três (fantásticos) contos musicais

Tudo começou quando eu desci na estação Ana Rosa do metrô. Era a estação errada, mas como eu demorei para perceber! Gustavo me ligou da estação Vila Mariana, a certa: já chegou? Então, tá vendo a escada rolante à sua direita? Eu: estou vendo. Ele: sobe ela, vira à esquerda e você sairá no terminal de ônibus. Eu: tá bom. E fiz. E deu exatamente certo o que ele falou, só que eu não estava na estação Vila Mariana.

Depois, uma conversa bizarra por telefone, que durou uns 5 minutos, cujo resumo seria:

Gus: “eu estou no terminal, cadê você?

Eu: “eu também estou, cadê você?”

Logo me toquei que estava na estação errada e no terminal errado. Desliguei o telefone, desci as escadas correndo, voltei ao metrô, entrei no trem sentido Jabaquara, desci na estação Vila Mariana, subi as escadas rolantes sentido terminal de ônibus (e comprovei a estranha e excepcional semelhança com o caminho que percorri na estação Ana Rosa) e finalmente saí no lugar certo. Lá estava o Gus, dali seguiríamos para o ensaio da Lara & Os Ultraleves e tudo estaria bem. Mas eu continuei correndo, pensei que ele pudesse estar bravo com meu atraso juvenil, ou algo assim e

PAF! Tropecei e caí.

Durante a queda, minha mochila saiu das amarras dos meus braços, sobrevoou toda a minha cabeça e caiu exatamente na minha frente. Eu estava deitado no chão e não acreditava como que, em apenas 1 segundo, eu e ela saímos da condição “em pé” para “desagradável e humilhante, dois corpos jogados no chão do terminal de ônibus.”

O relógio marcava 10:50, o que significa que era muito cedo para ter acontecido tanta coisa errada.

Alguns minutos depois, no entanto, lá estávamos eu e Gustavo adentrando a casa na qual rolava o ensaio da Lara & Os Ultraleves. Primeiro: passar pelo portão da rua. Depois: subir escadas. Aí, porta da casa e corredor longo até a cozinha. Você vê um varal com lençóis brancos cheirosos, e é preciso tirar os lençóis da frente para que os olhos avistem um quartinho dos fundos – embora, verdade seja dita, o que você menos precisa naquele momento é de seus olhos. Porque lá dentro toca um som magnífico, atemporal, um balanço de baixo guitarra teclado bateria metais e você não sabe situar se está em 1950 ou 2014, apenas fica ali parado olhando para o quartinho enquanto uma bebê vem calmamente engatinhando pra perto de você batendo palmas no ritmo da música.

* 

Acho que era 2006. Ou 2007. O local: palco do Credicard Hall. O dia: sábado. O horário: uma três da tarde. Em cima do palco, Paralamas e Titãs passam o som para o show que farão logo mais. Em volta do palco, dezenas de pessoas correm para lá e para cá. São roadies, assessores, funcionários da casa e algumas pessoas sem nenhuma função prática naquele momento, como eu. Tento não atrapalhar mas também não me furto de ficar ali observando tudo plenamente como se no meu crachá estivesse escrito:

Nome: Eduardo

Função: Observar tudo plenamente

De repente, uma voz me chama: ei, você. Viro a cabeça e vejo Marcelo Camelo. Ele está vestindo camiseta branca, calça jeans e usa chinelos azuis. Segura um papel a4 na mão e mal consegue disfarçar um ar de preocupação. Eu respondo: opa.

E aí:

Marcelo Camelo: Cara, me falaram que você é da equipe aí do Paralamas.

Eu: Sim, sou. (nessa hora faltou o crachá pra eu me vangloriar).

Marcelo Camelo: Será que você pode me ajudar?

Eu: Claro! (“observadores plenos devem ser solícitos com aqueles que necessitam”, é um dos nossos mandamentos)

Marcelo Camelo: Cara, eu vou cantar com eles hoje à noite essa música, “Alagados”, que eu amo de paixão. E eu queria tirar uma dúvida na letra porque... cara, essa letra é um primor, é um poema.

