Zeca Baleiro: um homem literomusical

Às 20h11 da última terça-feira, o poeta e apresentador da série Encontros Poéticos, Sérgio Vaz, adentrou o palco do Itaú Cultural – mas ninguém o viu. Ele estava em algum lugar das coxias e de lá recitava o poema “Porém”, de sua autoria. O público que lotava o teatro só o viu em carne e osso nas últimas estrofes (“Hoje queria ter acordado mais cedo / mas temo que para mim / seja tarde demais”). Ovacionado efusivamente pela plateia, Sérgio agradeceu e anunciou seu convidado da edição de agosto da série.

- Boa noite! Que da hora. Espero que a gente tenha uma noite extremamente agradável, uma noite de poesia, de literatura, uma noite pra gente comungar a palavra. Esse cara que eu convidei para estar aqui hoje é um cara muito bacana, eu gosto muito dele. E a maioria das letras que ele canta, na verdade, fui eu que fiz (risos gerais)... Meu amigo, guerreiro, uma salva de palmas a Zeca Baleiro!

A plateia aplaude, assobia e ouve-se gritos desavergonhados de “lindo!”, “gostosos” e até um “cadê o violão?”. Há um microfone e uma cadeira para cada um dos dois; eles se cumprimentam e sentam-se lado a lado. No meio deles, uma pequena mesa redonda de metal serve de apoio para alguns livros empilhados – dentre eles, estão “A Rede Idiota e Outros Textos” (Editora Reformatório), que o músico maranhense lança no próximo dia 9 de setembro e que reúne textos inéditos, alguns escritos para jornais e revistas, como Istoé e Piauí, e “Bala na Agulha”, sua estreia literária, lançado em 2010.

Zeca estava ali para falar de sua relação com a poesia, com a literatura e, claro, dos vínculos evidentes ou não tão evidentes assim que unem estas artes àquela que fez de Zeca um importante nome da cultura brasileira – a música. Escrever crônicas, por exemplo, foi uma saída que ele encontrou para um problema... musical. “Com o tempo, eu fui achando que a minha canção foi ficando um pouco pretensiosa demais, sabe? Me vi querendo abordar muitos assuntos. E a música popular, pra mim, tem a função de divertir, de entreter e fazer dançar, e não queria que a minha música perdesse isso. Então, eu fui escrever. E gostei do que vi”.

O papo durou pouco mais de uma hora e a dupla não deixou a peteca cair nenhuma vez – ora por conta do carisma, do timing de entrevistador e do bom humor de Sérgio Vaz, ora pelo interesse latente de Zeca Baleiro em responder a questões que escapam da sua rotina de entrevistas, quase sempre restritas a assuntos musicais. À vontade, Zeca fez a plateia se divertir e refletir e, ao final, atendeu àquele grito de “cadê o violão” – cantou três músicas, incluindo “Telegrama”, um de seus maiores sucessos, que naquela noite ganhou introdução de Sérgio Vaz recitando seu poema “Os Miseráveis”.

O Azoofa esteve por lá e apresenta abaixo os melhores momentos do evento. Apreciemos:

A infância e os livros

"Meu primeiro flerte com a arte foi através da literatura. Quando criança, influenciados por muita leitura de gibi e de HQ, eu e minha irmã fazíamos umas revistas com histórias de aventura. A gente vendia na rua e tal. Esse foi meu primeiro ímpeto de escrever. Aos 14 anos, eu comecei a aprender violão e, de certa maneira, fui “roubado” pela música. Sempre gostei de escrever, mas depois que eu virei compositor isso acabou se distanciando dos meus interesses. Aí, em 2005, eu comecei a escrever uma seção no meu site, que se chamava “Bala na Agulha”. Não era exatamente um blog; quando me dava na telha, eu ia lá e expurgava em texto, fazia coisas parecidas com uma crônica. Pra minha surpresa, aqueles textos foram tendo muita reverberação, e eu acabei publicando um livro com o mesmo nome, que viria a ser meu primeiro livro. Ali eu apresentava textos que nem sempre tinham muita profundidade, mas sim que abordavam assuntos que às vezes me incomodavam e que não cabiam no formato da canção. A canção pode ser contundente e realista, mas há um quê de leveza que a canção deve manter. E com o tempo eu fui achando que a minha canção foi ficando um pouco pretensiosa demais ao querer abordar muitos assuntos. E a música popular, pra mim, tem a função de divertir, de entreter e fazer dançar, e não queria que a minha música perdesse isso."

