Azoofa Indica: Festival CCBB de Música Urbana

O chamado "rock brasileiro dos anos 80" pode não ter sido um movimento, como na época chamou a atenção o jovem Arnaldo Antunes - não havia, segundo ele, uma unidade estética, musical ou poética que justificasse colocar no mesmo bolo a Blitz e a Plebe Rude, por exemplo. Há, no entanto, uma classificação que não pode ser criticada: a que o faz a partir das origens das bandas.

Havia, nesse sentido, um rock carioca, talvez resumido nos Paralamas. Havia o rock paulista, cujo maior destaque eram os Titãs, de Arnaldo Antunes. E havia, claro, o rock vindo de Brasília, cujo título de grande representante ninguém tira da Legião Urbana, mas que tinha outros bons grupos, como a genial Plebe Rude e o irregular Capital Inicial.

O Festival CCBB de Música Urbana, que acontece hoje e amanhã no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, é uma homenagem à música que nasceu na capital federal a partir das inquietações daqueles jovens com o conturbado momento político do país, e que influenciou a sua própria geração e as seguintes. Saiba mais sobre os shows e horários.

Curador do festival, o músico e produtor Carlos Trilha - que viveu in loco os anos 80 de Brasília, inclusive atuando como tecladista da Legião - conversou com o Azoofa sobre os critérios para a montagem do line-up e como bandas como a paulistana Vespas Mandarinas apresentam uma "esperança" para o rock brasileiro.

AZOOFA: Trilha, como você recebeu o convite do CCBB para ser o curador do festival?

No ano passado estreou o filme "Somos Tão Jovens", de Antônio Carlos da Fontoura, que conta a história da formação musical de Renato Russo e a criação da Legião Urbana, para o qual fiz a direção musical. Fui convidado pelo diretor por conta do meu histórico ao lado da Legião e da fase solo de Renato. A idéia inicial da Cinnamon, produtora do festival CCBB, era apenas de montarmos um show a partir do filme, com minha direção e com o mesmo repertório, mas o projeto cresceu a acabou se transformando num festival de rock com foco naquela estética musical, então,  a minha curadoria acabou sendo um caminho natural no desenvolvimento deste projeto.

Como você chegou aos nomes que estão no line-up?

Montar um line-up é um pouco complexo, pois depende de muitos fatores artísticos e logísticos. Mas, basicamente, nossa vontade foi incluir no festival nomes que estiveram presentes no boom do rock brasiliense nos anos 80  apresentando seus trabalhos atuais, como o trabalho solo do Marcelo Bonfá, o novo da Plebe Rude, e também nomes novos que sofrem influência clara daquela geração, como os Vespas Mandarinas. Também incluir artistas que - como o pessoal do pós-punk brasiliense - usam a música principalmente como suporte para as palavras, como faz o Nando Reis; o Ultraje, por exemplo, tem letras diretas e bem humoradas que são, na verdade, brincadeiras carregadas de visões profundas e críticas da nossa sociedade. Nada é mais elegante e rock'n roll do que isso. O Roger é mesmo genial.

Você, Marcelo Bonfá e Paulo Ricardo vão tocar juntos no festival. Como começou essa ideia? Tem planos de fazerem algo para além deste show?

Acho que eles poderiam responder melhor que eu, mas pelo que eu sei,  eles são amigos de longa data, desde os anos 80, e faz tempo que queriam fazer algo juntos. Mas no fundo o motivo é simples: todo mundo gosta de cantar músicas da Legião! Com o Paulo, isso não deve ser diferente.

A Panamericana tem uma proposta muito inovadora. É quase como uma missão, isso de apresentar ao público brasileiro músicas de compositores latino-americanos. O que pensa dessa ideia e dessa distância que ainda se mantém entre o público brasileiro e a música realizada por nossos vizinhos?

Eu sempre gostei do rock argentino, por exemplo. Tem tradição, tem som e um longo histórico de se fazer rock com boas letras usando a música como veículo para palavras necessárias, como Charlie Garcia, Fito Paez, Soda Stereo etc. Acho a idéia de apresentar essas canções ao público brasileiro excelente, mais do que isso: acho necessário.   Infelizmente, ignoramos o que é feito ao nosso lado. Eu sou natural de Florianópolis, então na minha infância convivi muito com argentinos e me acostumei a ouvir rock em espanhol, mas certamente não é assim com a maioria dos brasileiros. A maioria estranha essa combinação, e nós é que saímos perdendo em não ouvir o que eles tem a nos dizer.

Recentemente, entrevistei o guitarrista Chuck Hipolitho, do Vespas Mandarinas, e ele me disse que a banda tinha muita vontade de resgatar um pouco do que a geração 80 fazia: músicas de 3 ou 4 minutos, com refrão, com letras mais diretas e sem tanto experimentalismo. Você acha que elas podem representar um novo momento para o rock brasileiro?

Eu estou apostando muito nisso neste momento, em nova cultura gerada a partir da velha cultura. Assim como eu, tem muita gente querendo fugir da cultura do nada, da bobeira, da bobagem, da ostentação dos novos ricos. Exemplos como o da  Nação Zumbi - que enriqueceu o rock brasileiro nos anos 90, bebendo  da fonte infinita do rock misturando com suas tradições locais - novas bandas de rock dos 2010, como o Humanish, de Curitiba, e os Vespas Mandarinas, de SP, são exemplos de bandas recém nascidas que estão fazendo o novo a partir da releitura do tradicional. São bandas de verdade e que entendem que seu papel é sério, não estão aí só para aparecer. O que eu mais amo no rock é que, ao contrário da maioria dos outros estilos, ele não pode ser definido a partir de um só ritmo ou de uma sequência de notas. O rock é uma postura, é a elegância do simples usado com inteligência, é o som dos instrumentos reais, é o toque que se dá a alguém com uma letra. No rock, você pode ser completamente inovador a partir de elementos ultra-tradicionais, tudo depende da forma de usar, do que combinar com o quê. O que vale é a canção por si.

O festival será realizado no Anhangabaú, um dos locais mais icônicos de São Paulo, uma cidade que ocupa muito pouco seus espaços públicos. Qual é a importância de um festival com tantas atrações grandes ser levado ao público gratuitamente e "na rua"?  

A arte de um povo é reflexo da sua cultura e esta, por sua vez, da sua inteligência. Me preocupa os caminhos que a música popular brasileira tomou, os valores que ela carrega para a sociedade. Montar um festival deste tamanho, gratuito, na rua, com tantos artistas que tem em comum a opção vital de fazer arte de qualidade, com conteúdo, é uma remada importante contra a maré da bobagem e da cultura do vazio. É uma contrapartida social  corajosa e importante do nosso patrocinador, o CCBB.

***

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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