Passagem de som: Beatles

Os bastidores da noite em que João Barone, Liminha, Paulo Miklos, Dado Villa Lobos, Leoni, Sandra de Sá, André Frateschi e Marjorie Estiano fizeram seu tributo aos Beatles

Ato 1: "Não basta ser o melhor baterista do Brasil, tem que cantar". 

A passagem de som começa pouco depois das 17h. João Barone é o único que já está em cima do palco, já posicionado em sua bateria cujo bumbo tem um logo moderno dos Beatles. Ele acerta uma coisinha ou outra – aproxima o chimbal, arruma o microfone pra mais perto de si. O guitarrista Gustavo Camardella é o segundo a chegar. Barone começa a tocar sozinho. Logo Gustavo empunha seu instrumento e começa a tocar também, e os dois iniciam uma brincadeira improvisando rock's antigos. Gustavo está se divertindo, mas Barone está ainda mais - tanto que começa a cantar. Ele escolhe “What Goes On”, de John, Paul e... Ringo, "o beatle mais importante e que compôs as melhores músicas da banda", como brincou o baterista dos Paralamas mais tarde. A dupla ainda tocaria mais uma música, mas logo eles tem que parar, porque Liminha (baixo), Dado Villa Lobos (guitarra), Leoni (violões e guitarra), Toni Platão (voz), Emerson Ribeiro (violões) Cris Cafarelli (teclado) estão finalmente prontos para iniciar a passagem de som.

Ato 2: Daniel, Daniel, Daniel!

Barone: Abaixa o baixo aqui no meu fone, por favor.

Leoni: Pro Leoni também, por favor.

Liminha: Vamos lá, pessoal. A gente só tem uma hora pra passar o som.

Dado Villa Lobos começa a passar o som da guitarra

Liminha: Peraí, Dado. (Dado para).

A primeira música que a banda toda toca na passagem de som que fazem no Espaço das Américas naquela quarta-feira, quatro horas antes do primeiro e único show do projeto em tributo aos Beatles na cidade São Paulo, curiosamente, não é uma música dos Beatles. É “Pinball Wizard”, do The Who. Mas é só por alguns segundos, porque logo entra “Back in The USSR”, com Leoni no vocal. A versão é muito mais pesada que a original, em parte graças ao ritmo alucinante que Barone imprime à bateria. Leoni canta no microfone sem fio e age como se estivesse realmente no show: anda de um lado para o outro olha para o outro, mira as cadeiras vazias que logo se tornarão plateia, interage com Dado Villa Lobos – quando o guitarrista da Legião vai solar, por exemplo, Leoni o apresenta como “Dado Villas Boas”, e todos riem.

Todo mundo: Daniel, Daniel, Daniel!

Toni Platão: Se ficar todo mundo chamando o Daniel ao mesmo tempo, não vai rolar. Ele é um menino muito jovem”. O tom é de brincadeira, mas Liminha está mais sério. “A próxima música é Dear Prudence, e no último show, tinha muito grave no violão. Precisa diminuir esse grave”.

Daniel: Ok, já diminuí aqui.

Liminha: Então vamos, Dear Prudence.

Na primeira vez que eles tocam, destaca-se a voz suave de Toni Platão e os backing vocals operados por Emerson e Gustavo. Algo não agrada Liminha, que pede a palavra no meio da execução. “Vamos passar isso direito?”. Toni aproveita o intervalo para  falar com a mesa de som e regular o que ele está ouvindo no pequeno fone que traz na orelha. “Se eu ouvir só voz e violão nessa música, tá ótimo. É só o que eu preciso”. Mas a banda ainda está se acertando – então, Toni aproveita e, bem humorado, canta uma versão galhofeira de “Sitting on the Dock”.

E eles passam Dear Prudence novamente.

Ato 3: A ideia de Toni Platão

A introdução de "Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band" é pesada. Quem canta é Gustavo. Liminha interrompe. “Tem um grave sobrando. Não consigo tocar”. O ajuste é feito, eles passam a música e ela sai perfeita – o que é bom, porque nesse exato momento chega Paulo Miklos, um dos convidados para tocar com a banda nessa noite - os outros são as cantoras Marjorie Estiano e Sandra de Sá e o cantor André Frateschi. Paulo Miklos ainda não está em cima do palco, mas na região reservada à plateia, e faz as vezes de espectador empolgado da passagem de som dos amigos. Mesmo de longe, cumprimenta um por um acenando a mão e emitindo sorridos verdadeiros, gestos que ele fará novamente quando estiver lá em cima.

A banda junta "Sgt Peppers", "With a Little Help" e "Lucy in The Sky" da mesma forma que os Beatles fizeram originalmente na abertura do seu mais icônico álbum. Tudo corre bem e Paulo Miklos já está lá em cima do palco, com a cabeça pra fora da cortina que separa o camarim do palco, e conversa rapidamente com Leoni.

Toni Platão: Daniel, Daniel... abaixa todo mundo, menos as pontas (teclado e Emerson), porque eles são legais, educados e disciplinados. Agora essa turma aqui do meio (Barone, Liminha, Dado e Leoni), esses caras são terríveis!”

Liminha: Daniel, tem um grave sobrando. Tá difícil de tocar. Vamos resolver isso aí.

Toni: Show de Beatles... tem que abrir a casa 10 minutos antes do show, pra galera entrar correndo e dar aquele clima de Beatles” (risos)

Leoni: É, aquelas meninas se estapeando... (risos).

