Ando nas ruas do centro... e encontro música

"Ando nas ruas do centro Estou lembrando tempos" (Vanessa da Mata em 'Carta')

Às 9h30, estou na Rua Maria Antônia e vou rumo ao centro. Tenho uma pauta a fazer para o Azoofa: visitar lojas de discos, de instrumentos, sebos - qualquer lugar minimamente relacionado à música - e conversar com pessoas que tenham feito verdadeiras loucuras para assistirem a um show. Passo em frente à universidade onde me formei há longos três anos atrás. Há um intenso entra e sai de garotos com mochilas nas costas e garotas de cabelo molhado. Passo o portão, mas logo volto. Quero entrar. Descubro que, diferente da minha época, há catracas que impedem o acesso de não alunos. E ex-aluno saudosista? Ex-aluno pode. Entro. De cara, vejo o prédio onde tive minha primeira aula. Foi numa quinta-feira. Essa memória tão exata do dia da semana tem explicação: as aulas começavam na segunda-feira, mas foi só na quinta que eu tive coragem de entrar na faculdade. Nos outros dias, tudo o que eu conseguia fazer era ir até a porta, tremer as pernas e dar meia volta. Olhando o prédio agora, me percebo. E percebo os 9 anos que separam uma história da outra. Não estou velho, mas sou um inegável adulto que ouve Angel Olsen num fone branco cujo som sai de um celular de última geração cuidadosamente guardado no bolso da calça. Há 9 anos eu ouvia Led Zeppelin no discman e meu bolso era uma bagunça de pilhas e maço(s) de cigarro, que eu fumava alucinadamente no intervalo entre uma aula de Economia e outra de História do Jornalismo. "Over The Hills and Fair Away" explodindo nos fones Philips, cigarro na boca e o olhar nas meninas que me pareciam todas recém-saídas de um filme que, cedo ou tarde, eu seria o protagonista. Peço um café na mesma lanchonete que eu comia pão de queijo e coca como almoço de forma a economizar a grana da cerveja que tomaria a noite. Pego o café, ligo o computador e, no tempo de três goles, escrevo essa história.

Como definiu Elaine Benes em um episódio de Seinfeld: eu não sou nada daquilo que achei que seria. Mas o que você achou que seria? Não sei, mas não era nada disso.

Amasso o copinho. Hora de voltar pra rua.

O sebo Stock Cultural fica na rua da Consolação, bem em frente à saída do Mackenzie. Ao seu lado direito, está a lanchonete Bio Pão, certamente uma das mais ligadas de São Paulo, pois só a vi fechada uma vez, e era 1º de janeiro.  À esquerda, o primeiro prédio em que morei quando me mudei do interior para a cidade grande. O Stock Cultural é, sem sombra de dúvidas, o mais desorganizado sebo que já pus os pés. Livros sem nenhuma relação entre si se misturam desavergonhadamente à CD’s de Shania Twain e DVD’s de Telecurso 2000. Trata-se de um grande corredor onde você mal consegue caminhar e que, ao fundo, guarda a seção de vinis. Divididos por nome de artistas, há muita música brasileira da década de 70 e 80 e pouco jazz. Mas, ainda que o acervo fosse o melhor do mundo, nunca poderíamos acessá-lo, porque pesadas estantes de ferro de cor cinza estão delicadamente guardadas EM CIMA dos vinis. “Qualquer hora vamos fazer uma reforma aqui”, me informa o funcionário, um jovem mal humorado de pouco mais de 25 anos, “e aí é só tirar as estantes de cima dos discos e colocá-las em algum lugar”. Não vale explicar a ele que esta foi uma péssima ideia, então me dirijo à seção de fitas cassetes. Há uma infinidade delas, obviamente desordenadas. Tracy Chapman, Amado Batista e – surpresa – Edgar Poças, pai da cantora Céu e compositor de músicas infantis, são os artistas mais recorrentes. Resolvo comprar algumas, a R$ 2 cada: "Jimmy Cliff in Brazil" (Jimmy Cliff), "XYZ" (Andy Summers), "Amor" (Eydie Gorme & The Trio Los Panchos) e "Onze Sambas e uma Capoeira" (Paulo Vanzolini). 

