Discoteca particular: Queen, Beatles e Nick Drake

Queen, A Night at The Opera

No dia 14 de dezembro de 1985, sábado, um homem de 26 anos e cabelos pretos está sentado na sala de espera do hospital Sinhá Junqueira, em Ribeirão Preto, e está aflito. Em cima da mesa central há um jornal intacto; ele se levanta para pegá-lo e olha a manchete - “Credores endurecem de última hora”. Desiste da leitura. Senta-se novamente. De repente, um som. É uma música. Uma música está tocando às 10h55 na sala de espera do hospital. Seu filho vai nascer a qualquer momento, pode até estar nascendo naquele momento, e no entanto sua atenção agora está voltada para a voz de Freddie Mercury.

Distante alguns metros da sala de espera há uma outra sala, a de parto, e lá dentro uma mulher de 24 anos e cabelos loiros se percebe deitada, suada e observada por enfermeiras e médicos. Ela faz força e grita alto, mas não tão alto quanto a música que começa a tocar. Uma música está tocando às 10h55 na sala de parto do hospital. Seu filho vai nascer a qualquer momento, pode até estar nascendo naquele momento, e no entanto sua atenção agora está voltada para a voz de Freddie Mercury.

Beatles, Revolver

O primeiro ato era escolher a roupa. Mãe, cadê a camiseta do The Clash? The o quê? The Clash! Aquela desbotada? É! Tá aqui no varal, tá molhada. Como faz pra secar? Pede pro sol chegar mais perto. Tô falando sério, mãe. Pega meu secador. O botão embaixo. Isso. Pronto.

O segundo ato acontecia em frente ao espelho. O gel na mão. Gosma azul e um desafio: passá-lo no cabelo de modo a colar os fios, mas também de modo que não fique evidente que você colou os fios com gel. É preciso parecer que você tem fios colados naturalmente. Enquanto lambuza o cabelo com uma mão, vai até o quarto, pega um CD e coloca no som. Aperta o + do volume 4 vezes, bem alto pra que se possa ouvir no banheiro. De volta ao espelho, começa a cantar:

Let me tell you

How it will be.

Tchau, mãe. Pegou os livros? Peguei. E fez a lição? Ele já tinha batido a porta de casa e se preparava para abrir a do elevador. Mas ele ouviu a pergunta. (Ele adorava quando algo providencial acontecia involuntariamente e o livrava de uma dificuldade, como agora.) Morava no 13º andar. Entrou no elevador. Apertou o T de térreo. As portas se fecharam e o elevador começou a descer. A engrenagem fazia barulho. Ele não ouvia porque já havia ligado o discman. Olhando pra porta, começou a cantar

Ah!

Look at all the lonely people!

Passou pelo porteiro, mexeu a cabeça num gesto de cumprimento. Ganhou a rua. Muita gente passava na sua calçada. O barulho de alguns carros e motos vencia o volume dos fones. Nada que o impedisse de cantar enquanto esperava o semáforo abrir.

Everybody think I’m lazy

I don’t mind, i think they’re crazy.

Atravessou a rua. Casa de colchões. Orelhão. Orelhão. Pastelaria. Xerox. Escola de informática Um bar. Entrou. Um cigarro, por favor. Solto? Isso. Dez centavos. Tem troco pra nota de 1 real? Tenho. Obrigado. Saiu do bar e no poste em frente viu um cartaz colado que anunciava show de Gino & Geno. O cartaz estava triste de sol e de chuva. Caminhando devagar enquanto as pessoas caminhavam com pressa. Andava devagar porque apreciava aquele momento – aquele momento de sair de casa ouvindo música e fumando um cigarro proibido a caminho da aula de inglês. Numa mão, o discman. Na outra, um livro e um caderno, e no caderno ele até anotava algumas coisas da aula, mas muito mais umas letras de música. Ele gostava das aulas de inglês. Sentia que estava aprendendo de fato alguma coisa – ao contrário do que sentia diariamente na escola - e falava-se mais do que se escrevia. Mas, acima das questões educacionais, estava uma questão estratégica: era na aula de inglês que ele tinha a chance de ver garotas de outras escolas. Isso era uma espécie de exceção em regras universais quando você é adolescente – se você estuda naquela escola e naquela sala, então ficará por um bom tempo convivendo 99% do seu tempo com as meninas daquela escola e daquela sala. Sua chance com as meninas das outras escolas ficará restrita às grandes festas, aos encontros casuais na fila da padaria – onde invariavelmente sua mãe estaria junto, o que eliminava qualquer chance de sucesso – ou então... às aulas de inglês. Portanto, camiseta do Clash, gel no cabelo, cigarrinho na mão.

