Azoofa indica: Guizado interpreta "On The Corner", de Miles Davis, na Serralheria

por: eduardo lemos | arte: belisa bagiani

O trompetista Guizado apresenta neste sábado, na Serralheria, sua releitura de On The Corner (1973), um dos discos mais importantes de Miles Davis (saiba mais sobre o show). Natural, então, que nesta entrevista lhe fosse perguntado qual o maior desafio de tocar ao vivo este álbum, o álbum em que Miles quebrou algumas paredes que separavam o jazz da música dita popular, como o funk de James Brown e o rock de Jimmy Hendrix.

A pergunta é feita, e Guizado inicia sua resposta de maneira lapidar. "Primeiro, é preciso entender como o On The Corner foi feito."

Foi com esse espírito de passar o mais próximo possível do processo de criação de Miles - e não apenas reproduzir o resultado final, o disco - que Guizado topou esta empreitada, a partir de um convite de Ramiro Zwetsch, idealizador do festival "72 Rotações", que levava artistas contemporâneos a interpretarem importantes álbuns lançados em 1972. O festival acabou, mas o Serralheria vem reprisando seus shows dentro da série "Serrotações".

Nesta entrevista exclusiva para o Azoofa, Guizado relembra seus primeiros contatos com o blues e o jazz, os diversos níveis de influência de Miles Davis em sua vida e revela que seu terceiro álbum solo - cujo nome provisório é A Busca - sai até o final deste ano.

AZOOFA: Guizado, no show deste sábado você recria o On The Corner, um disco icônico do Miles Davis em que ele explora uma sonoridade mais dançante. Qual é a tua relação com este álbum?

Uma das coisas que acho mais interessantes nesse disco é como ele soa abstrato, distorcido, e a visão de Miles do som funk de James Brown e Sly and The Family Stone, do rock lisérgico de Jimmy Hendrix, que eram os sons que estavam rolando forte na época. A maneira que ele interpreta esses sons junto à banda é super agressiva e consegue recriar o clima das ruas de Nova York nos anos 70, quando havia muita violência e tensão no ar.

Quanto tempo você levou entre a escolha por este álbum e o primeiro show no Sesc Santana?

Foram alguns meses. Primeiramente, conversando com o Ramiro Zwetsch [idealizador dos projetos 72 Rotações e 73 Rotações, que convida artistas a intepretarem álbuns importantes lançados em 1972 e 1973] sobre a possibilidade de recriar esse disco. Depois, junto com a banda tentando achar um caminho de realizar essa tarefa, por ser um disco diferente no modo como foi produzido.

Qual foi o maior desafio de tocar este disco?

Primeiro é preciso entender como o On The Corner foi feito. Esse disco é o resultado de longas sessões da banda do Miles tocando ao vivo dentro do estúdio, tudo sendo gravado, horas de improvisação e grooves, sem muitos ensaios, pouca notação musical e alguns esboços de arranjos. Essa prática já havia sido usada há algum tempo, pelo próprio Miles e por vários outros músicos de jazz. A Love Supreme, de John Coltrane, também foi gravado seguindo esse método.

Uma vez tudo isso gravado, coube a Teo Macero [produtor do disco] desempenhar um papel fundamental, que ele já vinha desenvolvendo desde o disco A Kind of Blue, do Miles, que era o papel de edição musical. Pra quem não sabe, é pegar a fita gravada e cortar as partes emendando uma parte na outra, a fim de construir algo com um certo senso de forma, de estrutura musical. Então, sobre essa colcha de retalhos, foram gravando mais sons por cima [os chamados overdubs] e processando efeitos de áudio em vários momentos.

Essa prática, hoje em dia, é muito comum na música pop em geral, mas para a época não era. Com isso, o produtor passou a ser responsável não apenas pela qualidade técnica do disco, mas também pelo seu valor artístico. E, assim, as músicas foram sendo criadas na sala técnica do estúdio, uma a uma, resultado de uma colagem feita na pós produçao do disco.

Dessa forma, entendendo o processo criativo desse disco, nós aqui seguimos na mesma ideia. Não pensamos o disco como ele se encontra em seu estado final, nas músicas ali colocadas com nomes e divisões de faixas, mas procuramos identificar os diferentes grooves, texturas, linhas de baixo, frases temáticas e etc que permeiam, de certa forma, o álbum inteiro. Procuramos estabelecer um roteiro, organizando os momentos em que cada parte entra e sai de cena, como que se estivéssemos, nós mesmos, editando a fita em tempo real, no palco.

Acho que essa é a chave que desvendou o enigma de como recriar esse disco. E uma das coisas mais importantes a se aprender nesse trabalho.

Apesar disso, o On The Corner foi bastante criticado quando saiu. Diziam que ele estava maculando o jazz. Mais de 40 anos depois, qual você acha que foi o grande legado do disco?

Ele é muito importante para mim por ser uma das primeiras tentativas na história da música ocidental de aproximar as massas juvenis de uma música mais difícil, mais abstrata, diferente... Poucos conseguiram isso sem se corromper, sem precisar usar os apelos comerciais fáceis do formato da canção. Miles é um dos pouco que conseguiram essa proeza, mostrar novos caminhos aos jovens, mudando assim o sentido de suas vidas.

Que tal apresentar-se no Serralheria? Gosta de tocar lá?

