Azoofa Indica: hoje (e amanhã) tem Thiago França na Casa de Francisca

Thiago França é um artista que não tem site. Ele usa uma das plataformas mais simples da internet, o blogger, para divulgar seu trabalho. Não há, porém, biografia, fotos ou vídeos e nem mesmo informações de contato: trata-se de uma página de layout padrão que apresenta uma lista de 16 obras disponíveis para download gratuito. São os álbuns lançados por ele em seus projetos (Sambanzo, A Espetacular Charanga do França, Na Gafieira, Marginals e dois que lançou com o Metá Metá), participações especiais em discos de amigos ("Bahia Fantástica", de Rodrigo Campos, "Olha Quem Chega", de Dona Inah - em que estreia na produção) e mais, muito mais.

Thiago França é um artista que não tem Facebook. Ou melhor, tem, mas apenas um perfil pessoal. É neste território íntimo e ao mesmo tempo público que ele divulga para amigos, amigos de amigos, conhecidos ou não, as datas e locais dos muitos shows que faz por aí - seja em São Paulo com a Espetacular Charanga do França, ou no Rio de Janeiro com o Metá Metá ou até no Japão acompanhando a cantora Verônica Ferriani.

Thiago França é um artista até na arte de não ser um artista. Seu tempo - veja o número de discos e tente acompanhar sua alucinada agenda de shows - parece ser dedicado ao que interessa ao fim do jogo: a música.

E ele é um grande músico. Mas, ano a ano, projeto a projeto, vem se mostrando também um grande artista. E, no entanto, ao observar seu modus operandis, vemos que, a despeito de ser um dos mais solicitados e respeitados de sua geração, Thiago não é nada daquilo - Thiago não é currículo, embora daqui a pouco pudesse ser, se assim o quisesse. Acho que Thiago prefere o palco. E quando não há palco, prefere ler. Ou jogar conversa fora com amigos - Rodrigo Campos, Juçara Marçal, Kiko Dinucci e mais, muito mais. E quando de repente tudo isso se junta - literatura, amigos, papo - eis que Rodrigo lhe apresenta o escritor João Antonio e seu conto "Malagueta, Perus e Bacanaço", lançado em 1963. Thiago imediatamente se identifica com aqueles tipos marginais que vagam, vacilam e jogam sinuca por entre bairros de São Paulo, tão personagens quanto eles mesmos.

E nisso Thiago vê música, e dali tira um disco inteiro (baixe aqui), que ele "pré-lança" hoje e amanhã na Casa de Franscisca (saiba mais aqui). "No conto, João Antonio diz para os caras que tão ali, dando a vida na sinuca, que ganhar ou perder é só a consequência natural do jogo. O importante é jogar. Pra mim, esse é o grande mote da história".

Se a história de Thiago França até aqui fosse um conto, então o mesmo mote valeria.

Nesta entrevista exclusiva para o AZOOFA, Thiago revela que não pensava em levar o disco para o palco, compara a São Paulo de João Antonio com a cidade na qual ele vive hoje e defende a literatura. "Se você consegue se concentrar o suficiente pra ler um livro do começo ao fim, significa que você tem um mínimo de sensibilidade pra perceber o mundo ao redor".

AZOOFA: Pela primeira vez, você leva o "Malagueta, Perus e Bacanaço" para o palco. Como serão essas apresentações?  

Thiago França: Vai ser "pré-lançamento" porque o disco físico ainda não chegou, deve sair lá pra maio. Eu tô bem relaxado em relação a esse disco, sinceramente, não tinha pensado em fazer show, o disco era pra ser só uma homenagem mesmo. Nesse show da Francisca, participa quase todo mundo que gravou, com exceção do Maurício Pereira, Ogi e Ganjaman. O Anderson Quevedo (sax barítono) vai ser substituido pelo Cuca Ferreira (Bixiga 70). Além das músicas do disco, escolhi umas outras do Kiko e do Rodrigo que tem a ver com o universo do conto, que tem os personagens, marginais e marginalizados. A Juçara também vai cantar umas a mais.