Saio de lá. Desço a Consolação, dou uma volta a esmo pelo centro: Praça Roosevelt (som de skates), Rua Araújo (onde vejo uma gráfica cujo espaço é dividido assim: 10% para um balcão com uma impressora, 90% com várias mesas vendendo frutas – as melancias pareciam ótimas)

e paro no Copan (onde entro numa locadora de vídeos, sou muito bem atendido por um senhor que fala comigo e ao telefone ao mesmo tempo e descubro uma pequeníssima seção de DVD’s musicais. São apenas 12 títulos e predominância de coisas como Coldplay, Queen e U2 – mas está lá também a melhor banda de todos os tempos segundo Eduardo Lemos, os Paralamas do Sucesso. Tal descoberta faz florescer em mim uma audácia antes desconhecida, e o resultado é que eu bato uma foto enquanto falo com o senhor que fala comigo enquanto fala ao telefone.)

Estou na Praça da República. Vou a uma banca comprar o jornal. Lá dentro toca uma música alta. O atendente, um adolescente de camisa laranja e óculos verde berrante, batuca em cima do balcão, dedilhando seus dedos que às vezes resvalam nas balas 7 belo que custam 0,15 centavos cada (10 por 1 real). A música vem de uma única caixa de som que está presa ao teto da banca. Parece a voz da Rihanna. (Toda música pop americana lançada nos últimos 5 anos, e que é cantada por uma mulher, eu acho que é a Rihanna). Resolvo perguntar pro atendente. “É Lady Gaga”, ele me responde displicente enquanto tecla no celular. “Você gosta?, eu retruco em tom provocativo. “Gosto, mas sou eclético. Por isso eu ouço essa rádio”, e antes que eu faça a pergunta “e qual rádio é essa?”, ele mesmo completa. “Radio Disney”.  Minha cara de “como assim que porra é Rádio Disney” o anima e ele de repente está interessado em falar comigo. “A Rádio Disney é a melhor rádio de São Paulo atualmente. Conheço todas, porque fico o dia inteiro na banca procurando uma rádio boa e te garanto que nenhuma é tão boa quanto a Rádio Disney”. Uma menina ruiva se aproxima. Suas grandes espinhas no rosto me lembram uma amiga antiga. Ela se chama Kelly, tem 19 anos e, quando não há clientes na banca, gosta de ler revistas em quadrinhos. Descubro que o fã da Rádio Disney atende pelo nome de Samuel. “Pode crer, a Disney é muito boa”. É a Kelly se intrometendo, enquanto pega meu jornal que jazia em cima das balas 7 belo e delicadamente o coloca numa sacola plástica branca. “Toca muito rock, sabia? E pop também, tipo Lady Gaga”. Samuel se dirige a ela. “E rolam uns funks de vez em quando, né Kelly?”. Ela faz que sim com a cabeça, séria. Reparo num antigo pôster da revista Playboy que está atrás dela. “Mas Rádio Disney tocar funk não é meio estranho?", eu pergunto, já de saída. A Kelly dá um sorriso de canto de boca e me entrega a sacola com o jornal. “Mas é funk sem palavrão, né senhor?”.

Ainda quero fazer uma pauta sobre consumo de CD’s. Me espanta o número de lojas no centro da cidade que vendem exclusivamente CD’s. Em uma delas, no Largo do Arouche, os discos de Tatá Aeroplano e Verônica Ferriani estão na vitrine em destaque idêntico ao dado para artistas mais populares, como Cláudia Leitte e Justin Timberlake. Há também algumas lojas que se atêm a um gênero. Na Augusta tem uma que só vende CD’s de trilhas sonoras de filmes, na 7 de Abril há uma outra especializada em jazz e, neste dia, descobri a Santana Discos, cujo foco é a música clássica e ópera. Não sou um entendido nem entusiasta dos gêneros, mas mesmo assim resolvo entrar na Santana. Em meio a inúmeros CD’s de diversos artistas, dos tradicionais aos modernos, estão também vinis, DVD’s e até filmes. Quase de saída, vou na seção destinada a Mahler e encontro um CD do Wando.

