Baby do Brasil fala sobre caretice, carreira e Deus durante passagem por Nova York

No dia 13 de julho, eu caminhava pelas ruas do Brooklyn quando recebi uma notificação no celular dizendo que alguém havia me citado no Instagram. O perfil de Baby do Brasil (@babysucessos) postou: "um beijo #telúrico para @carolpascoal que postou esta foto da apresentação de Baby do Brasil ao lado da banda Casuarina em NY". Mal sabia que quatro dias depois, eu me encontraria com a cantora no Euphoria Studios para conversar sobre a passagem dela por Nova York, que inclui participação no Brasil Summerfest.

Após treze anos longe do repertório dos Novos Baianos e da carreira-solo, porém ativa no meio gospel, Baby voltou às "músicas seculares" em 2012. O que era para ser apenas uma apresentação virou um projeto mais extenso, chamado Baby Sucessos. Ao lado do filho (e guitarrista) Pedro Baby, ela já rodou o Brasil com o show e lançará o DVD ao vivo ainda nesse ano. Foi por causa do registro, inclusive, que Pedro não pode vir com a banda para os Estados Unidos. Com dois shows agendados em Nova York, a intérprete será acompanhada por músicos daqui, entre eles o virtuoso baterista Skoota Warner, que é instrumentista da banda de Cyndi Lauper, e com quem Baby tem uma ligação muito forte.

Na recepção do estúdio, rodeada por paredes repletas de fotos de músicos que já passaram por ali, entre eles Herbie Hancock e o próprio Pedro Baby, a cantora falou sobre o a influência dos Novos Baianos nas gerações mais jovens, o retorno aos palcos e o seu relacionamento com Deus. Isso tudo até ser interrompida por Bebel Gilberto, que também estava ensaiando no local. Depois de um papo rápido entre as duas, elas combinaram uma participação de Baby no show que Bebel faria no Prospect Park, no Brooklyn. Após a entrevista com a Baby, confira o ensaio das cantoras para a ocasião.

AZOOFA: No show do Casuarina, os meninos falaram da influência que os Novos Baianos exerce na carreira deles. As suas apresentações têm um público bem jovem. Como vê a devoção que as gerações mais novas têm em relação ao grupo?

Baby do Brasil: O trabalho que fizemos com os Novos Baianos foi com um tipo de música e de comportamento de vida que sempre será novo, porque a proposta era real. Vivemos juntos durante dez anos. Criávamos sem nos preocuparmos com os cachês de cada um. Todos contribuíram para criar um som que expressasse a brasilidade que cada um tinha por natureza. Ali, tem o lado rock and roll de cada um e o lado pop de cada um. Ainda ganhamos uma influência maravilhosa do João Gilberto, que era amigo do Galvão, o poeta do grupo. O João passou a nos visitar muito na época, então aprendemos o caminho de casa em um nível altíssimo de musicalidade no sentido de melodia, harmonia, acordes... Quando a juventude reconhece na gente todos os nossos valores, como a proposta de vida de paz e amor, ela encontra naquela brasilidade um ponto de referência que não é careta. Acaba que aquilo toca o coração de todo mundo e todo mundo ama.

O "politicamente correto" acaba criando mais referências caretas, não? Atualmente, talvez fosse impossível um grupo ter uma vivência como a dos Novos Baianos e ser bem aceito...

O politicamente correto é incorreto. Se você ficar no politicamente correto, não vai criar 100%. Você pode ter o politicamente correto para algumas coisas, como a produção, o equipamento, os horários de estúdio, o melhor som e a melhor divulgação. Mas o lado da criatividade tem que transitar fora do padrão. As vezes, o que limita os grupos a chegarem no mesmo ponto que a gente chegou é o excesso de controle das coisas. A gente não tinha hora para criar. Isso fez com que a gente fosse para o sítio. Ali, tinha galinha, de tarde alguém pegava o violão de baixo do pé de laranjeira e aí vinha o outro com um pandeirinho, não estávamos no padrão. Estavámos relaxados. Como criar isso hoje se não tem um sítio, se não tem um pé de laranjeira? Por isso que as bandas de garagem deram tão certo, porque a garagem virou o sítio. É preciso criar uma atmosfera para que o grupo possa ter liberdade. Se a banda tiver essa abertura, é possível chegar lá.

Como foi o seu processo de retorno aos palcos?

Eu tenho uma parte da minha vida que é conhecida de todos. Eu sou uma pastora ou uma popstora. A princípio, no Brasil, você não tem essa mistura de lado gospel e secular, mas eu tive um momento com Deus no qual ele disse que eu voltaria ao secular. Era um momento que eu não estava nem aí para o secular. Eu toco guitarra no louvor, canto, componho e isso sempre foi o meu principal alimento espiritual. Eu não tenho prazer na vida se o meu lado espiritual não está todo alinhado com Deus, que é a diretoria. Eu trabalho com a diretoria: Jesus, o espírito santo e o Pai. Nesse momento, como eu tenho esse lado matrix bem aguçado, eu avisei para a minha galera da church: "olha estou ouvindo de Deus que vai rolar alguma coisa no secular que tem tudo a ver, porque estamos com o mundo muito perdido, muita droga, muita depressão e Deus vai me colocar ali no meio com um propósito". Foi aí que chegou o convite do meu filho, Pedro Baby, para fazer um show com as minhas músicas. Antes de decidir, eu vim para Nova York orar. Fiquei três semanas aqui perguntando: “é esse lance que você me falou, Deus?”. E ele confirmou. Quando tem Deus na história, tudo dá certo. Voltei para o Brasil, disse para o Pedro que era coisa de Deus. Claro que ele achou super engraçado, deve ter pensado: “a minha mãe é muito louca”. E deu tudo certo. O Pedro que escolheu as músicas do repertório, porque eu queria saber a visão que o meu filho tinha de mim. No dia que eu pensei em colocar uma música do gospel no show, ele disse para eu prestar atenção nas minhas letras e disse que as pessoas iam perceber que eu sempre fui assim. Ele colocou uma música chamada A Minha Oração, que eu fiz no ano de 1980 e era a tradução explícita da minha espiritualidade.