To lead a better life

I need my love to be here.

A escola de inglês ficava há 6 quarteirões de sua casa. A melhor parte do caminho era a que ele estava nesse momento: uma longa descida cuja calçada era formada por paralelepípedos graciosamente encaixados uns aos outros. Era quando o comércio e aquele movimento de carros pessoas motos ficava para trás e vinham só casinhas, casinhas, casinhas. Às vezes com garagens abertas que lhe davam a oportunidade de espiar o interior da casa no tempo permitido pelo seu próprio passo – parar e ficar olhando já era esquisito. Numa dessas sentiu cheiro de água nas plantas. Alguém lavava o jardim da frente de uma das casinhas. A senhora com a mangueira na mão se atrapalhava toda com aquela água espirrando e quando o viu do lado de fora, parou tudo e ficou olhando-o passar. Olhou muito, mais do que permite a simples olhada que todos nós damos em nós mesmos todos os dias. Ele se sentiu mal com aquilo. Será o gel? A camisa do Clash ainda molhada? O que aquela senhora estava olhando?  Até o fim de sua vida, ele nunca soube que a velha só se assustou com a mangueira porque naquele momento passava um garoto fumando e cantando bem alto:

We all live in a yellow submarine!

yellow submarine

yellow submarine.

O fim da rua ladeirosa era também chegar à escola de inglês. Em frente à entrada principal, ele parou e olhou no relógio da Sprite que havia ganhado juntando várias tampinhas de refrigerante: 15h20. Ele tinha 10 minutos para ficar fazendo a cena: fumar um cigarro sensual e perigoso em frente à escola, o som nos fones de ouvido enquanto as garotas desciam dos carros das mães ou chegavam a pé. Garotas de outras escolas. O cigarro estava acabando. De repente alguém o cutucou. No susto o cigarro caiu, um fone escapou de suas orelhas. A menina pegou esse fone ainda no ar, colocou-o em seu próprio ouvido e disse: Hmmm, essa é a melhor música dos Beatles. Ela tinha uma camisa amarrada na cintura. Desamarrou-a com destreza sem deixar o fone descolar, e fez sinal para sentarem-se na calçada. O fio do fone se esticando todo para não soltar nem da orelha dele, nem da orelha dela. Sentaram-se. Olharam-se. Ela. Ele. Depois olharam pra frente: dali se via a cidade toda. Ela cantava, ele não, ele só escutava com a ajuda do ouvido sem fone.

She said:

I know what is like to be there.