Novo livro

"São crônicas... na verdade, eu nem sei te dizer o que são (risos). Mas a intenção era fazer essa coisa rápida, essa literatura ligeira que eu sempre gostei muito. E aqui no Brasil a gente tem alguns craques, o Rubem Braga talvez seja o maior deles. Sempre gostei dessa crônica de costumes, de falar sobre o dia a dia, daquele cara que vê um acontecimento aparentemente banal e tira alguma poesia daquilo. Acho que isso é crônica, não? Resolvi então reunir textos que fiz para a revista Istoé, para onde eu escrevi durante 5 anos, e alguns outros textos que eu havia publicado em outros locais, como o blog da revista Piauí, Folha de S. Paulo, Correio Braziliense. E ainda incluí 5 textos inéditos."

Técnica

"Pra mim, escrever e publicar é uma aventura. Eu não me sinto com domínio técnico pra isso. Eu aceitei me perder por essa rota, até porque acho legal quando o artista – ou qualquer pessoa – saia da sua zona de comodidade."

Canção e poesia

"Canção também é poesia, mas de outro modo. É diferente da poesia que você, Sérgio, faz, embora muita coisa do que você faz um dia possa virar música tranquilamente. Mas essa coisa da melodia que surge junto com a letra é uma coisa muito encantadora pra quem faz. Posso dizer que fui seduzido – mais do que isso, abduzido – pela canção, e com o tempo deixei de escrever o poema literário. De vez em quando, eu tenho uma nostalgia e tento escrever uma coisa e outra. Mas música é literatura também, né? Uma canção é uma peça literomusical, embora hoje seja menos ‘lítero’ do que nunca (risos). No mais, sinto que eu sou compositor – ou um autor de canções – muito mais do que qualquer coisa. Todo o resto é uma aventura."

O momento definidor: quero ser artista

(Sérgio pergunta: quando é que você descobriu que queria ser artista? Quando foi que pensou: se eu não for artista, eu vou enlouquecer?”)

"Bom, primeiro eu enlouqueci, depois eu descobri (risos gerais). Eu sempre fui um adolescente muito tímido. Não sei como fui me tornar esse cara sem vergonha e cara de pau (risos), mas acho que foi o próprio palco que me transformou. Quando eu comecei a aprender violão, e ficava tocando no meu quarto. E um amigo de um vizinho também tocava e às vezes me chamava. “Vamos lá, cara!”. Ele vinha andando pela rua, sem camisa (Zeca levanta e imita a cena) com o violão colado no suor... Meu senso crítico achava aquilo ridículo! Mas o cara tinha moral na rua, as meninas ficavam “oh!”, e tal... E eu, ao contrário dele, tinha uma vergonha enorme até de aparecer com o violão em público. Esse cara, que é meu amigo até hoje, me ajudou muito nesse sentido e foi com ele que eu compus compulsivamente por volta dos 16 anos. Em 1985, a gente fez nosso primeiro show, logo no Artur de Azevedo, um teatro histórico de São Luís. O duo se chamava Umaizum. A partir desse show, a gente começou a trilhar um caminho: fomos morar em Belo Horizonte, tocar na noite, um pouco influenciados por aquela turma do Clube da Esquina. A gente até tentava compor parecido com eles nessa época. E aí foi um pouco isso: nessa hora eu pensei “ou eu sobrevivo disso ou eu não sei o que eu vou ser”. Meus irmãos são mais velhos e eram bancários, e passaram a barra pra eu ser bancário também. E eu dizia: “cara, mas eu não tenho vocação pra isso”. Aí eles disseram: “olha, tem um lance super legal lá, em que você pode experimentar a atividade bancária sendo uma espécie de menor estagiário, menor aprendiz. Vai lá um dia ver como é”. Eu fui. Fiquei olhando os caras trabalharem, eles usavam um uniforme marrom horrível que parecia um terno da maçonaria. Aí eu digo: virei músico por causa desse marrom – se fosse azul aquela roupa, talvez eu hoje fosse bancário. A vida da gente às vezes é definida por um detalhe, né?"