Você e Pedro separam a relação mãe x filho, cantora x diretor/músico?

No palco, o Pedro fica de “pãe”, que é pai misturado com mãe. Eu amo ficar ali como se eu fosse quase a filha dele, meio bagunceirinha. Ele passou dez anos nos Estados Unidos e voltou muito bem preparado para o Brasil, então tocou com a Marisa Monte, a Gal Costa, a Bebel Gilberto... Ele conhece todo o meu lado Novos Baianos e sabe que o meu lado criativo sempre excede. Pedro já veio preparado para lidar com esse meu lado artístico. Mas desde o começo, eu disse que só topava fazer o projeto se ele estivesse lado a lado comigo e não como músico tocando lá atrás. Eu acho que o Brasil precisa conhecer o talento dele. Quando fomos para o palco, veio a emoção fortíssima de mãe e filho. A gente chorou várias vezes no palco. A plateia também. É uma realização incrível poder tocar com um filho que você não pode mais pegar no colo. Ele que pode pegar a mãe no colo agora.

A banda que vai te acompanhar em Nova York é diferente. Como reuniu os músicos?

No momento, o Pedro está no Brasil finalizando o DVD do show, que está previsto para esse ano ainda. Por isso, não trouxe a banda comigo. Há muitos anos atrás, em 1986, eu estava com o Pepeu Gomes aqui em Nova York e eu fui até o Central Park, porque queria andar de charrete. Chegando lá, comecei a ouvir um som de bateria fantástico. Quando cheguei na esquina, tinha um rapaz de 18 anos, aproximadamente, tocando muito. Todo mundo parava para ver. Eu precisava desse menino comigo. Na primeira pausa dele, eu falei: “hey, do you wanna go to Brazil with me?”. Ele me olhou bem nos olhos e topou. Tirei os documentos dele e ele morou com a gente no Brasil durante dois anos. O nome dele é Skoota Warner. A primeira coisa que a gente fez foi colocar ele em cima de um trio elétrico. Ele aprendeu tudo, aprendeu música brasileira e depois voltou para os Estados Unidos. Skoota é baterista da Cyndi Lauper há 15 anos. É como se ele fosse um filho. Ele é o meu seven boy. Quando avisei que talvez fosse rolar um show aqui em Nova York e que a única coisa que estava emperrando era a vinda do Pedro, Skoota se colocou a disposição para montar a banda apenas com músicos AAA. Topei. Ele faz direção musical desse show comigo.

Falamos da influência que os jovens têm dos Novos Baianos. Agora, como tem sido a convivência com os músicos jovens que estão em turnê com você? E como tem sido a aceitação do seu projeto pelos jovens da igreja?

É gostoso ver como a banda respeita o que a gente fez. Eles têm prazer em tocar e contribuir com o estilo deles, a brasilidade deles. Foi um barato o Pedro ter reunido apenas amigos na banda. Não é aquela coisa politicamente correta. É a galera que tem um prazer imenso de estar tocando. Nos Estados Unidos, a banda foi feita com a mesma visão. As pessoas estão tocando para curtir e viver a alegria de tocar junto. Já a questão da igreja foi muito interessante. Tem muita gente que tem vontade de conhecer uma igreja, um grande louvor. Aqui em Nova York, por exemplo, temos a Hillsong, a Times Square Church, a The Brooklyn Tabernacle... Os jovens que vão a esses lugares têm tatuagens, são modernos. No Brasil, estávamos um pouco antes de tudo isso. Tinha a ideia de que, para frequentar uma igreja, você tinha que ser extremamente careta, ter cabelão, usar "roupão" lá embaixo. Quando tive o meu encontro com Deus, que foi um arrebatamento, acabei indo para o céu conhecer tudo lá em cima, que é uma história totalmente matrix. Eu digo que não vai ter bunda mole no céu, só casca grossa, porque foi algo que mudou a minha vida. Impossível voltar ao normal da terra. Quando todo mundo percebeu que até eu estava curtindo isso, com cabelo colorido, unhas pintadas de roxo, milhões de bijuterias, quebrou aquele paradigma. Se você olhar as escrituras, vai ver que os sacerdotes usavam uma pala de pedraria. Digo que eu queria essa pala. Deve ser um colar assim, arraso. Muitos jovens também quiseram conhecer Deus. Assim que o pessoal da igreja me viu fazendo sucesso de novo, mas ainda pura, dentro da fé e com os mesmos princípios, eles entenderam que você não tem que virar pastor, só tem que ser puro, honesto. Eu não sou uma pessoa religiosa. Essa palavra é muito perigosa, porque você fica misturado com toda a piração religiosa do mundo. Eu estou conectada com o Pai, com o seu projeto. Estou em uma terra que é uma bola solta no ar, flutuante, girando e balançando. Eu já estou no sobrenatural. Vai encarar? Essa graça já me basta para ser feliz.

Confira os vídeos do ensaio de Baby do Brasil ao lado de Bebel Gilberto em Nova York:

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arte: belisa bagiani

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