Eu:

Marcelo Camelo: Então, na verdade...

E então ele faz algumas perguntas sobre a música, para as quais eu tenho as respostas na ponta da língua, graças aos anos e anos da adolescência dedicados à literatura paralâmica. Mas o mais importante é que instantes depois ele começa a cantarolar a letra.

“Todo dia / o sol da manhã vem e lhes desafia”. Ele está sorrindo. E de repente para, bate no meu ombro e diz: “Cara, como o Herbert conseguiu escrever algo tão profundo de forma tão simples?”. E segue cantando a música, verso a verso, e batendo no meu ombro toda vez que a letra lhe surpreende. E arqueava as sombrancelhas como quem pede ajuda, pede companhia, vem comigo "alagados, trenchtown!"

Eu confesso que em um versinho ou outro eu cantarolei junto com ele.

**

 

O bando de cavalos estava com fome. Ok. O Band of Horses – a banda americana – estava com fome. Eu também estava. Como assessor de imprensa do grupo durante uns dias, por conta de sua passagem pelo Brasil, era eu que deveria providenciar o rango – você sabe, assessores de imprensa são um faz de tudo poderoso.

De modo que perguntei a eles o que queriam. “Pizza”, foi a resposta unânime em bom italiano daqueles cinco americanos. Eram legais. E bons ao vivo. Ok. Liguei para a pizzaria, encomendei uma meia mussarela meia qualquer coisa, passei o endereço e estava prestes a terminar mais esse ótimo trabalho jornalístico quando o atendente da pizzaria me faz uma pergunta interessante:

- Qual é a forma de pagamento?

Naqueles minúsculos segundos em que eu pude ficar em silêncio no telefone e pensar na resposta, eis o que eu pensei: "verdade, qual é a forma de pagamento?" Me diverti imaginando todos os membros da banda sacando suas carteiras, cada um pagando a sua parte, in cash por supuesto, ou em cartões de crédito american diners express tour brasil 2012. Era óbvio que eles não pagariam. Era óbvio que alguém deveria pagar, e era óbvio que esse alguém seria eu.

- Cartão de débito – eu respondo - Quanto deu?

- 40 reais.

- QUARENTA REAIS?

- Isso.

- Mas eu pedi mussarela justamente pra ficar mais barato.

- Senhor...

- Ok, ok. Manda vir.

Lá dentro do estúdio do guitarrista Chuck Hipolitho, numa ladeira charmosa da Pompeia, o Band of Horses começa a tocar mais uma música. Era "Everything is Gonna Be Undone". Vai passar na MTV. Versão acústica e exclusiva.

Lá fora do estúdio do guitarrista Chuck Hipolitho, numa ladeira charmosa da Pompeia, um jornalista faz contas. Ele está em dúvida se possui 40 reais no banco. Tenta fazer mentalmente um relatório de seus gastos mais recentes: o que comeu mais cedo, o que comeu ontem, e anteontem, quanto foi aquele dia no cinema? pedi pipoca? quanto mesmo eu ganho de salário tirando os impostos?

Então o motoqueiro chega, trazendo na mão aquela pizza fumegante. O jornalista tira seu cartão de débito e aplica àquele pedaço de plástico uma última olhada antes de entregá-lo - uma olhada de “tchau...talvez nunca mais nos vejamos porque se essa porra não passar eu vou sair correndo e te deixar aí com os horses”, mas também uma olhada de “vai, pelo amor de deus, não faz isso comigo, quarentinha você tem aí guardado vai, ou pede ajuda pro cheque especial, não sei, mas SE VIRA.”

O entregador passa o cartão na máquina.

Processando.... processando....bizzzzzz – um papel amarelo sai lentamente da maquininha e a frase transação aprovada brilha no monitor.

O Band of Horses nunca me pagou aqueles 40 reais, mas veja como eles tocaram direitinho depois daquela pizza:

*** tipografia | belisa bagiani
Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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