Por dentro do ensaio: Liquidus Ambiento

1.

Itacyr Bocato é um dos maiores nomes da música brasileira. Um artista na maior acepção da palavra. Mas, às 11h25 da última quarta-feira, quem o vê desajeitadamente sentado em um dos sofás do Estúdio Nimbus não compraria essa afirmação. Bocato não parece apressado nem ansioso para o ensaio de logo mais do grupo Liquidus Ambiento, o último que a banda faz antes do show de hoje no Sesc Pompeia para o lançamento de seu segundo álbum, Oyster, e do qual Bocato é um dos convidados especiais. 

2.

Lá fora, Felippe Pipeta (trompete), Gil Duarte (trombone, flauta e EFX’s) e Igor Thomaz (saxofone) conversam animadamente enquanto atravessam a rua rumo à porta do estúdio. Ao entrarem, passam ao lado de outro convidado, o músico pernambucano Siba, que também espera o início do ensaio. Siba está quieto e parece concentrado, embora seu semblante transmita uma tranquilidade invejável.

3.

O clima de quietação não traduz a importância daquele encontro. O Liquidus Ambiento é uma banda de 12 anos de estrada e um disco lançado (mini.MONDO) mas só a partir de 2010 consolidou uma formação que vem tornando-a uma das mais importantes da nova cena instrumental brasileira. A força do seu som, que mistura criativamente funk, jazz, dub e outras vertentes, está na capacidade de improviso de seus integrantes, todos músicos tarimbados e, ao mesmo tempo, em plena ascensão. O novo álbum comprova isso ao apresentar canções ora dançantes, ora densas, mas todas tão bem construídas quanto bem executadas.

4.

Mas há algo mais: Siba está prestes a ir para a Europa e Bocato entra neste ano em um período de recesso. Além do mais, há as participações de Beto Villares – um dos mais prestigiados produtores brasileiros e premiado compositor de trilhas sonoras para cinema e TV – e de Gustavo da Lua, percussionista da Nação Zumbi e prestes a entrar em turnê com a banda.

Ou seja: havia um belo time prestes a fazer um de seus últimos jogos juntos. E, como sabemos, craque que é craque não se abala no dia da decisão.

5.

Na ampla e iluminada sala de ensaio que fica no segundo andar do estúdio, a equipe titular do Liquidus está posicionada: Master San (contra-baixo), Gil Duarte, Igor Thomaz, Felippe Pipeta, Lello Bezerra (guitarra e EFX´s), Heitor Matos (sitar), Elias Debenedetti (bateria) e Beto Montag (vibrafone e EFX´s).

6.

Bocato está desajeitadamente sentado – dessa vez num pequeno banquinho - ao lado de Felippe, Igor e Gil, o trio responsável pelos metais. “Imagina o som que vai sair daqui”, ele diz. “E hoje eu tô só com meio pulmão”, brinca Felippe, e completa: “Não precisa mais que isso, né?”. Ele ri e concorda com a cabeça. A banda começa a tocar “Cosmic Take”, e Bocato faz sua primeira participação no ensaio: um solo improvisado intenso e entrecortado. Quando não está tocando, Bocato mantém-se em pé e sustenta uma postura corporal que, pode-se dizer, é quase uma marca registrada: o pé direito um pouco à frente do esquerdo, as costas levemente arqueadas e a mão direita guardada dentro do bolso da calça. Na outra mão, o trombone. Seus olhos estão fixos na banda e ele parece se divertir com o balanço seco e funkeado da música.

“Bocato, pensei em você fazer também a próxima música”. É Master San (baixo) falando. Bocato abre um sorriso e diz “vamos, vamos”. Elias Debenedetti (bateria) propõe: “pode ser naquela hora em que fica só a batera e a percussão”. Bocato faz que sim com a cabeça. Ainda está sorrindo. Quando chega a hora, ele faz um solo grave e algo soturno – uma escolha inesperada – e atrai para si os olhares de todos os músicos da sala. Ele não vê, pois está encurvado e ainda de olhos fechados. Mas não duvido que tenha sentido, como o craque do time deve sentir a expectativa da torcida quando resolve pegar a bola e partir para o ataque.

Ao fim, Gil Duarte é o único que consegue falar:

-       Putaquepariu. Só falo isso.

Não era mesmo preciso falar mais nada.

7.

“Mindscape” é o momento mais jazz do novo disco do Liquidus. Quase que por toda a música, Felippe repete um fraseado hipnotizante. Bocato me chama e fala baixinho: “Você não acha que parece muito Nino Rota [compositor das trilhas sonoras dos filmes de Federico Fellini]?”. Nesse instante, Siba inicia sua primeira participação tocando rabeca. Suas primeiras notas são secas e agressivas, num contraponto perfeito ao andamento cool da música. Aos poucos, ele vai construindo uma melodia belíssima que vai crescendo e deságua apoteoticamente com a banda toda o acompanhando. E esse momento tira um sorriso discreto de cada um dos músicos – garanto. Eu fiz questão de olhar um a um.

8.

Aconteceu com Bocato e acontece com Siba: Master San convida o músico, ex-Mestre Ambrósio, a participar de mais uma faixa. Ele topa. Bocato quer saber se já está liberado e ouve um não – “queremos que você toque outra canção”. Ele fica feliz – “vocês são maravilhosos” - e, ato contínuo, elegante, pede para que passem a música de Siba primeiro. Mas o pernambucano é contra. Bocato agradece a preferência e puxa papo. “Siba, é tão bom tocar na banda dos outros né? Você não fica estressado. Eu venho aqui e penso: que maravilha!”. Siba concorda e, antes da próxima música começar, oferece-lhe a rabeca e brinca. “Quer tocar na minha vez?”. Os dois riem.

Na hora de se despedir da banda, Bocato pede a palavra. “Vocês fazem o som da era de Aquarius. O som de vocês é aquele que não força a onda. É pra todo mundo ouvir. Obrigado pelo convite” A turma bate palmas e Felippe arremata. “Obrigado você. Esse ensaio é pra gente, não pra você”. Bocato sai da sala e ganha o corredor. Está levemente emocionado. Alcanço-o perto da escada, e ele me confessa. “Essa é a primeira vez que ensaio com a banda. Não parece. Eu fico ali flutuando, é muito fácil tocar com eles”. Bocato desce as escadas. E guarda a mão direita no bolso.

9.

“Lo-Fi Sinergy” é a mais lenta e densa do novo repertório, e permite que Siba faça uma performance contundente com sua rabeca. Destaque também para Gil Duarte na flauta. No meio da música, Beto Villares chega ao ensaio. Ao lado dele, dois ajudantes carregam um piano branco, que logo será montado no canto da sala. Em cima do piano estão diversos efeitos, que logo são usados por Beto nas próximas músicas, menos dançantes que as primeiras, mas mais propícias ao improviso, especialmente da cítara e da flauta.

10.

Pra dançar, pra apreciar músicos instigantes, por ser véspera de feriado: definitivamente, não há melhor lugar para se estar hoje em São Paulo do que no Sesc Pompeia às 21h30 - saiba mais sobre o show.

***

texto: eduardo lemos | fotos: gustavo kamada | arte: belisa bagiani

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, ex-aluno de futuro promissor, ex-músico de gosto duvidoso e ex-meia direita que já fez gol que saiu no jornal.

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