Literatura musical portátil: 5 historietas sonoras

A

A.A. Bondy, não sei qual é o tom do seu rosto. Não sei se você assiste a comédias românticas e possui argumentos interessantes a favor de filmes com a Jennifer Aniston. Não sei se é do tipo que veste camisa por cima da calça. Você sempre chega atrasado aos compromissos? Não sei. Só conheço sua voz, e dela posso dizer: bonita e triste.

B

Baby Charles também tem uma voz que pode ser considerada bonita. Ela é bonita, sim, mas é mais outra coisa.

Outra coisa supera o bonita, entende?

É forte. No sentido de robusto. No sentido de possante também. Lembra a Lara, dos Ultraleves. Descobri o único disco de Baby Charles quando minha vida era faculdade a tarde, muita diversão à noite e pencas de sono de manhã. Então algumas madrugadas eu passava navegando entre sites e mais sites, era 2007 eu acho, numa época em que a internet [fim do espaço]

C

Cacá Machado. Caetano Veloso. Cake. Camera Obscura. Carlos Posada. Carmen Miranda. Carole King. Cartola. Casa Verde Colectivo. Cassandra Wilson. Cássia Eller. Castello Branco. Casuarina. Cat Power. Cataia. Cate Le Bon. Cazuza.

Cecil Lloyd Group. Celso Fonseca. Cérebro Eletrônico. Cesar’s Salad. Cesária Évora. Céu. Chalawa.

Charles Bradley. Charles Mingus. Charlie Parker. Charlotte Gainsbourg. Chemical Brothers. Chet Baker. Chico Buarque. Chico Science. Chris Joss. Chris Murray. Chuck Berry.

Clube da Esquina. Clube do Balanço.

Cocoon. Coffee Makers. Colin Hay. Congos. Cookin on 3 Burners. Corrs.

Criolo.

Cure. Curtis Mayfield. Curumin.

Cyrille Aimé.

D

Dia. Na fila do café. pi. Disco de Dennis Bovell nos fones de ouvido. “I Wah Dub”.

Que título! Mas tem um barulhinho irritante ao fundo. pi.

E mesmo quando troco de música, pi., o barulhinho continua. Então não é uma piração sonora de Bovell, é algum chato pi. apertando algum botão, pi., em algum lugar. Primeira suspeita: a senhora à minha frente. Tiro os fones. Me aproximo da senhora de modo a conseguir vê-la integralmente. pi. Olhos e ouvidos atentos: a senhora segura um telefone, e seus dedos masculinos mas muito limpos tentam discar para algum número que começa com 98154. Não há sincronia entre seus movimentos e o barulhinho. Pode liberar o suspeito por falta de provas, eu diria se fosse policial e esse fosse um caso de polícia (barulho às vezes é caso de polícia).

E o barulhinho segue. pi. pi. pi é igual a IIIvírgula14.

Estou alucinando. Corro os olhos pela padaria. Todos são suspeitos, máquinas e humanos, objetos e produtos, mesas, cadeiras, espelhos, cardápios engordurados, mentos tutti-frutti em promoção, pessoas. Procuro pessoas em posição de apertar botões. Um garotão. Ele está com o cotovelo encostado no balcão e mexe na sua máquina fotográfica profissional, dessas que qualquer amador compra em Miami. Ele a segura com a mão esquerda e com o dedo polegar da mão direita fica apertando freneticamente um botão. pi. pi.

Essa ficou boa, pi.

essa ficou ruim, pi.

essa ficou boa, pi.

essa eu deveria ter esperado mais um pouco, pi.

essa, hmmm, a luz tá legal, pi.

essa ficou horrível, pi.

essa ficou boa, pi.

essa ficou ótima, pi.

essa um carro passou bem na hora, pi.

essa ela se mexeu, pi.

essa ficou boa.

De repente, silêncio.

Ufa. Pode voltar, Dennis Bovell.

(é o que eu diria se Dennis Bovell estivesse ali em plena manhã de terça-feira, fazendo um showzinho intimista para os frequentadores da Santa Marta Pães.)

Mas ele não estava, é claro que não estava, então eu aperto o play, que é um outro jeito de dizer “pode voltar, Dennis Bovell”.

E

Uma banda esperta: The Police.

Uma banda entediante: Coldplay.

Uma cantora elegante: Nina Simone.

Um cantor emigrado: Rodrigo Amarante.

Uma carreira empacada: Frejat.

Um disco esquecido: “I Just Can’t Stop”, do English Beat.

Um rock elaborado: “If There Is Something”, do Roxy Music.

Uma trilha essencial: “Garden State”.

Uma parceria equivocada: Caetano e Maria Gadú.

F

Fim.

(brincadeira.

não, é verdade.

mas outro dia a lista continua.)

*

Este texto é dedicado a Roger Marin Nakaza, editor de agenda do Azoofa que faleceu precocemente na última terça-feira, deixando inexplicavelmente doloridos os corações de todos que tiveram a sorte de conhecê-lo.

Meu contato com ele se resumiu a alguns encontros rápidos, mas suficientes para admirá-lo. Era fácil gostar dele.

Como editor, era um sujeito entusiasmado, meticuloso e dono de uma memória prodigiosa. A qualquer dúvida, não era preciso consultar o computador; Roger sabia de cor datas, locais e horários dos shows.

Sempre sorrindo.

Um dia perguntei  a ele qual era o disco que tinha marcado seu ano de 2013, e ele me falou do “Volume II”, da OBMJ.

Daí que: daqui em diante, sempre que um ska se fizer presente em qualquer caixa de som, faz-se necessário dançar, porque é isso que ele gostaria que fizéssemos – é isso que ele faria: dançar.

Sempre sorrindo.

Salve, Roger!

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, ex-aluno de futuro promissor, ex-músico de gosto duvidoso e ex-meia direita que já fez gol que saiu no jornal.

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