O palco, o sucesso e um conselho

"O palco é uma coisa encantadora e pela qual você vai pegando gosto. Nas primeiras vezes que eu subi no palco, eu bebia bastante – ainda bebo (risos) -, mas no começo eu bebia muito pra controlar a timidez e a insegurança como cantor. Mas eu sabia que levava jeito para fazer canções, isso eu sabia desde o início. Se eu teria plateia de 100 pessoas, 1.000 pessoas ou 10.000 pessoas, aí já não era comigo. Havia um certo romantismo na época, que eu não vejo tanto hoje em dia – é claro que tem pessoas fazendo coisas pelo simples prazer de fazer, e isso sempre vai haver, é isso que coloca alguma ordem na vida -, mas hoje eu vejo muito artista chegando com CD e DVD super produzidos e tal e com uma ansiedade muito grande para o sucesso. Ou para a fama, o que é pior ainda. E aí eles me perguntam: que conselho você dá pra gente? E eu digo: baixa a bola, vai devagar e faz a coisa com verdade e com paixão que uma hora vai acontecer. E outra coisa: não sonhe com sucesso em escala Roberto Carlos, entendeu?"

Influências musicais

"Com relação a influências, seria loucura tentar listar nomes, porque eu ouvi muita música popular na minha infância e na minha adolescência, aquele momento da vida em que eu acho que a gente forja a própria persona estética e tal. Eu escutava muito rádio. Então, quando me perguntam isso, eu sempre cito, à guisa de provocação, apenas dois nomes: Luiz Gonzaga e Bob Dylan. Gonzaga porque talvez seja ele o maior compositor brasileiro de todos os tempos, pela história e pelo legado que ele deixou. E o Dylan pelo que ele fez com a música folclórica americana, transformando aquilo numa coisa internacional e pop. Ambos são importantes da mesma maneira – a diferença é que um cantava em inglês e o outro, em português. Mas o alcance dos dois é igualmente universal. Se você mostrar “Assum Preto” pra um cara do leste europeu, tenho certeza que ele vai se comover com aquilo."

Inspirações para escrever

"Alguns autores fazem um pouco de mistério sobre suas inspirações, tentando fazer crer que sua inspiração é algo etérea ou esotérica. Pra mim, é bem Terra: o que eu vejo na rua, no boteco, na padaria. Por isso que o artista não pode perder esse contato com a rua. Às vezes, especialmente no território da música popular – que é um mercado mais rico -, as pessoas prosperam muito rápido e acabam mudando seus hábitos e, por exemplo, deixem de sair à rua como um mortal qualquer, que ele não deixou de ser, aliás. Acho isso super importante principalmente para o artista que quer continuar a criar. Você pode também viver do seu passado, tem um monte de gente que fica repisando suas canções e tal. Eu, não. Eu quero até o fim continuar a criar. Porque é isso que me faz ter gosto de viver."

***

arte | belisa bagiani

fotos | divulgação / itaú cultural

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, ex-aluno de futuro promissor, ex-músico de gosto duvidoso e ex-meia direita que já fez gol que saiu no jornal.

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