Você já comentou que quem te apresentou o livro foi o Rodrigo Campos. Achei curioso e pertinente, porque o Rodrigo é um ótimo observador e criador de tipos, como o João Antonio...

Sim, tem muito a ver. Isso é coisa de gente ligada ao samba, o Kiko também é assim - a coisa de contar história, criar personagens... Gosto muito disso, tanto que tratei o disco como uma trilha sonora para o livro, narrando alguns trechos, criando vinhetas que mostrassem a personalidade de cada um dos personagens principais.

João Antonio ficou conhecido por uma obra que é indissociável da cidade de São Paulo, e isso aconteceu especialmente em "Malagueta". Hoje você vive em uma São Paulo bastante diferente da dele. O que você vê em comum entre a cidade que João Antonio vivenciou e a que você vivencia hoje?

No conto, João Antonio diz para caras que tão ali, dando a vida na sinuca, que ganhar ou perder é só a consequência natural do jogo, o importante é jogar. Pra mim, esse é o grande mote da história; a sinuca, a noite, são planos de fundo. Ainda existe gente que quer só levar sua vida longe dos espaços gourmets, dos showrooms e dos shoppings centers, gente que se guia pela vontade de fazer as coisas, de arriscar, independente do resultado, do sucesso. Parece familiar? Eu me encaixo nesse perfil.

No Brasil, essa relação entre literatura e música é muito rara. Já por isso, o lançamento do disco é um fato notável. Como foi a experiência de imergir em um universo que não é seu e tirar dele sua música?

Até que não é tão rara assim. Tom Jobim era fissurado em Guimarães Rosa, por exemplo; Caetano Veloso também tem muitas referências literárias em suas letras. Talvez o "Malagueta" seja o primeiro caso de um disco inteiro dedicado a um livro. Outros discos meus também foram inspirados por livros, o Sambanzo nasceu do "Kitabu" do Nei Lopes; na época da formação do MarginalS eu lia muito quadrinho, "Ranxerox" me chamou muito a atenção. Quando li o conto do João, parecia que já tinha lido aquilo há muito tempo atrás. A história, os personagens, tudo me pareceu muito familiar, tanto que de cara saí compondo as músicas, sem muita "imersão". É como se aquilo já estivesse pronto, só esperando ser descoberto.

Ao divulgarem o lançamento do álbum, algumas matérias acabaram ampliando o tema e falando também de João Antonio e sobre o conto. E isso, de certa forma, o reapresentou para algumas pessoas. Eu mesmo só fui lê-lo depois de conhecê-lo pelo seu álbum. Essa consequência, digamos, tem chegado até você, as pessoas tem comentado sobre o conto contigo?   

Sim, muita gente tem me falado isso. Depois de ler o livro, fiquei tão encantado que saia perguntando pras pessoas sobre o João antonio, e sempre que alguém não conhecia, me vinha um sentimento de "como assim você não conhece?". Fico feliz e honrado em poder contribuir com a popularização da obra e mais feliz ainda de saber que ainda tem gente que lê, um hábito precioso cada vez mais esquecido. Não que você tenha que ser um erudito, ter uma "alta cultura", mas se você consegue se concentrar o suficiente pra ler um livro do começo ao fim, significa que você tem um mínimo de sensibilidade pra perceber o mundo ao redor.

***

Posfácio:

"Se você quer pensar primeiro no dinheiro, depois na arte, então é melhor ir vender farinha, leite em pó. Monte uma concessionária de carro, o que você quiser. Entendeu? Eu não sou negociante. Arte, na minha cabeça, é cultura, é uma expressão que o ser humano tira de dentro da alma. E quando não é assim, para mim é entretenimento, que também tem sua validade, mas que não é do mesmo tamanho." (Alceu Valença a Marcos Grinspum Ferraz na Revista Brasileiros. Leia a entrevista completa: http://bit.ly/1cNiU7b)

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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