Gosto muito de tocar lá. Me sinto realmente muito bem, é uma casa que vem crescendo a cada dia, e fico feliz de estar num momento tão bom, me sentindo artisticamente forte para poder contribuir ativamente nos eventos que a casa promove.

A influência de Miles Davis na tua obra vem desde do “Punx”. Lembro de ler alguém falando de um elemento transgressor que unia você e ele. Qual tua relação com a obra do Miles em geral?

Sim, realmente, acho que esse elemento me une muito mais a ele do que qualquer outra coisa, é onde se pode perceber mais claramente a influência. Esse espírito transgressor foi uma das coisas que percebi mais rapidamente e pude assimilar de forma mais natural. Na real, tratando-se de Miles Davis, existem vários níveis de influência; uns mais difíceis de assimilação e que requerem muita disciplina e esforço, horas e horas de estudo, dedicação, inteligência, paciência e aprimoramento para conseguir se aproximar de lugares aonde pode-se encontrar níveis de entendimentos mais profundos.

Queria que você falasse um pouco da banda que te acompanha. Como foi a escolha desse time?

A formação desse show de sábado será como uma reunião de varios parceiros que vem colaborado comigo desde o início, mas não todos - vão faltar Curumin, Rian Batista, Richard Ribeiro, Marcão Gerez. Mas estarão vários parceiros, como o Régis Damasceno, que vem tocando comigo desde o começo, Mauricio Takara, que gravou no Calavera [segundo disco de Guizado, lançado em 2010] e já assinou composições comigo. Além disso, têm novos parceiros que entraram para o time como, Guilherme Valério na guitarra e Thiago Babalú na bateria. E, por fim, mais um super novo elemento e com quem vamos tocar juntos pela primeira vez, que é o Leandro Archela, nos teclados. Existe uma seleção natural dos caras, pessoas que eu acabo conhecendo por tocar em outros trabalhos, ou que tocam com outros músicos que admiro e que acabam chamando a minha atenção.

Quais sons você ouviu durante sua formação que te levaram a escolher o trompete como instrumento?

Sempre ouvi muita música em casa. Meus pais tinham um som legal e uma estante cheia de discos que eu passava a tarde mexendo. Mas uma coisa marcante foi quando fiquei sócio de um sebo na rua Lisboa, em São Paulo, que era como um clube. O "Sebo de Elite" era cheio de discos de todos os tipos e épocas. Daí, tive acesso a muita coisa. Tinha um disco de blues do Dizzy Gillespie junto com Sonny Stitt que eu costumava tocar em cima, pois era bem simples, junto com um amigo que hoje mora na Bahia, o Marcos Túlio. Na época, eu estava começando a estudar saxofone e passávamos a tarde toda tocando em cima desse disco e de alguns outros. Para nós, parecia soar legal, ntão fui pegando gosto, me entusiasmando.

Fora isso, tinha o Márcio Montarroyos, que tocava muito trompete, era compositor e lançava discos como artista. Ouvia muito o Serginho Trombone também, e o Bocato, que estava sempre lançando discos pela Baratos e Afins na época. Eu admirava muito esse ímpeto de criação que esses caras tinham, e isso me influenciou muito, muito mesmo.

Se pudesse escolher outro disco de jazz para recriar, no mesmo esquema que está fazendo com o On The Corner, qual escolheria?

Um disco que seria uma encrenca brava mas que poderia ser bem legal é o do Hermeto Paschoal – Slave Mass. Montaria uma big band para fazer esse show.

Punx saiu em 2008. Calavera saiu em 2010. Agora vem “A Busca”, seu terceiro disco. Ele já tem data pra sair? O que você está preparando neste novo trabalho?

Esse nome, "A Busca", não precisa ser necessariamente o nome do disco, tem mais a ver com o conceito desse trabalho todo. O nome é o que gera força inspiradora para as músicas, para os tema e da história a ser narrada através das músicas. Esse trabalho está pra ser lançado no próximo semestre e envolve ideias bastante ambiciosas. É um pouco cedo para serem divulgadas. Mas vale a pena esperar, porque estou trabalhando com força total nisso.

***

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

Comentários
Postagens relacionadas

18/10/2018 Geral

PLAYLIST | Amor Geral

09/10/2018 Entrevistas

PLAYLIST | Roberta Martinelli

01/10/2018 Entrevistas

As oito viagens de Tatá Aeroplano

24/09/2018 Entrevistas

FALA-SE DE MÚSICA | Luedji Luna

Shows relacionados
POPLOAD FESTIVAL 2018
15/11/2018 - 11:00 hs
Memorial da América Latina
R$180 a
R$750
comprar
POPLOAD FESTIVAL 2018
JOÃO BOSCO
09/11/2018 - 22:00 hs
Casa Natura Musical
R$120 a
R$70
comprar
JOÃO BOSCO
KELL SMITH
08/11/2018 - 22:30 hs
Bourbon Street
R$50
comprar
KELL SMITH
BAVINI E SÉRGIO REIS
08/11/2018 - 21:00 hs
Teatro Opus
R$100 a
R$80
comprar
BAVINI E SÉRGIO REIS
MIRANDA APRESENTA: NOITES BACANEZA 08/11
08/11/2018 - 22:00 hs
Z Carniceria
R$20 a
R$30
comprar
MIRANDA APRESENTA: NOITES BACANEZA 08/11