No centro de São Paulo, há muitos músicos fazendo shows a céu aberto. A maioria se apresenta tocando um instrumento ao vivo em cima de bases pré-gravadas, que saem quase sempre de uma única e precária caixa de som. Em frente ao Teatro Municipal, por exemplo, um homem devidamente acompanhado de um simples teclado Casio toca canções românticas.Seu público é formado por cerca de 15 pessoas que costumam aplaudir animadamente quando Wellington faz solos “de verdade” em seu piano elétrico. Poucos metros à sua frente, na entrada do prédio da Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad e seus funcionários já se acostumaram com o som do duo Nobalde, formado por um animado garoto na função de voz e violão e o seu concentrado colega responsável por tocar... baldes. Sim. São quatro ou cinco baldes de tamanhos diferentes espalhados pelo chão, em que cada objeto possui um som mais ou menos grave/agudo. Quando passei por eles, por volta do 12h, saía uma versão reggae de “O Xote das Meninas”, de Luiz Gonzaga. O balanço estava tão bom que uma rechonchuda senhora de vestido rosa parou para vê-los e começou a dançar sozinha, para deleite da pequena plateia e de Haddad, caso ele estivesse naquele momento curtindo o Nobalde da janela de seu gabinete.

Mas nem Wellington nem o Nobalde, no entanto, me chamam tanto a atenção quanto um sujeito de nome William Lee. Munido de uma guitarra sem marca, mas visualmente parecida às clássicas Fender Stratocaster, este homem alto, de bigode e que deve ter não menos que 50 anos de idade interpreta clássicos do rock internacional em plena Barão de Itapetininga. Ele fica em pé das 10h às 18h. Não se limita a tocar o instrumento, mas também canta – e canta bem, em um inglês muito acima da média quando comparado aos seus colegas de rua. Paro para ouvi-lo. Ele está mandando “Sultans of Swing”, a mais famosa canção de Mark Knophler, dos Dire Straits, uma canção cheia de desenhos específicos que ele executa de maneira impecável. Faz caretas quando atinge notas agudas e interage com a plateia formada por homens e mulheres de todas as idades, incluindo uns noias que passam a tarde "dançando ao som do Lee", segundo me contou o jornaleiro da banca ao lado. A base pré-gravada do Lee fica armazenada em um iPod preto de 16GB ligado à uma caixa de som de tamanho médio, a mesma caixa que emite o som da guitarra. Embora o áudio saia embolado, a guitarra prevalece, e como o músico toca muito bem, o resultado final é satisfatório. Em sua versão original, "Sultans of Swing" é uma música que acaba em fade out – quando o volume da música vai diminuindo gradativamente até não haver mais som. Mas Lee é criativo e encerra sua versão fazendo um solo astronômico, em que move seus dedos por todos os cantos da guitarra até encerrar a performance de forma apoteótica, para delírio e aplausos entusiasmados dos 20 e poucos presentes que o rodeiam às 13h28 do dia 09 de abril de 2014. Jogo uma nota de dois reais num chapéu próximo à caixa de som, onde, reparo agora, estão alguns CD’s com capa de papel onde se lê “William Lee, Perfil – Classic Rock”. Já estou longe mas ainda ouço ele dizer “essa aqui vai pra vocês” e imediatamente soam as notas inconfundíveis de “Cocaine”, que não me impedem de ouvir, também, um noia gritar bem alto: “Lee, eu te amo!”.

***

Uma surpresa: às 18h15, dois garotos fazem um som no metrô República - um ao piano, outro ao violão. Tocam músicas tristes que não conheço. Pela expressão indiferente das cinco pessoas que os assistem, avalio que elas também não saibam que som é aquele. Música própria? Versão para o hit de uma banda paquistanesa? Não importa. A gente só estava fascinado por poder ouvir música - e não barulho de cidade - em plena quarta-feira 18h15 no metrô República.

***

Uma explicação: saí de casa para fazer uma pauta e entreguei outra, embora tenha conseguido meu objetivo de colher bons depoimentos de pessoas que fizeram loucuras para ir em shows, e vá ser publicada qualquer dia desses. Mas há vezes que o acaso é forte. O trajeto é mais interessante que o destino final. E fechar os olhos pra esses presentes é ser o mais estúpido dos jornalistas.

***

A letra da Vanessa da Mata que abre este texto é linda e está na música "Carta (Ano de 1890)", do primeiro disco da cantora. É linda.

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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