Ato 4: Here Comes... I Need You

O começo é de “Here Comes The Sun”, mas a banda fez uma interessante mistura entre o arranjo da famosa composição de George Harrison com a letra e andamento de “I Need You”, que Dado Villa Lobos canta com segurança. Dela, emendam “Taxman”, que permite um bonito dueto da cozinha Liminha e Barone. O primeiro fazendo a linha de baixo característica da música de forma mais acelerada, e Barone acompanhando.

Ato 5: Marjorie, a pequena notável

Liminha: Toni, você não tá cantando alto porque? Pra economizar a voz?

Toni: É... mais ou menos.

Liminha: Porque a gente fica achando que tem algo errado...

Toni: Eu preciso sempre da primeira frase da letra, se não...

Liminha: Então vamos tocar pra valer... com vontade e com a letra certa!

As inconfundíveis notas da introdução de “Come Together” dão as caras. Cris, Leoni, Dado, Barone, Liminha, Gustavo e Emerson fazem uma intro viajandona e mais longa que a original, dando espaço para improvisações de Dado e Barone, especialmente. A jam dura cerca de 2 minutos e, repentinamente, as caixas de som reportam uma voz invisível cantando “here come old flat top”. Logo o mistério se desfaz: Marjorie Estiano surge por detrás das cortinas, microfone na mão e com semblante concentrado. Ela canta e caminha rumo ao centro do palco. Lá ela fica e apresenta uma poderosa versão da música. Sua voz mostra potencia e ela arrisca brincadeiras na melodia da música que se mostram acertadas.

A música termina em punk rock, graças a Barone, que acelera o ritmo e cria um clima apoteótico para o final, com direito a solo de Dado Villa Lobos.

Ato 6: In the end, the love you take is equal to the love you make

Marjorie está à vontade no palco. Sai do centro para se posicionar ao lado de Dado Villa Lobos. Lá, ela encaixa o microfone que trazia na mão ao pedestal e começa a cantar “She Came in To The Bathrow Window”. Ela canta em um tom bastante alto. A música dura pouco, porque logo o grupo emenda “Golden Slumbers”, e o palco ganha mais um integrante: o cantor e ator André Frateschi. Os dois cantam juntos essa que é das mais belas representantes do cancioneiro beatle. João Barone, como sempre, se destaca, principalmente quando entra o solo de bateria, originalmente muito mais lento e cadenciado do que o apresentando pelo paralâmico.

Ato 7: Dado Villa Lobos está certo

Dado Villa Lobos disse em alguma entrevista que, pra ele, um dos momentos altos desse show é quando André Frasteschi canta “Oh! Darling”. Faz sentido. André está à vontade como bandleader momentâneo. Sua voz alcança os altos tons que a música exige, uma conquista não sem esforço, mas com a tranquilidade dos bons cantores, e ele até manda beijo pra uma amiga que passeia na plateia vazia, bem ali no meio da música.

Alguém fecha a cortina.

É só um teste. Está tudo bem com a cortina, ela está funcionando.

Alguém abre a cortina, e Sandra de Sá está no palco.

Ato 8: Sandra de Sá sabe tudo

Sua figura carismática contribui para que o final da passagem de som seja mais leve. Deram “Hey Jude” para Sandra cantar, e essa foi uma das mais acertadas decisões de Liminha, responsável não só pelo baixo mas também pela direção musical do espetáculo. Sandra domina Hey Jude com uma destreza ímpar. Sua voz se encaixa perfeitamente à doce melodia, e ela pode mostrar toda sua extensão vocal na parte final da música. Em meio ao coro final de “Hey Jude”, ela puxa “Freedom”, de Richie Havens, e deixa o clima ainda mais woodtockiano do que uma reunião de amigos tocando Beatles já é capaz.

Ato 9: O mais heavy metal dos convidados

É a vez do último convidado. Paulo Miklos entra no palco de óculos escuros. Cumprimenta Leoni, abraça Dado, alcança Barone em meio aos pratos da bateria, faz graça com Liminha, aperta efusivamente a mão de Emerson e Gustavo. Paulo Miklos não é só um cara boa praça: é um excepcional cantor. E isso fica ainda mais claro, e muito claro, em sua versão para “I’m Down”. Na sequência, com direito a introdução remetendo a “Lugar Nenhum”, dos Titãs, Paulo encerra sua passagem de som interpretando "Helter Skelter", a mais pesada canção dos Beatles. A música termina e o astral está lá em cima. Paulo brinca: “É... eu sou o mais heavy metal de todos”.

Ato 10: Fim, ou vai começar!

A passagem de som acaba às 19h10, exatamente 2 horas e 20 minutos antes do início do show. Os músicos descem do palco rumo ao camarim. É lá que vão se trocar - no show eles se apresentam vestidos de impecáveis ternos - e esperar o início do espetáculo. Enquanto a cortina se fecha, alguém da produção grita lá do fundo:

“Pode abrir os portões lá fora para o público! Pode abrir!”.

Pode abrir, mesmo. Os caras estão preparados e estão com tudo.

***

PS: vocês repararam que esse show reúne Paralamas, Titãs, Legião e Mutantes no mesmo palco?

fotos: rafael michalawski | arte: belisa bagiani

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, ex-aluno de futuro promissor, ex-músico de gosto duvidoso e ex-meia direita que já fez gol que saiu no jornal.

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