Circo Voador: a nave pilotada por Maria Juçá

A primeira frase que eu escuto quando entro atrasado na sala do Sesc Vila Mariana.

“A gente defende que toda boa ideia deve ser compartilhada”.

Quem fala é Maria Juçá, diretora do Circo Voador e responsável pela retomada da mais emblemática casa cultural do Rio de Janeiro depois que, em 1996, o então prefeito Luiz Paulo Conde (PMDB) embargou o espaço, que só foi liberado de novo em 2004. A relação de Juçá com o Circo começou lá em 1982, quando um grupo de artistas e produtores culturais se uniu e levantou uma lona em plena praia do Arpoador e a nomeou para a eternidade: Circo Voador.

Dali em diante - e depois trocando o endereço para a Lapa -, o Circo tornou-se um centro cultural único no Brasil. Ali produzia-se, revelava-se, apresentava-se e discutia-se música, teatro, artes plásticas, cinema e, claro, artes circenses. O Circo ficou conhecido nacionalmente, porém, como principal espaço musical do Rio de Janeiro. Ali nasceram, cresceram e ganharam público bandas como Barão Vermelho, Paralamas, Blitz e dezenas de outras; ali, Caetano, Gil, Raul Seixas e Gal Costa fizeram shows antológicos. Ali, bandas punks encontraram abrigo e público. O Circo era um circo. E nenhum outro espaço, na época ou depois, foi capaz de unir experimentação e sotaque pop como fez o Circo.

Naquela noite de quarta-feira no Sesc Vila Mariana, Maria Juçá está sentada em uma cadeira confortável. Maria Juçá parece estar também internamente confortável - ou, ao menos, é esta a minha percepção. Ela está falando para cerca de 20 pessoas que se inscreveram para participar da atividade "Circo Voador: A Nave", mesmo nome do livro que Juçá lançou este ano, em que relata os bastidores e curiosidades da trajetória do Circo, e mesmo título do documentário que será lançado ainda este ano. Quando fala sobre o Circo, Juçá fica à vontade. Parece estar em casa. O Circo é sua casa.

Durante pouco mais de 2 horas, esta carioca simpática, autêntica e hipnotizante de 64 anos desfila histórias, opiniões, mistura suas lembranças pessoais com as vividas no Circo, fala do Rio, de São Paulo, de política, de música, de educação e até sobre a fome.

O Azoofa esteve por lá e separou abaixo os melhores momentos do curso. Para artistas e produtores culturais, para donos de casas de shows e jornalistas, para empresários do meio ou para qualquer pessoa interessada em boas histórias, Juçá é um prêmio. Uma sorte. Apreciemos:

A relação entre o Circo e São Paulo

“Teve uma época que havia uma parceria entre o Circo Voador e a cidade de São Paulo. Tinha uma proximidade com o Studio SP e, mais antigamente, com aquela rede de discotecas que os jovens frequentavam nos anos 80 e início dos 90. Acho que a grande diferença entre São Paulo e Rio? Não sei... Prefiro responder o porquê de eu achar que o Circo Voador deu certo: porque a gente reunia tudo num só lugar, ao mesmo tempo. E sem parar. Em São Paulo, as bandas e os artistas frequentavam vários lugares, muitas vezes distantes, e às vezes sem permanecer nesse lugar. Eram várias peças soltas que não se juntavam. Acabou que o Circo Voador acabou servindo para juntar bandas que em São Paulo não trocavam figurinhas, e acabou consagrando várias delas. Outro fator importante é que as gravadoras todas estavam lá. E a TV Globo, para o bem e para o mal, também estava lá. Mas, no fim, o Rio é mais uma capital de modismos. Ela não tem a capacidade de transformar as coisas como tem São Paulo, tanto em termos de qualidade de trabalho como propiciar sustento ao artista em razão desse trabalho.

O Circo e as bandas dos anos 80

“O grande papel do Circo Voador foi o de encurtar o caminho para as bandas que se apresentavam lá. Quem tocava lá via sua mensagem chegar mais rápido e mais próximo da fonte. Se você queria falar pra mais pessoas, ser reconhecido por mais pessoas, se relacionar com mais pessoas, o Circo era o lugar. E a gente serve a essa ideologia até hoje.”

A trupe

“A gente não separa muito a nossa casa do Circo. Nossos filhos nasceram lá e continuam lá dentro, embora estejam adultos agora. Somos em 4 gerações dentro do Circo: a minha geração, uma geração que tem seus 40 anos, uma que tem de 25 a 30 anos e uma novíssima que tá vindo e atropelando todo mundo (risos). Então, esse limite que o afeto elimina é o que alimenta nossa relação com o Circo. A gente é movido pelas ideias, pelo afeto e pela ousadia.”

E grana?

“Não temos medo de perder dinheiro e não estamos em busca de ficar rico. É perde hoje, recupera amanhã. Tira grana do que deu muito certo e investe no que tá começando. E nesse exercício a gente é um espaço que se consagrou na dificuldade, e que criou uma esperança, devaneio, sonho de que todo mundo pode fazer isso que a gente faz. Porque, quando o Circo surgiu, ninguém era filho de ninguém “influente”. Nós éramos todos iguais e assim continua sendo. Somos pessoas que acordam, saem pra trabalhar e voltam pra suas casas, como quaisquer outras. De certa forma, a gente criou um modelo, e esse modelo chegou a vários pontos do Brasil e criou um modelo de produção que mostrou que é possível, que um grupo de pessoas é capaz de mudar uma estrutura interferindo e modificando a realidade. Essa é a grande contribuição que o Circo deu na área cultural.”

