenas nesse formato de trio, com dois dias para ensaio antes dos 5 shows. Na semana seguinte, toquei no Largo de Batata para o aniversário de 460 anos  de São Paulo, em um fim de semana comemorativo, o que foi incrível porque toquei com diferentes artistas e bandas brasileiras que nunca tinha escutado ou ouvido falar, e são bandas ótimas. Conheci pessoas que sabiam quem eu era e pessoas que me foram apresentadas pela primeira vez, então foi realmente incrível. E depois fui para Palmas, Goiânia, lugares que nunca tinha ido antes, e adora conhecer novos lugares em qualquer lugar do mundo. Então isso foi muito legal. Palmas faz muito calor! (risos) E agora é a última semana, e colaborar com uma banda tão incrível… Sim, e a viagem tem sido ótima, trabalhando com pessoas ótimas.

Sempre que ouço Chris Murray, me vem a imagem de você carregando um violão nas costas. Sempre o vi como um “militante” do rocksteady e do ska, como se você pegasse seu violão e rodasse o mundo a celebrar esses gêneros. Há de fato essa preocupação em carregar essa bandeira?

Chris: Eu acho que eu só tento fazer o que eu faço. E tocar o violão e cantar é o que eu amo, e me permitiu viajar pelo mundo e fazer música com todos os tipos de pessoas… então eu não questiono isso, não é exatamente uma "imagem consciente" que eu sigo, mas me encontro em um caminho que é ótimo e estou agradecido por isso. Só espero que o dia seguinte seja bom e aonde estarei trabalhando daqui 3 meses… e é isso.

Quando começou sua relação com a música jamaicana?

Chris: Eu cresci em Toronto e existia uma grande cena jamaicana por lá. Muitas pessoas emigraram para Toronto da Jamaica, incluindo alguns artistas famosos, como Leroy Sibbles, Jackie Mittoo, Lord Tanamo… então enquanto eu crescia em Toronto, reggae não era desconhecido, era bem familiar para as pessoas. E só mais tarde, quando passei a conhecer lugares novos que percebi: "Ah, não é assim em todos os lugares". Não me lembro da primeira vez que fui exposto (ao reggae), mas me lembro que o reggae sempre foi um tipo de música que eu já conhecia por um bom tempo porque muitas coisas (relacionadas ao gênero) estavam acontecendo.

Sérgio e Felippe, vocês lembram do primeiro contato de vocês com a música jamaicana?

Sérgio: Cara, foi com The Police e a mistura que eles faziam de reggae com punk rock e ska. Depois, eu conheci o Rodrigo Cerqueira (ex-baterista das bandas Skuba, nos anos 90, e Firebug, nos anos 2000) e ele tinha amigos cujos pais viajavam para Londres e traziam discos de lá. E ele me apresentou o reggae e ska nesse contexto. Foi quando ouvi Black Uhuru, Toots & The Maytals, Skatalites. Era 1986. Dali para a frente, não teve mais volta.

Felippe: Minha história é mais ou menos parecida. O meu primeiro contato com o ska foi com ele já diluído no skacore dos anos 90. Eu fiz o processo contrário: depois é que fui escutando e conhecendo os sons mais antigos. Inclusive através do Bruno, que vendia discos na antiga Hanx, na Galeria do Rock, e sempre me apresentava umas “pepitas de ouro”. E uma coisa curiosa: nessa época de moleque, eu tinha como referência o Skuba, a banda do Serginho nos anos 90. Lembro da coletânea chamada Ska Brasil, lançada pela Paradox, que tinha o Skuba. Eu ouvia muito. Então, é muito legal porque hoje eu toco ao lado de um cara que era referência para mim quando eu comecei a tocar.

Chris, essa é a quinta vez que você vem ao Brasil. Recorda-se de como foi a primeira visita e quais foram suas impressões do país?

Chris Murray: Foi tudo muito rápido, eu tinha três shows programados no SESC Pompeia, então meu primeiro show no Brasil foi no SESC, então é um prazer estar de volta na casa. Foram três dias de ensaios antes dos shows então minha primeira semana foi tocando o tempo todo. Essa foi minha impressão que tive do Brasil, eu acho… fazer música para as pessoas daqui. E é uma coisa que eu amo fazer e sempre quando estou aqui, estou fazendo música para as pessoas.

Você deve ter escutado muita música brasileira por esses dias. Teve algo que te chamou mais a atenção?

Chris: Ouvi recentemente Tom Jobim e está me deixando louco!

**

PS: a parceria entre Chris Murray e OBMJ não acaba no domingo. Vem novidade por aí - e isso é tudo o que podemos dizer.

***

Fotos | Gustavo Kamada

Arte | Belisa Bagiani

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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