Por dentro do ensaio: Dub Hearts Club Band

So may I introduce to you

Ao entrar no elevador e ter de apertar o botão que nos levará ao andar desejado é que nos damos conta da altura do andar desejado: 29. Ao descer do elevador, caímos em um corredor enorme, cujo fim não se enxerga de primeira. Apartamentos se intercalam e todas as suas portas são amarelas. Nos dirigimos rumo à porta número 2.907, mas no caminho há uma janela com uma vista atordoante de São Paulo, especialmente do centro da cidade. Paramos em frente a janela. Respiramos fundo – esta é uma das poucas experiências que você pode usar a expressão “tirar o fôlego” e estar dizendo a verdade. Voltamos ao corredor e vamos olhando as portas amarelas até acharmos a nossa: número 3.006. Aperto a campainha e Victor Rice abre a porta.

With a little help from my friends

Aquele apartamento de 30 e poucos metros quadrados começa com um estreito corredor onde à esquerda vemos primeiro uma pequena cozinha, depois parede, depois um pequeno banheiro. Depois então abre-se uma sala, onde elegantes móveis de madeira (armários, mesas, cadeiras, estantes) dividem espaço com equipamentos de áudio (hack, mesa de som, cabos, computadores, uma guitarra). O apartamento termina num janelão enorme com uma vista ainda mais estonteante que a do corredor.

É este o “Estúdio Copan”, de Victor Rice, este sujeito boa praça que nasceu em Nova York, cresceu na cidade de Huntington e, há 12 anos, mudou-se para São Paulo. Aos 47 anos, Victor é um dos mais importantes produtores musicais da atualidade, com uma carreira invejável dentro da música jamaicana. Já tocou com New York Ska-Jazz Ensemble, Stubborn All-Stars e The Scofflaws. Produziu o primeiro disco dos Slackers, e ainda Pietasters, Articles e Skavoovie & The Epitones, por exemplo. A velha guarda da Jamaica também já contou com os seu auxílio. Ele já tocou nas bandas de figuras como Laurel Aitken e Desmond Dekker e produziu um álbum dos Skatalites, "Ska Titans".

Um dos seus últimos feitos se deu em 2009. Ao lado da banda americana Easy Star All-Stars, ele se apropriou do mais icônico disco dos Beatles para criar versões dub/reggae. “Sgt Peppers Lonely Hearts Dub Band” foi produzido por Victor, que ainda atuou como baixista. Agora, naquela tarde de uma quarta-feira quente e seca, Victor começa um segundo projeto a partir deste disco – o Dub Hearts Club Band. Trata-se do seguinte: Victor Rice manipulando ao vivo as bases originais do disco, em fita de rolo, ao lado da cantora e compositora Kika Carvalho e do guitarrista Guilherme Held. Eles se apresentam gratuitamente hoje no Sesc Campo Limpo - saiba mais.

O primeiro ensaio do projeto vai começar em instantes. Kika toca a campainha, Victor abre a porta. Kika conta que pegou trânsito, mesma reclamação que Guilherme Held faz minutos depois, quando adentra o estúdio carregando amplificador e guitarra. O trio, há anos acostumado a tocar junto, se ajeita na sala para começar uma viagem inédita pelas canções dos Beatles – a banda que há não muito tempo atrás fez o então pequeno Guilherme Held juntar dinheiro para comprar todas as fitas-cassete do grupo, a banda que Kika lembra-se perfeitamente da primeira vez que ouviu, nos tempos da pré-adolescência; os Beatles, que Victor Rice admite ser uma influência até inconsciente.

Somebody calls you, you answer quite slowly

Em pé em frente ao computador, Victor Rice solta a base de “Sgt Peppers”, a música. Sentado em uma cadeira no meio da sala, Held segue a melodia tocando-a nota a nota na guitarra. Sentada em uma cadeira em frente a Held, Kika canta. “It was 20 years ago today...”. Victor deixa o computador e dirige-se à mesa de som que fica em frente à grande janela com vista para a cidade, e fica de costas para Kika e Held.

Com as mãos, ele brinca com os canais: ao abaixar totalmente um deles, faz desaparecer a voz e só ouvimos os graves do baixo acompanhados da bateria. Instantes depois, ele sobe o canal da voz e um outro, até então desativado, que apresenta sons de metais. Eu assisto de perto, depois sento no único sofá do estúdio e escrevo no meu caderno: “é uma experiência impactante ver Victor fazer dub’s ao vivo.”

Getting so much better all the time

Quando a guitarra de “With a Little Help From My Friends” ecoa nas caixas de som do Estúdio Copan, Kika Carvalho levanta-se e começar a dançar discretamente. Held acende um Malrboro vermelho e limita-se a acompanhar o andamento da guitarra original, deixando para fazer improvisos quase sempre no último compasso. Eles levam a canção até o fim, sem interromper. É um ensaio de poucas interrupções; mais vale ao trio ir sentindo as possibilidades enquanto vão tocando, do que ficar combinando previamente o que vai acontecer. A estratégia funciona. Ao final de “With a Little Help”, Victor Rice vira-se aos dois amigos. “Vamos fazer de novo?” Ambos concordam. Held quer saber de Victor se suas intervenções na guitarra estão poluídas demais, mas Victor já soltou a faixa e eles passam novamente a música. Desta vez, Held opera efeitos de atmosfera mais do que notas e solos. A segunda vez parece ter agradado a todos, e no intervalo para a próxima música Held toca a melodia de “With a Little Help” na guitarra usando a técnica do slide, típica do blues. “Essa melodia é um blues”, ele diz, enquanto chega ao refrão. “Nunca tinha me ligado nisso!”.

I’m painting the room in a colorful way

A música mais lisérgica dos Beatles, “Lucy in the Sky With Diamonds”, ganha uma versão espantosa. Victor ora ressalta os vocais, ora traz à tona as belíssimas linhas de baixo que ele criou originalmente. A voz suave de Kika deixa a melodia ainda mais bonita, e é legal como no refrão ela não segue o tom original, mais alto, deixando a voz do disco na frente e a sua, como uma backing vocal momentânea, atrás. A duração se estica, como manda o figurino. A música termina com Victor brincando com o refrão.

“Lucy in the s” (corte seco).

“Lu / lu / lu / lu”

*

O show de hoje apresenta o disco "Sgt Peppers Lonely Hearts Dub Band" na íntegra - ouça aqui. Victor, Kika e Held terão ainda a companhia da VJ Mari Rillo, que fará intervenções em vídeo.

O trio - ou quarteto - pretende realizar outras apresentações do projeto.

** fotografia, captação de imagens e edição | ulisses andreguetto (curandeiro filmes) arte | belisa bagiani
Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, ex-aluno de futuro promissor, ex-músico de gosto duvidoso e ex-meia direita que já fez gol que saiu no jornal.

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