Arrecadação e educação

“A gente não vive só de bilheteria e nem de show. O Circo atua em várias frentes. A gente tem: os projetos sociais – incluindo uma creche de mais de 30 anos, que atende 100 crianças em horário integral, usando uma grade extra-curricular de artes, como balé, artes plásticas, música, línguas, etc. Temos uma outra escola voltada para jovens e adultos, focada em aulas de matemática, português, redação e línguas como inglês e espanhol, além de informática e outros cursos. E ainda tem as oficinas que acontecem no Circo. Então, a gente acabou criando essa parede de amparo social. A gente é muito querido em várias classes sociais ou entre várias gerações. Porque a gente mexeu muito com a vida das pessoas. Não há um adulto na Lapa que não tenha seus 35 anos que não tenha passado pela nossa creche. Por muito tempo, ela foi a única no bairro.”

Política, punks e punição

“Isso não impediu a gente de ser cassado em 1996, de uma forma muito cruel e violenta. O prefeito eleito Luiz Paulo Conde pediu o Circo Voador para comemorar sua eleição. Eu disse: “no Circo ninguém sobe no palco. Quem sobe ganha vaia, xingamento e cuspe.” Mesmo assim, eles quiseram. Aquela era a noite dos punks. Era Ratos do Porão, Garotos Podres e Serial Killers. Esse era o headline da noite em que o prefeito quis visitar o Circo. Eu ainda tentei dizer a ele que era melhor que fossem a outro lugar. A resposta: “Quem manda no Rio de Janeiro sou eu”. Só me restou responder: “Quer se foder? Então venha se foder.” E ele foi. Não satisfeito de ir em um dia com uma programação dessa, ele marcou conosco às 20h30 mas apareceu depois das 22h. E começa a chegar aquela turma, aquele bando de cabo eleitoral com cara de cafajeste, todos arrumados. E bebem cerveja, bebem whisky... E os caras foram ficando. E o público punk foi chegando. E é óbvio que a tensão foi crescendo. Dentro dos camarins, então, mais ainda... imagine o João Gordo e aquela turma toda bebendo e fazendo outras porcarias. E aí é 11 da noite e o prefeito não chegou; 11 e meia e o prefeito não chegou. Aí eu resolvi abrir o portão: e foi aquele enxame. Os punks correndo, gritando e espumando, e a turma do prefeito saiu correndo de medo. Parecia um bando de louco solto. E tomaram o Circo. Mas, por incrível que pareça, não passou disso. Aos poucos ficaram quietos. Aí, de repente, entra no Circo aquelas bandas de fanfarra, sabe? Cantando “Ci-da-de Ma-ra-vil-ho-sa...” e do lado da banda tinham dois bonecos, um com a cara do Conde, outro com a cara do César Maia. Quando o Conde verdadeiro finalmente entrou no Circo, a massa – seja quem tava no camarim, seja o público nas arquibancadas – soltou a maior vaia que você pode imaginar. E um sonoro “filho da puta!”. Eu olhava aquilo e pensava: a gente vai morrer. Bom... acabou o episódio, entra o João Gordo no palco e começa a falar. “Pô, queria pedir desculpa aí. Quando a Juçá falou que o prefeito ia estar aqui, eu achei que era o Perfeito Fortuna.” E acabou assim. Isso era um sábado. No dia seguinte, um domingo, o Circo recebeu a mensagem que estava sendo cassado. E essa brincadeira durou 8 anos”.

Dias de luta

“Durante a minha luta pela volta do Circo, eu fiquei totalmente sem grana. Cheguei a vender sapato para poder me sustentar. Até morar com o ex-marido e a nova esposa dele eu fui... Foram momentos realmente difíceis. E nesse período eu entendi muito o que significa a fome, o você passar fome, o você não ter o que comer. Por isso, depois de tudo o que passei, eu tenho o hábito de dividir tudo. Todo dia, de alguma forma, eu divido algo com alguém. Uma comida, um dinheiro, alguma coisa.”

Curadoria de artistas

“Pra mim, se não tiver um pouco de loucura ou de experimentação, não vale”.

Um dos membros do grupo “Buraco da Minhoca” pergunta para Juçá como os grupos e coletivos atuais podem superar a especulação imobiliária, que vem encarecendo o aluguel e a manutenção de espaços culturais na cidade de São Paulo.

“A gente tem um pé na institucionalidade e um pé na marginalidade. Na primeira montagem do Circo, lá no Arpoador, a gente fez sem autorização da prefeitura. Depois, tivemos que correr atrás. Mas era outra época, não tinha tanta burocracia e nem essa coisa odiosa chamada “politicamente correto”. Então, você precisa ter esse diálogo com a prefeitura e os órgãos e, ao mesmo tempo, mostrar que você é diferente deles. Tenho certeza que se você se unir a um número razoável de pessoas e for até o gabinete do prefeito, sua causa será valorizada e escutada. Tem que fazer barulho.”   

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, ex-aluno de futuro promissor, ex-músico de gosto duvidoso e ex-meia direita que já fez gol que saiu no jornal.

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