Nick Drake, Pink Moon -       Hahahahahaha. -       O que foi? -       Eu tô muito bêbada! Cadê aquela acetona? -       Hahahaha azeitona? -       Ai, meu Deus, porque eu falei acetona? Acetona, azeitona. Repete comigo. -       Repetir? Acetona, azeitona. -       Viu? -       O que? -       Como essas palavras são estranhas! -       Azeitona! -       Acetona! -       Azeitona, acetona! Parece que a gente tá xingando alguém. Sua acetona! -       Você tá muito bêbada. -       Qual é o melhor disco que você tem? -       Como assim? -       Você tem esse tanto de disco aí na prateleira. Já ouviu todos? -       Odeio essa pergunta quando se refere a livros. -       Já ouviu todos? -       Já. -       E qual é o melhor? -       Não tem melhor. -       Tem que ter um melhor, F. -       Tem que ter? Da onde você tirou isso? Música não é corrida de carros, ok? Não é possível medir quem chegou em primeiro, quem parou na curva e quem foi imprudente e bateu na saída. Discos são mais.... complexos? Acho que é isso. Discos são mais complexos que pessoas. Chico Xavier. -       Ok, ok. Cadê seu copo? -       Tá aqui. Cuidado, serve devagar, sem deixar cair que tá acabando a cerveja. -       Há quanto tempo estamos bebendo? -       Há umas 8 horas. -       Parece que começamos ontem, né? Parece que foi ontem que você me ligou e falou: vamos beber, vou ser pai. -       É verdade. -       Preciso te fazer uma pergunta. -       Qualquer uma, Z. -       Qual é o melhor disco da sua prateleira? -       Caramba, Z. Passa o cinzeiro. -       É sério, cara. Você vai ser pai. Você precisa aprender a responder perguntas impossíveis. Certo? Não é isso que pais fazem? -       Eu acho mais fácil responder qualquer merda pra um moleque que não sabe nada, do que isso aí. -       E se ele te perguntar isso? -       Perguntar o que? -       Qual é o melhor disco da sua prateleira? -       Sei lá, Z. -       “Sei lá, não, papai! Qual é, hein? Qual é, qual é???” -       Hahaha, que voz horrível a do meu filho. -       Eu sei que você já tá pensando em um disco. -       Eu tô. -       Então desembucha. -       Não é tão fácil assim. -       Caramba, você parece aqueles caras que estão num interrogatório policial e tem um momento que você percebe que o cara vai falar a verdade, mas vai demorar um pouco porque ele tá se cagando de medo. -       Eu tô mesmo. Tô bêbado. E bêbado essas coisas ganham muita importância. -       Que coisas? -       Discos. -       É verdade. -       Você ainda fala com a G? -       Não muda de assunto. -       Fala ou não? -       Não falo desde a minha festa no ano passado, você sabe muito bem. -       “A impecável e chatíssima festa de 30 anos de Z”. -       Nunca mais faço festa em bar da Vila Olímpia. -       Com quem você namorava na época mesmo? -       Ah, F, não muda de assunto, ok? Quero nome do disco e o porquê. -       Ok, ok. -       Ok, ok, nada! Vai, desembucha. -       Calma. -       Fala! -       Pink Moon! -       Nick Drake? -       É, caramba. Pronto, falei, já foi! -       Porque? -       Eu não sei porque. -       Você tem que saber porque. -       Porque eu tenho que saber porque? -       Porque seu filho vai perguntar. -       Que filho pentelho que eu arrumei. -       Vai, cara! -       Z, você é uma chata. -       “Então, papai, porque esse disco é o melhor da sua coleção?” -       ... Hmm. Porque quando o papai escuta ele, o papai sente que está mais próximo de Deus. O papai sente uma espécie de existência plena. Sente-se arte do mundo. Se é que Deus existe. -       Que merda de resposta é essa? -       O que? -       Deus, existência, mundo. Seu filho vai achar que o pai dele é um chato. Trata de arrumar uma resposta melhor. -       Quantas cervejas ainda tem na geladeira? -       Vou lá ver. Quatro. -       Ok. Então é o seguinte, Z: nós vamos beber essas quatro, ver o dia amanhecer e pensar em uma resposta melhor. -       Posso por o disco pra rodar? -       Boa ideia!, põe! Que eu vou até fumar mais um cigarro. -       Atenção, atenção, dia amanhecendô, dia amanhecendô. -       Caramba, tinha esquecido como isso é bonito. -       A ressaca é um preço barato demais a se pagar por isso tudo. -       Isso tudo o que? -       Amanhecer e cerveja! -       E ainda tem cigarro no maço! -       E um, dois, três... vai começar o Pink Moon! -       Uau. -       Esse violão. -       Uau. -       F? -       O que? -       Você vai ser pai, cara. -       É. -       Entendi. -       Entendeu o que? -       Pink Moon, Deus, a existência, pertencimento, plenitude. -       Ah, não. Sério? Agora você me ferrou. Vou responder o que pro moleque? -       Caramba, F, responde aquilo lá mesmo. -       No duro? -       No duro! -       É, né. -       É, é. -       Será que ele vai entender alguma coisa? -       Ele é seu filho, não é? -       É. -       Então ele vai entender. *** arte | belisa bagiani ilustrações | sundry sullen
Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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